FÉ E VONTADE





INTRODUÇÃO

Remexendo velhos papéis, encontrei num dossier um recorte de jornal contendo o texto do Papa Paulo VI que a seguir se transcreve. Apenas lhe anteponho uma breve interrogação, que deixo à consideração dos leitores. A interrogação é esta. Perante a grande evidência pedagógica e formativa deste texto de Paulo VI e o carácter perene da doutrina que contém (já se encontra no ensino de S. Tomás de Aquino), porque é que aparentemente desapareceu do ensinamento e da pregação corrente entre nós? A questão da educação levanta necessariamente a questão da educação da vontade. Mas a inversa também é verdadeira e útil: se nos interrogarmos sobre a educação da vontade, seremos forçosamente obrigados a procurar o verdadeiro sentido da educação. Talvez, nestes nossos tempos, não esteja na moda pedir muitos sacrifícios à vontade. Prefere-se uma educação dentro dos limites do gozoso, sem entrar no doloroso. Como no "spot" publicitário: "segue o que sentes"... Valha-nos Deus. E Deus vai-nos valendo, dando alguma coisa a sentir de saboroso, como isco, sempre que entreabrimos a nossa atenção. Porém, logo a seguir, começa a valer a doutrina de que nos fala o Papa Paulo VI. Vamos ler e meditar.

Alocução de Paulo VI, na audiência pública de 23 de Agosto de 1972.

A VONTADE É UM FACTOR ESSENCIAL E DECISIVO DA VIDA MORAL


Para ser bom, para ser virtuoso, para ser santo, é preciso querer sê-lo. Para dar à própria estrutura moral de homem e de cristão a sua perfeita dimensão, não basta crescer passivamente nos anos e assimilar a formação oferecida pelo ambiente em que se vive. É necessário imprimir voluntariamente na própria personalidade um impulso interior e dar ao próprio temperamento uma característica específica. Não basta cumprir, de qualquer modo ou indolentemente, o dever que não se pode evitar. Não basta igualmente defender a liberdade de pensar e agir, segundo o próprio arbítrio, contra eventuais ingerências e indevidas ou pressões exteriores. A liberdade não deve permanecer indolente nem passiva, mas realizar as suas opções conscientes, empenhando nelas a própria vontade. A vontade é, com efeito, um factor essencial e decisivo da vida moral, ou seja, da vida verdadeiramente humana.

1. A VERDADEIRA FORÇA DO HOMEM

Esta faculdade de agir ocupa um lugar muito importante no reino do bem. Constitui a verdadeira força do homem; a força pela qual ele tende à própria afirmação, à própria expansão, à conquista do que lhe falta, ao próprio fim, à felicidade. É a faculdade do amor por excelência, que, de instintivo, sensível e passional, se torna espiritual no homem; e que resume e realiza o cumprimento de todos os deveres, quando tende ao seu verdadeiro e sumo objecto, que é o Bem infinito e realíssimo, Deus, encontrando imediatamente, no amor ao próximo, a sua expressão propedêutica e sucedânea, concreta e social, e sob certos aspectos indispensável .

É importantíssimo, principalmente durante a juventude, ter uma concepção exacta da vontade na estrutura humana, e antepor o seu emprego recto e forte a todos os outros juízos sobre as várias experiências que a vida pode oferecer.

O ensejo de viver, o desejo de agir e a capacidade de amar devem exprimir-se na «boa vontade». Houve quem falasse, insensatamente, da «vontade de poder» , mas nós preferimos falar, humildemente, do poder da vontade. Devemos, porém, ter presente uma observação fundamental. A vontade é uma força dinâmica, que precisa de uma luz orientadora, que precisa da inteligência. O bem, para ser desejado e querido humanamente, deve ser conhecido. A inteligência, portanto, deve ser o farol da vontade.

Uma vontade cega pode permanecer inerte, inoperosa; ou pode também orientar-se para finalidades inúteis, falsas ou contrárias ao fim supremo e, consequentemente, esgotar-se em esforços vãos e até pecar, embora os erros da vontade não dependam sempre, exclusivamente, da ignorância. É necessário portanto que sejamos ciosos da ordenação do nosso ser espiritual. É verdade que a importância da vontade, na classificação dos valores humanos, pode superar a do pensamento especulativo; no entanto, ela depende da razão, porque é uma aspiração racional. A ideia força define-a.

