Porque volto para Angola?




Em toda a minha vida de Padre Missionário da Congregação do Espírito Santo, sempre procurei mostrar-me disponível para a missão que os meus Superiores me confiassem. Foi assim, no meu estágio missionário, como Seminarista do 3º ano de Teologia, ocorrido entre 1971 e 1973: em dois anos estive na Missão de Sangueve (18 meses) e Seminário do Jau (6 meses); a passagem de um local ao outro foi porque o meu Superior, na altura, o P. Serafim Lourenço, me pediu para ir substituir o P. Miguel, açoreano, que teve de estar com o seu Pai numa situação de doença grave.

Quando em Fevereiro de 1975, um ano após a Revolução de Abril, uma grande parte dos portugueses regressava das Colónias, eu me disponibilizei para voltar a Angola, agora, já como Padre. Nessa altura, ninguém me aconselhava a partir. Os meus familiares, inclusive, me diziam para esperar o fim da guerra. Mas, eu sentia no meu interior o desejo de partir para a terra onde tinha feito a minha primeira experiência missionária.

Nestes doze anos da minha segunda passagem por Angola, sem eu ter feito nada por isso, mas sim, devido à situação de guerra que então se vivia, tive cinco nomeações para outras tantas situações diferentes: de Março a Junho de 1975 estive na Missão de Chicomba; de Julho de 1975 a Fevereiro de 1976, na Sé Catedral do Lubango; de 9 de Março de 1976 até Abril de 1981, na Missão de Caconda; de 1981 a 1983, no Lobito e Benguela; de 1984 a 1986,no Huambo. Por todas estas terras fiz belas experiências missionárias!

Mas, a mais enriquecedora foi a de Caconda, o que parece contraditório depois de ter testemunhado o assassinato dos dois meus confrades. Oito dias depois da minha chegada, o Ir. Afonso Rodrigues e o P. Martinho Thyssen, em pleno dia - o relógio marcava 13.30h. - foram mortos por um militar armado; eu, ainda hoje não consigo explicar como foi possível sair ileso daquela situação! Para mim, um verdadeiro "milagre"! O meu Superior, na altura o P. Serafim Loureço, não queria, de maneira nenhuma, que eu lá continuasse; as Irmãs de S. José de Cluny também queriam abandonar a Missão. Foi no fim duma reunião com o P. Namolo, Vigário Geral, vários Espiritanos, Catequistas e algumas pessoas do povo, realizada depois do funeral, me foi dada a palavra para dizer apenas: "fico"! As Irmãs também se encheram de coragem e todas elas (cinco) ficaram. Nunca me preocupei se iria ser capaz de cumprir o meu dever numa Missão com mais de cinquenta mil cristãos, mais de 120 aldeias… Desconhecia totalmente a organização e contabilidade da Missão, a linguagem do povo… Tinha chegado, apenas, há oito dias! Tive a atitude de me entregar nas mãos de Deus e confiar só n'Ele! Por isso, posso afirmar, com toda a verdade, que aqueles cinco anos ali passados foram os anos melhores da minha vida!

Poderia ter continuado por mais tempo, não fosse a "nacionalização", em Abril de 1980, de todas as estruturas ao serviço da evangelização: escolas, igreja, hospital, internatos, residência do Padre e das Irmãs!... Apenas tive uma hora para tirar algumas coisas pessoais do meu quarto! As Irmãs e eu passámos, então, a viver na Residência Paroquial da Vila de Caconda, situada a quatro quilómetros da Missão. Lá poderia ter continuado, se não fosse um outro episódio, fruto da revolução: fui acusado de espalhar pelas Capelas das aldeias as bandeiras do Movimento da oposição. Apesar desta acusação ser infundada, o Snr. Arcebispo do Lubango, D. Alexandre Nascimento, achou por bem que eu deveria sair de Caconda quanto antes. Foi, então, que o meu Superior me colocou em Benguela e Lobito. Os três últimos anos de permanência em Angola foram passados no Huambo, mais concretamente no Seminário espiritano a funcionar, na altura, no bairro da Calomanda. Foi a vez de voltar a Portugal para trabalhar, fundamentalmente, na Animação Missionária. Depois de ter passado pelos Seminários da Silva e Braga, e ainda, pelo Pinheiro Manso no Porto, fui colocado em Coimbra. Aqui fiquei cerca de dez anos.

Também, nesta altura, o meu Superior Provincial, P. Eduardo Miranda, quando me perguntou se estaria disponível a partir para Cabo Verde, eu respondi: "eu gosto deste trabalho de animação missionária, nesta zona centro do país; mas, se for preciso, estou disponível para partir".

E assim aconteceu. No ano de 1999 fui colocado na Paróquia de S. Miguel Arcanjo, na Ilha de Santiago - Cabo Verde. Volvidos 8 anos, também o meu Superior, P. João Baptista, me fez a pergunta nos mesmos termos: "gostarias de voltar para Angola?" A minha resposta foi a mesma: "gosto de estar aqui nesta linda e acolhedora terra de Cabo Verde - terra da "morabeza" - mas, se for necessário, estou disposto a partir!"

É assim que, decorridos mais de 20 anos após a minha segunda passagem por Angola, de novo volto para a terra que me viu "nascer pela segunda vez": Caconda! Por que volto? Uma pergunta nada fácil de responder, principalmente para quem vir as coisas só à luz da razão! Muita gente me questiona: "gostas de ir para Angola? Já não tens idade para aventuras; aqui também há falta de padres; estás numa idade em que os problemas de saúde se podem agravar, e lá não tens condições para te tratares." Ou, então, como aquela velhinha da minha aldeia que me dizia: "snr. Padre, não vá para Angola, porque aqui também governa a sua vidinha!" Respondo sempre da mesma maneira: "não vou por gostar como quem gosta de um rebuçado; também não vou para governar a minha vidinha!", vou, tão somente confiado em Deus, para cumprir a minha vocação de missionário "ad gentes", no meio de um povo que aprendi a amar e a servir! A minha partida para Angola -como a de tantos outros missionários para qualquer parte do mundo - está sempre envolta em "mistério"! Por isso, não pode, apenas, ser vista racionalmente. A Missão não se explica!… Vive-se!... É o amor de Deus que nos impulsiona!

Vou regressar a Angola, e mais concretamente a Caconda, com a vontade de ser apenas, como dizia a Madre Teresa de Calcutá, "aquela gota de água límpida onde se reflecte o amor de Deus. Parto sem grandes planos e sem o desejo de fazer grandes coisas aos olhos do mundo! Vou procurar ser uma presença amiga junto do povo. Esperei pelo Visto 12 meses! Muito tempo!... de tal maneira que já tinha combinado com o meu Superior Provincial, P. José Manuel, de que a espera não iria ultrapassar o Natal de 2008. O meu ex-superior em Cabo Verde, P. João Baptista, já me tinha feito o convite para regressar, dizendo: "se o teu Visto não sai, é porque Deus quer que voltes a estas terras." Mas, o Visto saiu um pouco antes de expirar o prazo! Ninguém me obriga a voltar!

Na vida missionária, como noutra vida qualquer, ninguém é obrigado a nada! Só o Amor e a paixão por Cristo e pela sua missão nos "obriga" a sairmos de nós mesmos e a partir! Tal como a Abraão, Deus continua a dizer a mim, a ti e a todos nós: "Deixa a tua terra, tua família e a casa de teu pai, e vai para a terra que eu te mostrar…"

Pe. Marques de Sousa C.S.Sp


<-- Voltar atrás