Conversão contínua e perfeição





1. Aquando da última passagem de Jesus pela Galileia, os discípulos entraram numa discussão sobre quem, dentre eles, seria o maior. No termo desse dia, em Cafarnaum, chegados a casa, Jesus interrogou-os, dizendo-lhes: o que é que estáveis discutindo pelo caminho? Eles ficaram em silêncio, porque pelo caminho vinham discutindo qual era o maior. Sentando-se, Jesus chamou os doze e disse-lhes: «se alguém quiser ser o primeiro, seja o último e servo de todos» (Mc 9,32). Pegou numa criança, colocou-a no meio dos discípulos, e acrescentou: «em verdade vos digo, se não vos converterdes e não vos tornardes como crianças, não entrareis no reino dos céus» (Mt 18,2-3).

Notemos que, no relato segundo S. Mateus, Jesus recomendou aos seus discípulos que se convertessem: «se não vos converterdes...». Ora, os discípulos desde há cerca de dois anos que tinham largado tudo para O seguir e até tinham tomado parte no seu ministério. Eram, portanto, homens convertidos. Assim, Jesus falava de uma «segunda conversão».

2. Mais tarde, a Pedro em particular, Jesus disse: «Simão, Simão, eis que Satanás reclamou para vos peneirar como trigo; Eu, porém, orei por ti, a fim de que a tua fé não desfaleça. Quando porém te converteres, confirma os teus irmãos» (Lc 31-32).

Jesus fala aqui no futuro e volta a referir uma conversão («quando porém te converteres»), talvez aquela nova conversão que Pedro fez pouco depois, quando chorou amargamente após a negação de Jesus, durante a paixão.

3. Já numa outra passagem do Evangelho segundo S. Mateus (Mt 19, 21), Jesus estabelece claramente uma distinção entre o necessário para entrar na vida eterna e o caminho para ser perfeito. Recordemos a passagem: um jovem aproximou-se d'Ele e disse: «que devo fazer de bom para alcançar a vida eterna?». Jesus aproveitou para clarificar o equívoco que pode haver na ideia das coisas ou acções boas e explicou que «o Bom é um só» - isto é, Deus. Portanto, a bondade não se pode coisificar nas nossas acções, mas reconduz-se ao próprio Deus. Foi porém ao encontro da pergunta e disse: «se queres entrar na vida eterna, cumpre os mandamentos».

O jovem perguntou então quais eram os mandamentos necessários, e Jesus recitou-lhe: «não matarás, não cometerás adultério, não roubarás, não levantarás falso testemunho, honrarás teu pai e tua mãe, e ainda amarás o teu próximo como a ti mesmo». É uma versão abreviada, donde nem consta o primeiro mandamento da lei de Deus. Mas situa-se no plano dos mandamentos. Respondeu o jovem: «tenho cumprido tudo isso; o que é que ainda me falta?».

É interessante esta pergunta do jovem, que pressupõe que o cumprimento dos mandamentos não esgota toda a questão. Jesus acrescentou: «se queres ser perfeito, vai, vende tudo o que possuis, dá-o aos pobres e terás um tesouro no céu; depois vem e segue-me».

O Evangelho diz-nos que, ao ouvir isto, o jovem se retirou contristado, porque possuía muitos bens. Jesus comentou para os discípulos: «em verdade vos digo que é difícil para um rico entrar no reino dos céus. E vos digo ainda: é mais fácil um camelo entrar pelo buraco de uma agulha do que um rico entrar no reino dos céus». Ao ouvirem isto, os discípulos ficaram muito espantados e disseram: «quem poderá então salvar-se?». Jesus respondeu-lhes: «aos homens é impossível, mas a Deus tudo é possível».

Deste ensinamento de Jesus creio que se poderão fazer comentários e meditações infindas. Jesus toca aqui grandes mistérios: o da entrada no reino dos céus, o da perfeição, o das nossas limitações humanas, o do poder infinito de Deus em socorro da nossa impotência ou fraqueza para atingir a perfeição. Mas para a nossa meditação de hoje, apenas desejamos focar a atenção no facto de ser evidente que Jesus admite como que duas fases ou etapas na nossa vida espiritual: uma, que pede o cumprimento dos mandamentos; e outra, mais exigente, que pede uma renúncia aos bens (ao mundo, a nós próprios) e um inteiro seguimento de Jesus. Esta distinção é um tópico clássico e vem sempre ao caso por exemplo a propósito da chamada «vida consagrada»; mas ela tem valor para a vida de todos.

4. Destas passagens evangélicas que citámos e de outros lugares e inspirações resultou, para a experiência espiritual acumulada dos Padres e da Igreja, e para a teologia da espiritualidade, a ideia de que há fases na vida interior do cristão. Ou, se se preferir, que há um caminho de perfeição na nossa vida cristã. S. Paulo também fala de um tempo da vida cristã comparável aos das crianças, em que se tomam alimentos menos fortes, e um tempo posterior, em que se exigem outros alimentos.

Alguns autores dedicaram-se especialmente a estas meditações, como por exemplo o conhecido teólogo dominicano Padre Réginald Garrigou-Lagrange (cujas obras eram muito estudadas, até mesmo nos seminários, e hoje parecem andar esquecidas), o qual escreveu, no termo da vida activa de professor da Pontifícia Universidade de S. Tomás de Aquino, um livro (síntese dos seus escritos anteriores), intitulado «As três idades da vida interior», baseado em S. Tomás de Aquino e em S. João da Cruz, para além de em outros mestres da vida espiritual, como por exemplo Santa Catarina de Sena.

Esta compreensão dinâmica da vida espiritual, assente também na ideia de que «quem não avança, recua», tem duas grandes asas. Uma é a asa maior da graça de Deus, que Jesus nos revela, na cena já recordada do jovem rico, quando diz que o que para nós é impossível se torna possível por graça de Deus, porque a Deus nada é impossível em nosso favor. E a outra asa é a da nossa decisão e acção, é o esforço da nossa conversão.

Graça de Deus e conversão, eis os dois eixos do nosso progresso espiritual. E se este progresso é feito de etapas, então haverá conversões correspondentes a essas etapas ao longo da vida - e vimo-lo no início desta meditação em algumas passagens bíblicas. Como também poderá haver várias (e desde logo correspondentes) efusões do Espírito Santo - e isso é tratado na teologia, por exemplo em S. Tomás de Aquino.

A Igreja recomenda-nos constantemente que renovemos a nossa conversão e as promessas do nosso baptismo, e incentiva-nos a fazer uma caminhada de contínuo progresso espiritual. Assim, neste sentido podemos falar de novas conversões e de novas efusões do Espírito Santo, ao longo da nossa vida. As conversões são a nossa parte; as efusões são a obra de Deus em nosso favor (o Espírito sopra onde quer).

Meditar aprofundadamente, por um lado, sobre as nossas conversões e, por outro lado, sobre a vida da graça, designadamente o maravilhoso «organismo da vida sobrenatural» que S. Tomás de Aquino desenvolveu tão bem na Suma de Teologia (e infelizmente anda hoje tão esquecido), é portanto um trabalho indispensável aos cristãos de todos os tempos, e agora especialmente para os cristãos do terceiro milénio.

Creio que esta matéria não pode ficar de fora da chamada Nova Evangelização; antes deve estar no seu âmago. Sob pena de tudo ficar mais sócio-cultural do que espiritual, mistérico e pessoal.

Mário Pinto

<-- Voltar atrás