Testemunho de um Encontro com a Santíssima Trindade





INTRODUÇÃO

Este meu testemunho é muito pessoal. Falo especialmente do Renovamento Carismático Católico, porque foi através dele que me converti, que conheci e me apaixonei pelo Espírito Santo (3ª pessoa da Santíssima Trindade). O objectivo principal de qualquer Cristão deve ser o de chegar a Deus através de Jesus Cristo e do Espírito Santo, independentemente do caminho que se escolhe. O Renovamento não é um movimento da Igreja, mas sim a Igreja em movimento.

Recebi o Sacramento do Baptismo em criança, mas como ninguém da minha família frequentava a Igreja, eu também não o fazia. Aos meus 8 anos de idade, a minha irmã Clara e o meu cunhado Zé Maria, casaram-se; e como ele vinha de uma família profundamente católica, a Clara converteu-se e começou a levar-me à missa ao domingo e, aos 13 anos de idade, fiz a 1ª comunhão, no intuito de ser madrinha de uma das minhas sobrinhas.

Como não frequentava a catequese, o conhecimento que tinha de Deus era muito pouco, e próprio daquela época — estou a falar de há 50 anos atrás, em que nos diziam que Nosso Senhor estava lá do céu e que só iríamos até Ele se nos portássemos muito bem, caso contrário seríamos severamente castigados.

Lembro-me de achar que o meu caso estava completamente perdido, que seria mesmo impossível ser perdoada, porque, dadas as circunstâncias da vida, sentia uma grande revolta e raiva interior contra tudo e contra todos, e como nada me fazia mudar, já tinha o castigo como garantido e a certeza de que não tinha a mínima hipótese de chegar ao céu. Contudo, é curioso que nunca senti medo de Deus; talvez por ser uma pessoa que só acredita naquilo que sente, e isso não acontecia, nem na própria missa, que ainda por cima era em latim!

Não conseguia acreditar que Nosso Senhor fosse realmente tão severo e tão castigador como diziam. A Clara e o Zé Maria ensinavam da melhor maneira que sabiam mas não conseguiam levar-me a sentir algo que aliviasse aquela dor. Como não conseguia sentir nada, aos 16 anos, quando fui estudar ballet para França, cheguei à triste conclusão de que não valia a pena, e de que jamais iria ter oportunidade de ser amada por Deus; então acabei por me afastar por completo da Igreja.

A CONVERSÃO

Em 1996, com 44 anos, a minha vida estava um caos completo, com um processo de divórcio e, desde 1989, com uma grande depressão pós parto, que se prolongou devido a uma doença do meu filho mais novo, forçado a fazer duas operações, uma aos 19 dias e outra aos 2 meses de idade, por negligência médica. Em cima de tudo, a morte do meu Pai. Para além da depressão, tinha um tumor num tendão (na sola do pé, junto a um dedo), que me dava dores fortíssimas, como choques eléctricos. Tinha de usar umas palmilhas ortopédicas para que a zona dos dedos não assentassem no chão; tinha uma grande dificuldade em andar descalça. A única solução seria uma operação — e, mesmo assim, iria ficar inutilizada para poder exercer a minha profissão, pois os dedos do pé perderiam 50% de mobilidade.

Sentia-me prostrada, bloqueada, com uma grande falta de auto-estima; a minha depressão era profunda. Era como se estivesse no fundo de um poço, sem forças para reagir; nem sequer conseguia estar com os meus filhos, que, graças a Deus, naquela altura tiveram todo o apoio do Pai. Nada me fazia sentido, só tinha pensamentos negativos, e o único desejo que sentia era de desaparecer.

Num desses dias em que estava super deprimida, o Zé Maria chegou perto de mim e disse: “Jesus está vivo”. Eu fiquei muito surpreendida, não entendi nada do que ele estava para ali a dizer, e até cheguei a pensar que estava a brincar comigo; então ele explicou-me dizendo que Jesus estava vivo, não em carne e osso, mas sim em espírito; e acrescentou ainda: “vou provar que é verdade o que estou a dizer, levando-te comigo e com a Clara a Madrid, a um encontro do Renovamento Carismático Católico com o Padre Emiliano Tardif, que tem o ministério da cura e reza pelos doentes”. Aceitei o convite, mas sem grande entusiasmo nem convicção. Hoje, acredito que lá bem no fundo do meu coração tinha uma leve esperança de que lá iria encontrar uma solução para sair da fossa em que me encontrava, naquele momento.

