“Pela vossa constância é que haveis de salvar as vossas vidas”

Testemunho





Demorei três anos a enviar este testemunho para que ele fosse suficientemente fundamentado e credível, embora já o tivesse difundido por outros meios, nomeadamente a Canção Nova.

Em princípio de Junho de 2007, comecei a sentir uma forte astenia. Depois de algum tempo, vendo que ia piorando, consultei a minha médica de família, que de imediato me mandou fazer umas análises. Estas acusaram uma séria anemia. Dirigi-me ao Hospital para saber do diagnóstico e, depois de uma colonoscopia, o director de gastro-enterologia fez-me acompanhá-lo ao seu gabinete para me transmitir que essa mesma colonoscopia tinha detectado um tumor maligno nos intestinos. Permaneci tranquilo e imperturbável como se me comunicassem algo de irrelevante. Entretanto, o médico prosseguiu encorajandome, e dizendo que, apesar de tudo, havia uma força superior que me ajudaria a superar esta situação melindrosa. Desde logo percepcionei que era uma pessoa crente, o que constatei depois. Estávamos em 31 de Julho de 2007.

Imediatamente o mesmo médico, Dr. Fraga, começou a fazer por mim tudo o que lhe era possível fazer. Fez questão de redigir uma carta para eu entregar em mão a uma das melhores cirurgiãs do Hospital Santos Silva, em Gaia, e de agilizar a preparação para a cirurgia, que haveria de fazer-se em 17 de Setembro do mesmo ano.

Até essa data continuava a viver a minha vida normal, embora com outros problemas de saúde que decorriam de trás, mas sempre com muita paz, serenidade e confiança em Deus, como se nada tivesse. Lembro-me de que, no dia 18 de Agosto, Sábado, efectuámos uma festa familiar de 40 pessoas, e cantei sobremaneira para elas como se fosse o melhor melómano do mundo.

A proximidade da cirurgia e a própria cirurgia, em 17 de Setembro, nada me assustaram. Estava preparado quer para viver quer para morrer. O mais espantoso era a densidade da paz interior. A intervenção cirúrgica decorreu muitíssimo bem. Os três dias seguintes que permaneci na enfermaria dos cuidados imediatos foram extremamente dolorosos, mas tudo aceitava e oferecia a Deus por amor, o que praticamente sempre fiz na vida. Os dias, do quarto dia até ao décimo, passeios noutra enfermaria, sempre com melhoras crescentes.

A certa altura foi-me dito que não carecia de quimioterapia ou radioterapia. Então, ao jeito carismático, perguntei ao Senhor a razão de todo este processo de sofrimento, se tudo tinha decorrido tão bem. E a resposta veio-me de imediato: “para testemunhares”. Desde logo pensei em vários meios de comunicação social, como a “Canção Nova”, a “Pneuma”, a “Rádio Renascença”, algum canal generalista; e, obviamente, o meu testemunho pessoal em homilias, assembleias e grupos de oração. Ao longo destes três anos, tenho sido medicamente controlado. A situação está perfeitamente normalizada.

Sou missionário da Sociedade Missionária da Boa Nova e com bastante experiência do Renovamento Carismático, muitas vezes impus as mãos e rezei pelos doentes. Poderia parecer que uma provação destas jamais passaria pela minha vida: sou humano e, por isso, não sou mais do que os outros seres humanos, todos finitos e vulneráveis. O relevante é estar atento à verdade da presença permanente de Deus, que manifesta o Seu amor de variadíssimas formas. Sei que Deus quer a saúde e a felicidade para os Seus filhos e filhas, mas também sei que, pela cruz, misteriosamente o melhor do mundo acontece.

E agora, mais explicitamente, desejo apontar o grande objectivo do meu testemunho: transmitir uma mensagem de esperança e alguns meios para a alcançar. Há 50.000 portugueses que sofrem de cancro. Estimo que, por outros casos que vi e ouvi, quase a totalidade entra em pânico, quando confrontada em primeira mão com a realidade. Reputo de grande utilidade a partilha desta experiência, que atribuo a uma especial presença de Deus na minha vida.

Muito modestamente posso afirmar que, antes da referida astenia, senti, no dia 13 de Maio desse mesmo ano de 2007, uma comunicação íntima de Deus, que me deixou profundamente emocionado e transbordante de alegria, razão pela qual aceitei com muita paz tudo o que se seguiria. Esta intimidade com Deus, por pura graça, acompanha-me desde pequeno. A mensagem reporta-se também aos meios para obter esta serenidade. A confiança e o abandono incondicional a Deus são fundamentais.

Esta fé fiducial alcança-se com a necessária oração. A fidelidade à praxis cristã e a perseverança até ao fim são outrossim componentes para afastar os medos e manter uma atitude de paz.

Como Jesus disse: “Pela vossa constância é que haveis de salvar as vossas vidas” (Lc.21,19).

Pe. Tomás Borges SMBN

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