Como ramos da videira





O Concílio Vaticano II (1962-1965), marco fundamental para a vida da Igreja dos nossos dias e resposta aos desafios do mundo contemporâneo, propõe-nos “a genuína doutrina sobre a revelação divina e a sua transmissão para que o mundo inteiro, ouvindo, acredite na mensagem da salvação, acreditando espere, e esperando ame” (constituição dogmática «Dei verbum»). A revelação é Jesus Cristo, a Palavra de Deus encarnada, feita um de nós. E Cristo confiou aos Apóstolos a missão de levarem a sua boa nova até aos confins da terra.

Na «Lumen gentium», constituição dogmática considerada pedra angular do Vaticano II, ultrapassou-se a imagem da Igreja apresentada de fora como a “sociedade dos cristãos” oposta à sociedade civil; ou a imagem de uma Igreja de classes: a hierarquia, os bispos e os sacerdotes seus colaboradores, actuando perante uma galeria de assistentes, os leigos, cristãos de segunda categoria. Este Concílio, que o Papa João Paulo II, no seu livro «Atravessar o Limiar da Esperança» diz ter sido um “seminário do Espírito Santo aberto ao mundo”, apresenta-nos a Igreja como mistério de comunhão e como povo de Deus, um povo de peregrinos que não têm aqui a sua morada e que caminham para a pátria definitiva “entre as perseguições do mundo e as consolações de Deus” (Santo Agostinho).

Neste momento da história, cabe-nos a nós, fiéis leigos, como membros da Igreja de pleno estatuto em virtude do nosso sacerdócio baptismal, uma especial participação no cumprimento da missão confiada aos Apóstolos pelo Senhor Jesus. Daí a relevância da exortação apostólica «Christifidelesd laici» (Vocação e Missão dos Leigos na Igreja e no Mundo) que João Paulo II escreveu após o Sínodo dos Bispos realizado em Roma no ano de 1987.

Na verdade, pertencemos àquele povo de Deus que é representado na imagem dos trabalhadores da vinha de que nos fala o Evangelho de S. Mateus (Mt 20, 1-16). Parafraseando a exortação, “esta parábola abre os nossos olhos à imensa vinha do Senhor e à multidão de homens e mulheres que Ele chama e envia para trabalhar nela. A vinha é o mundo inteiro, que deve ser transformado segundo o plano de Deus em ordem ao advento definitivo do Seu reino”.

“Ao sair pelas nove horas da manhã, viu outros e disse-lhes: Ide vós também para a minha vinha” (Mt 20, 3-4). O convite do Senhor Jesus “Ide também vós para a minha vinha” continua, desde esse longínquo dia, a fazer-se sentir ao longo da história: dirige-se a todo o homem que vem a este mundo. Nos nossos dias, a Igreja do Concílio Vaticano II, numa renovada efusão do Espírito de Pentecostes, amadureceu uma consciência mais viva da sua natureza missionária e ouviu de novo a voz do Senhor que a envia ao mundo como “sacramento universal de salvação” (Lumen gentium). A chamada não diz respeito apenas aos bispos, aos sacerdotes, aos religiosos e religiosas, mas estende-se aos fiéis leigos: também eles são pessoalmente chamados pelo Senhor, de quem receberam uma missão para a Igreja e para o mundo, à qual se espera que respondam com decisão de vontade, ânimo generoso e disponibilidade de coração à voz de Cristo e ao impulso do Espírito Santo.

“Ide também vós para a minha vinha.” Mais uma vez estas palavras ecoaram espiritualmente durante a celebração do Sínodo já referido. De olhos postos no pós-Concílio, os padres sinodais puderam observar como o Espírito continuava a rejuvenescer a Igreja, suscitando novas energias de santidade e de participação em tantos fiéis leigos. Provava-o, entre outras coisas, o novo estilo de colaboração entre sacerdotes, religiosos e fiéis leigos; a participação activa na liturgia, no anúncio da Palavra de Deus e na catequese; a multiplicidade de serviços e de tarefas confiadas aos fiéis leigos e por eles assumidas; o radioso florescimento de grupos, associações e movimentos de espiritualidade (entre os quais o Renovamento Carismático Católico) e de empenhamento laicais; a participação cada vez maior e significativa das mulheres na vida da Igreja, e o progresso da sociedade.