Na vida moderna. como sabeis, a apreciação da energia operativa, que é a vontade, tem prioridade em relação às reflexões filosóficas, no campo da pedagogia e do progresso civil . Embora defendamos a função primária do pensamento, podemos aceitar e até promover, nos seus justos limites e nas suas formas coordenadas com o desígnio global da vida e do destino humano, o voluntarismo próprio do nosso tempo, relacionando-o até com a nossa visão cristã da vida e, de certo modo, deduzindo-o desta mesma visão.

2. A VISÃO CRISTÃ DA VIDA

O cristianismo, que tem na fé a sua primeira raiz, é voluntarista na sua explicitação. A educação cristã tende a formar espíritos fortes e activos. Não se admite a preguiça; na escola de Cristo, não se aceita o ócio. Recordai, por exemplo, as parábolas evangélicas da semente, dos talentos e dos operários ociosos: «porque ficais aqui todo o dia sem trabalhar?» - diz-lhes Cristo, com as palavras do proprietário da vinha. O Senhor relaciona sempre o tempo desta vida com a exigência de uma contínua operosidade.

Mas haverá quem talvez possa objectar: porventura, o Senhor não censurou Marta, inteiramente ocupada com os seus múltiplos afazeres, preferindo Maria silenciosa ouvinte, sentada aos seus pés? . Ora, Marta personifica, como todos sabem, a vida activa, segundo os comentários tradicionais desta cena evangélica; e Maria personifica a vida contemplativa, à qual se atribui um lugar primordial e intangível.

Em todo o caso, a vida contemplativa não representa uma abdicação da vontade; ela é, pelo contrário, mais do que qualquer outra condição de vida, extremamente voluntária, exactamente devido ao empenho que exige. A vida contemplativa, que por si teria lições a dar à sociedade contemporânea, febril e orientada para objectivos que estão fora da interioridade humana, não é uma forma de quietismo, ou seja, de desinteresse e passividade moral, de apatia espiritual e renúncia ao uso da própria vontade . A vida contemplativa é uma actividade árdua e amorosa, que não está voltada para a acção prática, mas concentrada nas faculdades superiores do espírito [tal como um estudioso, um intelectual, um filósofo, um criador, um músico ou um poeta]; é um carisma particular; é uma função providencial, na economia comunitária do corpo eclesial e também da sociedade profana.

3. A EDUCAÇÃO DA VONTADE

Neste momento, devendo concluir, não podemos deixar de exortar todos os que têm consciência da própria eleição cristã a reflectirem sobre a importância da educação da vontade, para evitar que o resultado da vida, da vida cristã, nos seja atribuído, no último dia, como falta de cumprimento das próprias responsabilidades, pelo menos por um fatal pecado de omissão: a condenação escatológica do Cristo juiz é tremenda: «Sempre que deixastes de fazer isto (o bem que convinha fazer ao próximo necessitado), foi a Mim que o deixastes de fazer».

Estamos admirados com o despertar de energias operantes e generosas para as inúmeras necessidades que, quase com ritmo renascente e crescente, se manifestam no nosso mundo, alargado até aos confins da terra; e, de todo o coração, as encorajamos e abençoamos.

Mas queremos recordar os três momentos de boa vontade, que individuamos, segundo nos parece, ao folhear ainda as áureas páginas de S. Tomás de Aquino, sobre a natureza do acto voluntário.

O primeiro momento diz respeito à intenção: para agir bem é necessário, primeiro que tudo, acender no espírito a recta intenção, aquela que desperta a vontade e a dirige para o objecto desejado pelo facto de ser bom, em consequência do bem que representa. Esta rectidão ultrapassa o próprio objecto desejado e dirige-se para o bem em si próprio, para o fim último, que hierarquiza debaixo de si todo o bem honesto.

Depois vem o momento da escolha da decisão, do amor, quando afinal a alma já se move com liberdade e energia, com a capacidade de realizar grande renúncias, para fazer grandes conquistas.

E finalmente temos o terceiro momento, o da execução, o da ordem, da actividade prática , com todas as virtudes que reclama por si, as chamadas virtudes cardeais, porque é por elas que se classificam e se organizam as operações humanas destinadas ao bem.

Mário Pinto


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