O
dom da gratidão
Eu vivia presa de uma “fé intelectualizada”. Deus era, para mim, o Senhor Deus do Universo, a Entidade Cósmica Máxima, Inacessível, Senhor de toda a Vida, a quem eu humildemente prestava culto, cônscia da minha pequenez, da minha total incapacidade de alcançar a Sua suprema grandeza. Deus?! Sim. Deus em tudo e em todos. O Senhor Deus das incontáveis galáxias. Vivia maravilhada por pertencer ao Cosmos, mas eu… quem poderia eu ser para Deus, na infinitude da Sua maravilhosa criação? Formiga? Grão de areia? Nem isso. Minúscula e invisível partícula do planeta Terra.
Um dia, uma grande amiga, cuja Fé me espantava diariamente, quase me obriga a ir com ela a uma reunião do Renovamento Carismático Católico. Iria lá estar alguém com o “dom de profecia”. Não acreditei. Fui, por simpatia humana. A minha amiga tinha-me em grande consideração, principalmente pela maneira como eu vivia com uma doença grave e incapacitante desde a infância, sem queixume visível, sem desânimo, sem revolta. Lá fui. Confesso que nem a curiosidade me movia, e a dificuldade para me deslocara até à Igreja onde era a reunião, sobretudo a escadaria que me esperava, não eram aliciantes. Lá fui, apoiada por braços amigos. Encolhida na minha cadeira, perdida entre centenas de pessoas, eu olhava em volta, com o distanciamento próprio de quem está habituado a observar comportamentos e a reflectir. “O homem das profecias”, por fim, falou da sua conversão, do seu amor a Deus e à Virgem. Banal. Sem grande capacidade oratória. Não me tocaram minimamente as suas palavras e as expressões de alegria, o quase júbilo da assembleia deixaram-me perplexa. “Isto será manifestação de Fé ou expressão de emocionalismo básico?”, perguntava-me sem grande simpatia. Quase a terminar a reunião, o “homem das profecias” começa a descrever alguém presente na assistência. Tinha um tom de voz seguro, mas como que concentrada noutra realidade, que procurava visualizar para verbalizar: “Está connosco uma mulher que sofre de uma doença grave, desde menina. Estou a vê-la a fazer algumas tarefas, com muita dificuldade. Quase não se consegue mover. Parece ter muitas dores. Estou a vê-la. Quase se arrasta…” O homem interrompe. Com voz muito mais decidida conclui: “Tenho uma mensagem para esta mulher: vai melhorar muito. E vai começar espontaneamente a louvar a Deus e a dar testemunho público de Jesus Cristo”. Ao meu lado, a minha amiga, emocionada, bate-me no braço: “É contigo! É contigo!” Quase me irrito. “Comigo, porquê? Estão aqui centenas de pessoas!”
Passaram dois anos. Esqueci o homem. Acreditar em profecias não condizia comigo. Autênticas profecias só as da Bíblia, que lia frequentemente com todo o respeito, há muito tempo.
27 de Outubro de 1997. O impensável acontece. Acabo de descer normalmente uma escadaria. Sem dor. Sem esforço. Sem ir agarrada com as duas mãos ao corrimão. Dou comigo a exclamar bem alto: “Obrigada, meu Jesus! Obrigada!” As semanas passam e sempre que subo e desço degraus, a mesma voz canta dentro de mim (serei eu?): “Obrigada, meu Jesus!”
20 de Dezembro de 1997. Tarde fria mas de sol pleno. Vou até uma praia, sozinha. Corro pela areia, deslumbrada. Há quarenta anos que não corria! Durante muitos, muitos anos, mal consegui andar sem dor. Irrompe dentro do meu peito um hino de gratidão. “Obrigada! Obrigada!” O meu Senhor Deus do Universo conhece-me, a mim, pequenina partícula do planeta Terra! Jesus corre ao meu lado na praia. O Espírito Santo baptiza-me solenemente naquela água, no momento exacto em que compreendi a INFINITA BONDADE DE DEUS PARA COM AS SUAS CRIATURAS.
Chego a casa e, em lágrimas, telefono ao meu cirurgião. O médico assusta-se. Que foi? Não está habituado a que um seu doente lhe agradeça, em lágrimas de alegria correram e correm ainda, banhando a minha alma, lavando marcas de solidão, de alguma tristeza recalcada, purificando, salvando, redimindo.
Começo a ver tudo com um outro olhar. Mesmo que nunca tivesse tido a alegria de ter ido correr à praia, Deus conhecia-me. Sempre me conheceu, sempre me conhecerá. Por isso mesmo é o Senhor Deus do Universo. Incompreensível para as limitadas categorias da minha humana inteligência, mas atingível pela infinita capacidade de amar presente nas suas criaturas. E o Espírito Santo continua a falar pela boca dos profetas. Sempre que quer. Onde quer. “Quem tiver ouvidos, que oiça!”
E aqui estou. Todos os dias, como a samaritana que encontrou Jesus junto ao poço de Jacob e largou tudo para ir dizer: “Vinde ver!” Amigos, afinal eu sou como aquele leproso que voltou para trás para agradecer.
Continuo
o meu caminho, anunciando Jesus Cristo e na esperança de nunca perder
o Dom da Gratidão.
Fernanda Ruaz