O fruto mais precioso deste Sínodo foi (e continua a ser) que os fiéis leigos escutem o chamamento de Cristo para trabalharem na Sua vinha. Novas situações, tanto eclesiais como sociais, económicas, políticas e culturais, reclamam hoje, com uma força muito particular, a acção dos fiéis leigos. Se o desinteresse foi sempre inaceitável, o tempo presente torna-o ainda mais culpável. Não é lícito a ninguém ficar inactivo. Não há lugar para o ócio, uma vez que é tanto o trabalho que a todos espera na vinha do Senhor. O proprietário insiste ainda mais no seu convite: “Ide também vós para a minha vinha”. Temos, pois, de encarar de frente este nosso mundo, com os seus valores e problemas, as suas inquietações e esperanças, as suas conquistas e fracassos: é esta a vinha, é este o campo no qual os fiéis leigos, nós, nesta hora magnífica e simultaneamente dramática da história, somos chamados a evangelizar e a viver a nossa missão.

A Bíblia emprega a imagem da vinha de muitas maneiras e com diversos significados mas ela serve especialmente para exprimir o mistério do povo de Deus. Já no Antigo Testamento os profetas recorriam à imagem da vinha para indicar o povo eleito: Israel é a vinha de Deus, a obra do Senhor, a alegria do Seu coração. Jesus retoma o símbolo da vinha e dele se serve para revelar alguns aspectos do Reino de Deus. O evangelista João convida-nos a penetrar em profundidade e introduz-nos na descoberta do mistério da vinha: esta é o símbolo e a figura não só do povo de Deus, mas do próprio Jesus. Ele é a cepa e nós, os discípulos, somos os ramos; Ele é a “verdadeira videira” à qual estão vitalmente ligados os ramos (cf. Jo 15, 1 ss.). Esta imagem da videira ilumina não só a profunda intimidade dos discípulos com Jesus, mas também a comunhão vital dos discípulos entre si: todos eles ramos da única Videira.

Por outro lado, o rebentar e o alastrar dos ramos dependem da sua inserção na videira: “Como o ramo não pode dar fruto por si mesmo se não estiver na videira, assim acontecerá convosco se não estiverdes em Mim. Quem permanece em mim e Eu nele, esse dá muito fruto; porque sem mim nada podeis fazer” (Jo 15, 4-5). Nestas simples palavras é-nos revelada a misteriosa comunhão que vincula em unidade o Senhor e os discípulos, Cristo e os baptizados: uma comunhão viva e vivificante, pela qual os cristãos deixam de pertencer a si mesmos, tornando-se propriedade de Cristo; unidos ao Filho no vínculo amoroso do Espírito, os cristãos estão unidos ao Pai. E da comunhão dos cristãos com Cristo brota também a comunhão dos cristãos entre si e Jesus reza por esta comunhão: “Que todos sejam um só” (Jo 17, 21).

Logo a seguir ao Concílio, Paulo VI dirigiu-se assim aos fiéis: “Igreja significa comunhão, comunhão dos santos. E comunhão dos santos quer dizer uma dupla participação vital: a incorporação dos cristãos na vida de Cristo e a circulação dessa mesma caridade em todo o tecido dos fiéis, neste mundo e no outro”. Nesta comunhão de vida, de caridade e de verdade, os laços que unem os membros entre si não são os da carne e do sangue, mas os do espírito, do Espírito Santo que todos os baptizados recebem. Portanto, ao longo das gerações cristãs, o Espírito Santo, princípio dinâmico da variedade e unicidade, torna-se a fonte ininterrupta e inesgotável da comunhão na Igreja e da Igreja.

O fiel leigo nunca pode fechar-se em si mesmo, isolando-se espiritualmente da comunidade, mas deve viver num contínuo intercâmbio com os outros, com um vivo sentido de fraternidade, na alegria de uma igual dignidade; o Espírito Santo dá-lhe, como aos outros, múltiplos carismas e convida-o a diferentes ministérios e funções, como riquezas complementares em ordem à edificação do Corpo de Cristo e à Sua missão de salvação no mundo.

Tomemos consciência de que o compromisso a que cada um de nós é chamado para a edificação deste Corpo só será realidade na medida em que estejamos unidos e, assim, pudermos progredir no caminho da comunhão. Sem esta comunhão, não poderemos dar um testemunho credível do Evangelho porque aqueles que não conhecem a Cristo, ou O conhecem mal, não vêem na nossa vida de cristãos aquilo que pregamos. E o mundo deseja e precisa deste testemunho.

Maria de Azevedo

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