As prendas para o Menino Jesus





Numa noite fria de Natal um Anjo levou-me à gruta de Belém.
E eu vi o Menino envolto em panos, e acreditei!
Chegavam também pastores, chegava gente que vinha adorar o Menino.
A Boa Nova começara a ser anunciada!
Uns traziam prendas, outros roupa e comida.
Outros simplesmente olhavam. Outros rezavam.
De todos os locais, de todos os tempos e épocas chegavam gentes. Do passado e do futuro chegavam mulheres, homens, jovens, crianças, santos e profetas, que se misturavam com os anjos.
Todos se maravilhavam e davam glórias a Deus.

Um grupo do meu tempo chegou. Eram jovens, conheci-os pelas violas e pelas roupas. Vinham alegres, traziam prendas, mas pediam que o Menino as transformasse.

Disse um deles: "Senhor Jesus, oferecemos-Te este pão. Pão que sacia a fome, que temos em abundância, mas que falta a tanta gente! Tantos pobres sem pão, Jesus! Uns sentados na beira das estradas, outros caminhando com sacos cheios de nada. Descalços, procurando o indispensável para sobreviver em cada dia.
Oferecemos-Te estes nossos irmãos que buscam pão, enquanto nós buscamos o supérfluo. Oferecemos-Te estes irmãos que caminham pelas estradas com os pés feridos, enquanto nós temos carros, transportes que nos levam a todo o lado.
Tu nos convidas a caminhar com eles. Nos convidas a reconhecer a nossa pobreza, a nossa fadiga, a nossa limitação, o nosso caminhar como pessoas frágeis. A reconhecer que na nossa fraqueza, na nossa entrega, está a Tua Força, o Teu Amor por nós todos.
Ajuda-nos Senhor a também lavar e tratar dos pés dos nossos irmãos pobres, e seguir com eles na jornada, sabendo que irás connosco!"

Todos responderam: "Toma e transforma Senhor, com o Teu Amor"
O Menino, embora recém-nascido, sorria. Maria recebia as prendas.

Outro disse ainda, entregando uma bilha a S.José:
"Oferecemos-Te, Menino Jesus esta água, que trouxemos do mar da Galileia, que tantas vezes Te viu passar, e donde chamaste tantos dos Teus apóstolos. Com esta água oferecemos-Te todos aqueles que vão pelo mundo anunciando o Teu Reino, que falam da Tua Ressurreição. Abençoa as suas lutas e fadigas, as suas tristezas e alegrias, a sua solidão, os seus medos, mas também a sua dedicação, o seu amor.
É do Teu sorriso que eles precisam para continuar.
Passa e toca-os com o Teu Amor, Senhor.
Nesta água, oferecemos-Te também aqueles que têm sede de Te conhecer, sede de Te amar, sede de Te descobrir como Deus imenso de amor e de misericórdia.
Passa Jesus pelos nossos mares da Galileia.
Olha-nos, chama-nos, dá-nos da Tua Água Viva, e a nossa vida mudará!"

Todos responderam: "Toma e transforma Senhor, com o Teu Amor"
O Menino sorriu de novo…
As prendas continuavam. Apresentaram-lhe um globo.

"Oferecemos-Te Jesus o Mundo inteiro para que o abençoes.
Oferecemos-Te os irmãos que choram a destruição do seu povo, da sua terra, dos seus lares. Toma as lágrimas desses irmãos que choram sem encontrar explicação para a violência, para a guerra e todo o tipo de destruição. Toma as lágrimas vertidas pelos meus irmãos da Palestina, de Israel, pelos nossos irmãos da América, da Rússia, do Reino Unido, pelos irmãos de Angola, de Moçambique, da África do Sul, da Índia, do Paquistão....
Oferecemos-Te, Jesus, aquela criança que vimos no jornal,
Perdida, chorando a vida que não pode viver como criança.
Nós Te oferecemos, Jesus, todos os nossos irmãos em sofrimento!"

De novo todos disseram: "Toma e transforma, como o Teu Amor. Toma Senhor"
Os Anjos cantavam mais baixinho, enquanto este grupo rezava.
E o Menino, sempre bem disposto, abria os braços…

"Toma Senhor a Terra, e tudo o que lhe temos feito: vê como está contaminada, queimada, destruída, poluída. Transformámos a Tua Obra num local onde a vida morre, onde crescer se torna um milagre.
Toma a Terra Jesus, e transforma-a, para que a vida brote de novo, despreocupadamente; para que as árvores floresçam de novo, inocentemente, para que o Sol nos aqueça sem perigo, generosamente. De novo faz-nos viver a alegria da Tua Criação, louvando-Te na sua plenitude."

