Testemunho da Fé
Foi com emoção, que ao abrir para folhear a Pneuma que acabei de receber, os
meus olhos caíram neste título:
"33º Aniversário e Passagem de Testemunho".
Intuí de imediato o teor da notícia e nem sequer precisei de voltar a página
para saber quem seria aquele que iria receber o testemunho.
Só um homem de humildade, um homem que serve, que quer servir, é capaz de passar
assim o testemunho de uma obra que construiu por suas mãos, suportado sempre,
é certo, pelo Espírito Santo que o conduz.
Esta carta, ou este texto, não o dirijo na primeira pessoa ao Padre Lapa, embora
lhe vá enviar uma cópia, pois o original irá para o novo Director da Pneuma,
o meu estimadíssimo amigo Mário Pinto, a quem peço desde já perdão por não utilizar
os seus mais que merecidos títulos académicos, pois a amizade assim mo permite,
julgo eu.
O Padre Lapa, como sempre o conheci, faz parte integrante e importante da minha
vida passada, presente e sei que futura.
Conheci-o talvez há trinta anos, ou mais, quando vinha para Monte Real como
capelão da capela das termas. Eu tinha regressado da guerra da Guiné, bastante
amargo e descontrolado, e o Padre Lapa despertava em mim sentimentos diversos.
Por um lado, tinha por ele uma certa empatia, pela sua maneira de estar, alegre
e descontraída, diferente da maior parte dos sacerdotes que tinha conhecido
na minha vida; mas, por outro lado, criticava-o pelo seu modo de agir em relação
às "coisas" religiosas, tais como o modo como celebrava a Eucaristia, que para
mim era uma total falta de respeito - o que me dava bastante jeito, porque andando
eu afastado da Fé e da Igreja, era uma desculpa óptima para não pôr os pés na
igreja.
E isto, claro, porque estando em Monte Real, me sentia confrontado com a vivência
religiosa dos meus pais e o modo como eles me tinham ensinado, e por isso tinha
de arranjar desculpas para ser como eu queria ser.
No entanto ele insistia em falar comigo, o que me irritava um pouco, porque
a sua presença e a sua maneira de estar me provocavam algo que eu não sabia
explicar, mas que mais tarde iria saber. E assim se passaram os anos, e eu cada
vez mais me fui afastando de Deus, da Fé, da Igreja. E o Padre Lapa deixou de
ir para Monte Real, se calhar também um pouco por culpa minha e das coisas que
eu dizia em casa.
Quando, por volta dos meus quarenta e quatro anos, o meu coração me começou
a incomodar com a vida que levava, e me levou a procurar algo que desse sentido
à minha vida, comecei a sentar-me na igreja de Monte Real e a falar com Ele,
que sem me dar grandes respostas me ia fazendo sentir a Sua presença.
Comecei a ir à igreja e à celebração da Eucaristia, mas aquela maneira de viver
a religião, de viver a Fé, que começava a criar raízes em mim, sabia-me a pouco
e eu tinha a sensação de que, mais tarde ou mais cedo, voltaria ao mesmo. Precisava
de algo mais, de algo que, no dia a dia, me fizesse viver a Fé, a acção, a razão
de acreditar.
Li muitos livros; e num deles apareceu-me, pela primeira vez, a menção ao Renovamento
Carismático Católico; e, numa nota de página, a informação de que, quem tinha
trazido para Portugal o RCC, tinha sido o Padre José da Lapa. Aí, claro, percebi
pelas Missas que eu tinha "ouvido" fora da capela das termas, que só podia ser
ele, o "tal" de Monte Real.
Como estava a sua morada, decidi escrever-lhe para perguntar o que era aquilo
do Renovamento e como podia ter contacto com ele e com esse movimento. Demorou
algum tempo a resposta, o que me levou a pensar que ele não queria nada comigo,
mas afinal era apenas devido ao período de férias. A sua carta era a de um amigo
que me parecia ter visto no dia anterior.
Longe de conselhos, ou admoestações, declarava-se contente com o meu contacto
e convidava-me a ir a uma Assembleia da Pneumavita, em Fátima. Corria o ano
de 1997. Disse-lhe que sim; e ele tratou de tudo, para eu e a Catarina, minha
mulher, podermos estar presentes. Quando nos encontrámos, nesse fim de semana,
abraçou-me como um amigo de longa data e esse abraço rompeu totalmente as minhas
reticências em relação a ele.
Senti uma confiança total na sua amizade e senti que Deus o tinha colocado na
minha vida com o propósito de me chamar a uma vida de Fé verdadeiramente vivida.
Como já disse em tempos, aquela Assembleia mudou a minha vida totalmente; e
o "desgraçado" do Padre Lapa teve de aturar a minha vontade de fazer coisas,
de participar, de falar, de não estar quieto, muito mais excitação do que vivência
consciente da Fé.
Com a sua calma, a sua paciência, a sua humildade, foi-me acalmando, foi-me
dirigindo à distância, foi-me apontando caminho, e eu fui crescendo na Fé, no
conhecimento de Deus, na entrega aos outros, sobretudo nos Grupos de Oração.
Passados uns anos, a meu convite, regressou a Monte Real, primeiro para fazermos
uns encontros do Reno-vamento, e depois novamente como capelão da capela das
termas. E então revelou-se, pelo menos para mim, o humor de Deus. No mesmo sítio
em que eu tanto tinha criticado a sua forma de celebrar, de viver a Fé, o Senhor
juntou-nos; e depois de ele presidir à recitação do Rosário, eu fazia um ensinamento
sobre a palavra escolhida.
Conto tudo isto apenas porque, neste momento, o Padre Lapa entrou forte no meu
coração; e porque tenho a certeza de que, longe de estar "triste" ou incomodado,
vive a alegria de poder transmitir a obra que o Senhor colocou nas suas mãos,
e que com a assistência permanente do Espírito Santo ele tem conduzido a bom
porto.
Faço-o numa homenagem ao homem que, ouvindo e aceitando o chamamento de Deus
na sua vida, tudo soube colocar nas Suas mãos, deixando-se conduzir para servir
a Deus, servindo os outros. Faço-o porque me enternece e orgulha a amizade que
me tem. Daquele corpo frágil, ainda temos muito a esperar, porque a mente é
forte e jovem, inundada que está do Espírito de Deus.
Ao meu amigo Mário Pinto, que sempre me toca com a sua amizade, desejo as maiores
felicidades nesta sua nova caminhada, certo de que a Pneuma vai continuar como
revista de referência do Renovamento Carismático em Portugal, porque Aquele
que conduziu e continua a conduzir o Padre Lapa é exactamente o mesmo em Quem
o Mário Pinto confia para continuamente o guiar.
Às minhas irmãs e irmãos de Pneumavita, o meu abraço fraterno e obrigado, por
sempre me fazerem sentir em família quando com eles estou. Ao Padre Lapa, a
minha profunda e desmedida amizade, com um abraço maior do que a minha enorme
gratidão.
Joaquim Mexia Alves