Lá fomos de autocarro, com um grande grupo do Renovamento de Lisboa (Pneuma). Lembro-me de ir quase toda a viagem com a cabeça encostada à janela, muito prostrada, sem forças e sem vontade de reagir. O Padre Lapa (missionário do Espírito Santo e introdutor do Renovamento Carismático Católico em Portugal), a certa altura da viagem sentou-se ao meu lado no autocarro, deu-me a mão e rezou por mim em silêncio durante um longo momento. Lembro-me de ter sentido naquele momento uma paz maravilhosa, que nunca tinha sentido anteriormente. No fim da oração o Padre Lapa disse-me:
“Tem calma, o teu tempo vai chegar”.

Quando chegámos, eram 21 horas; estávamos todos exaustos e com fome; ao descer do autocarro, dei de caras com o Padre Carlos Silva, que não conhecia pessoalmente; e eu, sem saber porquê, disselhe: “não me confesso há 30 anos”. Mais tarde ele contou-me que tinha ficado parado à porta do autocarro, também sem saber porquê; não me conhecia de lado nenhum, tinha sido um dos primeiros a sair, e eu uma das últimas! Olhou para mim e, apesar de se sentir cansado da viagem, disse-me sem hesitar para o acompanhar, e ouviu-me em confissão. Essa confissão foi sem sombra de dúvida o passo mais importante para a minha conversão. Foi uma limpeza total da alma, por ter sido feita de coração aberto e por, mesmo sem clara consciência disso, ter deixado o Espírito Santo vir a mim e limpar o que estava a minar o meu coração e a minha alma.

No dia seguinte já me sentia outra; sentia-me leve, como se me tivessem tirado das minhas costas um peso com muitas toneladas. A sensação era como se estivesse no mar calmo, a flutuar, com uma alegria que vinha da alma. A Clara, o Zé Maria e todos os que me acompanhavam nem me reconheciam.

A ACÇÃO DO ESPÍRITO SANTO

Em Madrid, foi só um fim-de-semana, mas talvez o mais intenso da minha vida. Assisti a palest ras, Adorações ao Sant íssimo Sacramento, Eucaristias de cura e libertação e recebi uma Efusão do Espírito Santo.

Abro aqui um parêntese para explicar como entendo a Efusão. Creio que todos os baptizados recebem o Espírito Santo no Baptismo (Act.2, 38-39); e, mais tarde, no Crisma, e nos outros Sacramentos. Ele fica a morar no nosso coração; mas, se não o acolhemos devidamente, acontece assim como quando deitamos açúcar na chávena do café e não o mexemos com a colher: fica no fundo sem adoçar o café. Para recebermos o Espírito Santo é preciso acolhermos devidamente o Espírito.

Precisei então de me preparar, de me dirigir a Jesus e de Lhe pedir (Lc.11,9-13) com fé que me baptizasse no Espírito Santo, com todos os dons e carismas do Espírito. Enquanto isso, irmãos leigos impunham as mãos, rezando com cânticos e oração em línguas (Act 19,6), invocando o Espírito Santo (1Cor 12,4-11). No meu caso, a oração de Efusão foi assim, mas sei que pode também ser em grupo. Lembro-me de ter sentido naquele momento uma sensação de liberdade física e de uma paz muito grande. E foi-me dada a passagem de S. Paulo: “…De facto, todos os que se deixam guiar pelo Espírito, esses é que são filhos de Deus…” (Rm 8,1-17). O Espírito Santo, que estava como que prisioneiro no meu coração, manifestou-se com força (Jo 7,37-39). Dizem que há pessoas que só começam a sentir a transformação ao fim de algum tempo. Mas, em mim foi de imediato.

Em cada celebração animada pelo Padre Tardif, houve sempre muitas curas, muitos testemunhos de pessoas que tinham sido curadas. Para mim foi uma grande surpresa, por nunca ter assistido a nada de semelhante. O que mais me tocou foi sentir a humildade e a entrega total ao Senhor do Padre Emiliano Tardif; e a forma como rezava por todos. Sentia-se a presença do Espírito de Deus; e que todos eram tocados por Ele.

Voltei à minha vida com uma força e uma alegria tão grandes que me apetecia contar a toda a gente o que se estava a passar comigo. Alguns sacerdotes explicaram-me que essa é como uma fase de enamoramento pelo Espírito, porque a sensação é de paz, de leveza, de alegria e felicidade. Tudo parece belo e infinito; é tal e qual o que senti quando me apaixonei pela primeira vez. Mas também extraordinário é que nunca mais senti uma única dor no pé. Na altura, até comentei com a minha irmã: “Tem graça, estou tão feliz que nem sinto dores no pé!”

Foi uma experiência pessoal maravilhosa, muito rica, de grande intimidade com Deus. Hoje creio que nada do que aconteceu, durante a viagem, foi por acaso. Estava nos planos de Deus a minha conversão; mas grande Graça foi a de eu estar receptiva quando aceitei o Seu convite, através do Zé Maria. Dou graças a Deus! Deus respeita inteiramente a nossa vontade.