"Toma e transforma Senhor, com o Teu Amor!" responderam todos.
Olhando para Maria, continuaram. Nesse momento, todos na gruta se calaram, mesmo os Anjos.

"Menino Jesus, neste Natal queremos Te oferecer o Sim de Maria, Tua e nossa Mãe! O Sim que tornou possível o Teu nascimento, o sim que tornou possível a humanidade nascer de novo.
Nós Te oferemos o silêncio desta Mãe que partilhou as Tuas alegrias, o Teu Calvário, a Tua Ressurreição.
Quando olhamos para Maria, lembramo-nos de todas as mães que perdem os seus filhos, de todas as mães que, em cada dia, perdem os filhos nos caminhos menos felizes que vão trilhando. São estas mães que sofrem, que hoje Te oferecemos, para que suavizes os seus caminhos.
Que elas próprias sejam caminhos de esperança e saibam também apontar os Teus caminhos: caminhos de Paz, caminhos de Alegria.
Neste Natal, Jesus, queremos agradecer-Te por nos teres dado a Tua Mãe!"

E os Anjos irromperam em glórias e louvores a Deus pelo Menino e Sua Mãe.
Jesus sorriu para a Mãe, como só os bebés sabem sorrir para as mães.
E os jovens do meu tempo calaram-se, juntaram-se a mim, ficando sentados em frente ao Menino, simplesmente olhando para Ele. Sorriam-me também.
Mas senti um vazio grande, uma falta de qualquer coisa.
Rapidamente descobri que não trouxera nada para o Menino, e isso incomodava-me. Senti-me envergonhado.
Então Maria, sempre atenta, sorriu-me, veio junto de mim, e pegando-me delicadamente na mão, levou-me para junto do seu Filho.
Nesse instante, o meu coração abriu-se totalmente perante tamanha Beleza, tamanha Ternura, mas também tamanha Humildade e Fragilidade.
E disse ao Menino:

"Olha Jesus, sabes que não Te trouxe nada.
Só Te posso oferecer a mim mesmo, pois nada mais tenho!
Ofereço-Te o meu pecado, para que me ajudes a combatê-lo.
Ofereço-Te a solidão que por vezes me visita, a minha autosuficiência,
os meus momentos de sucesso, as minhas alegrias.
As minhas lágrimas nos momentos mais difíceis. Ofereço-Te tudo o que me tens dado: o amor que me tens revelado através dos meus amigos, pais e tantas pessoas.
Ofereço-Te a gargalhada solta nos momentos felizes da minha vida.
Ofereço-Te tudo o que me faz rezar: uma praia isolada, uma fotografia, uma criança, a arte, as nuvens que passam, o pôr do sol...
Ofereço-Te tudo o que reflecte em mim o Teu amor.
Tu és o dom que eu quero agarrar.
Ajuda-me a não seguir o caminho que me parece mais fácil, mas o caminho que me indicares. Eu me ofereço à Tua Vontade, para que me transformes no Teu melhor presente!
Aceita-me Senhor, toma-me e transforma-me com o Teu amor!"

Então o Menino ficou um nadinha só mais sério, olhou-me e pousou os olhos nos meus, tocando-me profundamente no coração.
E sussurrou-me bem no fundo da alma:
"Obrigado pela tua prenda, pela tua entrega. Mas repara bem como Eu me vou entregar, repara bem como Eu vou amar. Se depois continuares a querer oferecer-Te à minha vontade, mesmo que não te sintas capaz, eu estarei contigo e ajudar-te-ei. No fim, estarás comigo para sempre, os dois no colo do Pai, Eu à direita, tu à esquerda... Fica agora um pouco mais junto de mim. Eu te ensinarei a fazeres-me companhia, a gostares de estar comigo, e a pouco e pouco te transformarei"

Quando voltei, o Anjo perguntou-me o que me dissera o Menino.
E eu, brincando respondi-lhe :
"Se ficares comigo como meu Anjo da Guarda, qualquer dia digo-te".
Mas ele já era o meu Anjo da Guarda…

Ema e António Macedo
Pneumavita

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