A FORÇA DO ESPÍRITO SANTO

De regresso a Portugal, parecia outra, era como se a Maria doente tivesse morrido lá. A Maria que tinha voltado já não era mais a mesma. O tempo foi passando e continuava a não sentir dores no pé, resolvi então tirar as palmilhas. Qual não foi o meu espanto, ao chegar à conclusão de que as dores tinham mesmo desaparecido de vez. Fui ao médico de novo para fazer novos exames; e o resultado foi negativo, não havia nem vestígios do tumor, graças a Deus! Foi uma grande emoção sentir uma tão forte e tão rápida transformação espiritual e cura física.

As curas mais importantes que se deram em mim foram, sem dúvida, as da alma e do coração. A imagem que tive do meu interior foi como se estivesse num quarto escuro e, de repente, se acendesse uma luz que permitisse ver uma grande quantidade de lixo e de pó até ao tecto. Num ápice, o Espírito Santo veio, entrou, soprou, e tudo desapareceu. Até hoje. É curioso que o Padre Lapa me tenha dito que o meu tempo ia chegar; porque, pouco tempo mais tarde, em Altura, recebi uma profecia, quando uma irmã, abrindo a Bíblia ao acaso, me leu a seguinte leitura: ”Para tudo há um momento e um tempo, para cada coisa que se deseja debaixo do céu” (Ecl 3,1).

Não é fácil manter sempre a mesma força; o mais difícil, quanto a mim, é a caridade para com o irmão, principalmente aquele que não me ama; e isso só é possível com a unção do Espírito Santo. Como qualquer ser humano, tenho momentos em que me sinto abatida, e o primeiro impulso é sentir a tentação do desânimo. Nessas alturas, vou de imediato ter com o Sacerdote que me aconselha nesta caminhada e me ajuda a manter-me perseverante na Fé. Mas já tem acontecido estar só e não ter ninguém a quem recorrer; aí aprendi que a primeira coisa a fazer é invocar o Espírito Divino com Fé, e esperar com muita serenidade, em silêncio, a resposta que preciso para continuar a caminhar. Às vezes ela demora, mas não falha; de repente, quando eu menos espero, Ele fala, através da Palavra, através de alguém ou até da minha inspiração; e de imediato a minha reacção é sentir força interior, alegria, paz e vontade de agir (1 Cor 10,13). Mas aprendi com o tempo que nunca devo agir impulsivamente, porque, quando não há paz, o que se sente pode não vir de Deus.

Também preciso do sustento espiritual que está na Eucaristia, durante a semana e todos os Domingos; na Adoração ao S.S., às 5ªs feiras; na Confissão mensal; na Oração pessoal diária (Ef 6,18); no Louvor a Deus e na Acção de Graças (1 Cor 1-4; 1 Ts.5,16-19). Costumo também rezar em comunidade, semanalmente, num grupo de Oração Carismática; e peço o Espírito Santo para toda a humanidade, principalmente para os que sofrem por se sentirem “abandonados”, tal como eu me sentia antes da minha conversão.

Com este encontro pessoal com Deus, aprendi na Fé que só se chega ao Pai através do Filho (Jo 14, 6-7); e só se chega a Jesus Cristo através do Espírito Santo (Jo 14,12-21; Jo 16,12-15). Os Discípulos, que conviveram com Jesus, só depois de Pentecostes (Act. 2,1-4) é que deixaram de ter medo e passaram a ter força para evangelizar!

Este é o meu testemunho, mais um entre milhões por todo o mundo: de que Jesus está vivo e ressuscitado, no meio de nós; e de que, com todo o Seu Amor Misericordioso, continua hoje a fazer os mesmos milagres que fazia há dois mil anos atrás.

Muito obrigado, Senhor, por me teres salvo, perdoado, curado e ungido com o Teu Santo Espírito. Muito obrigado por estares sempre presente e seres uma presença viva e constante na minha vida e na dos meus filhos. Hoje, olhando para trás, dou graças a Deus por tudo; mas há algo que é de especial felicidade para mim, e não posso deixar de revelar. É que a unção do Espírito Santo se manifestou também nos meus filhos, que não tinham formação religiosa e, oito meses após a minha conversão, foram baptizados; e receberam a comunhão, pela mão do Padre Lapa, numa Eucaristia celebrada numa assembleia da Comunidade Pneumavita, em que, no final, todos rezámos, impondo as mãos. Hoje, tenho uma imensa alegria em vêlos cheios de Fé; e fiéis ao serviço do Senhor, como catequistas.

Bendito e Louvado seja Deus!
A Ti, Senhor, toda a honra e toda a Glória!

Maria de Freitas Branco
Tavira, 01/08/2010.

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