Servus Dei. Defensor Dei
1. "Em vez de serdes Vós, Senhor, o meu Defensor
(Paráclito), sou eu que quero ser o vosso defensor" — eis um perigo da pastoral,
quando esta se afasta de uma espiritualidade piedosa e humilde, ascética e mística,
deslizando assim para formas institucionais e teológicas de pendor intelectual.
Como pode um cristão perder de vista, e sobretudo deixar de activamente acolher,
o mais plenamente que puder, na sua vida cristã, em permanente ascese pessoal,
o grandíssimo e misterioso dom do Espírito Santo, que é a culminância da Encarnação
redentora de Cristo? E muito pior se ao mesmo tempo se ocupa de evangelizar?
2. «Não sabeis que sois um templo de Deus e que o Espírito de Deus habita em
vós? (1 Cor 3,16). «Ou não sabeis que o vosso corpo é um templo do Espírito
Santo, que está em vós e vós recebeis de Deus? E que vós não vos pertenceis?»
(1 Cor 6,19). «Não contristeis o Espírito de Deus que vos marcou com o seu selo
para o dia da Redenção» (Ef 4,30).
3. «Aconteceu-me a mim, a princípio, que
na minha ignorância não sabia que Deus estava em todas as coisas, como me parecia
tê-Lo tão presente, parecia-me impossível. Deixar de crer que estivesse ali
[presente em mim], não podia, por me parecer quase evidente ter percebido estar
ali a Sua mesma presença. Os que não tinham letras me diziam que estava presente
só pela graça; eu não o podia crer, porque — como digo — parecia-me estar [Ele]
presente, e assim andava com pesar. Um grande letrado da Ordem do glorioso S.
Domingos tirou-me desta dúvida, dizendo-me como estava presente e se comunicava
a nós, o que muito me consolou» (Santa Teresa de Jesus, Livro da Vida, Cap.
18, nº 15).
4. «Uma Pessoa Divina não pode ser possuída por nós a
não ser de duas maneiras: pelo gozo pleno, que só acontece na glória; ou segundo
um gozo imperfeito, na graça santificante, mais exactamente como pela nossa
união ao objecto de que gozamos... É assim que o Espírito Santo é chamado como
penhor da nossa herança... e é assim que o seu conhecimento é como experiencial...»
(S. Tomás de Aquino, Sent. d. 14, Q. 2, a. 2 sol., e ad 2.um e ad 3.um).
5.
[Questão 43] «A missão invisível da Pessoa Divina, faz-se, ou não, apenas pelo
dom da graça santificante? […Resposta 1] A criatura racional é aperfeiçoada
pelo dom da graça santificante, não apenas para fazer um uso livre do dom criado,
mas para gozar da própria Pessoa Divina. Deste modo, a missão invisível [da
Pessoa Divina] tem lugar pelo dom da graça santificante e, sem embargo, diz-se
que se dá a própria Pessoa Divina. [Resposta 2] A graça santificante prepara
a alma para possuir a Pessoa Divina. Isto é o que se indica quando se diz que
o Espírito Santo é dado segundo o dom da graça. Sem embargo, a isto não se opõe
que o próprio dom da graça provenha do Espírito Santo. Isto é o que se indica
quando se diz o amor de Deus foi difundido nos nossos corações pelo Espírito
Santo (Rom 5,5). [… Resposta 4]
Operar milagres manifesta a graça santificante,
tal como a manifesta o dom da profecia ou qualquer outra graça gratuita [carismas].
Por isso, em Cor 12,7, a graça gratuita [carismas] é chamada manifestação do
Espírito. Assim, diz-se que o Espírito Santo foi dado aos Apóstolos para operar
milagres, porque lhes foi dada a graça santificante como sinal revelador. Mas
se apenas se concedesse o sinal da graça santificante sem a graça, de modo nenhum
se poderia dizer que o Espírito Santo é dado, a não ser que se acrescentasse
alguma restrição. Exemplo: a alguém é dado o espírito de profecia, ou o de operar
milagres, no sentido de que recebeu do Espírito Santo poder profetizar ou fazer
milagres» (S. Tomás de Aquino, Suma de Teologia, Parte I, Questão 43, Artigo
3 — NB: esta tradução, apertis verbis, foi feita a partir do texto em castelhano,
edição BAC).
6. «… a unção que d'Ele [Cristo] recebestes permanece em vós, e
não tendes necessidade de que alguém vos ensine; mas, como a Sua unção vos ensina
todas as coisas, e é verdadeira e não é mentirosa, permanecei n'Ele como ela
vos ensinou» (1 Jo 2,27).
7. «Na verdade, todos aqueles que são movidos pelo
Espírito de Deus, são filhos de Deus. Vós […] recebestes um Espírito de adopção,
pelo qual chamamos: "Abba, Pai". O próprio Espírito atesta, em união com o nosso
espírito, que somos filhos de Deus» (Rom 8,14-16).
8. «O cristão recebe o Espírito
na própria medida do seu enraizamento no Corpo de Cristo, na medida da sua existência
em comunhão com Ele. A lei, como constrição externa,
é pouco a pouco substituída pelas exigências do amor, pela paciência do amor
ao longo dos dias, através da cruz. E é esta para cada um a sua vocação mais
essencial. A Igreja deve portanto reencontrar, na vida, a plenitude dos dons
carismáticos que marcaram as suas origens e que atestam de modo visível e tangível
o poder transformante do Espírito» (Padre M.J. Le Guillou O.P., Les témoins
sont parmi nous. L'expérience de Dieu dans l'Esprit Saint, Fayard, 1976, p.
228).
9. «Se é inegável que a experiência cristã frequentemente se manifesta
iniciando-se com a alegria do entusiasmo, como uma transformação pelo poder
do Espírito da Ressurreição, não é menos inegável que ela não se pode expandir
a não ser pela experiência da Cruz (2Cor 4,10). Não é verdade que o Evangelho
é todo ele centrado sobre o seguimento de Cristo? E que na Epístola aos Coríntios,
onde precisamente toma posição sobre os carismas, Paulo situa toda a vida cristã
no contexto da fraqueza e das humilhações (1Cor 1,24-30)? A plenitude da sabedoria
do Espírito é conhecer Jesus Cristo e Jesus Cristo crucificado. Transfiguração
pelo Espírito e experiência da Cruz estão ligadas uma à outra e expandem-se
conjuntamente» (Guillou, ob. cit., p. 229).
10. «Nada compromete mais a fé do
que a tirania da experiência subjectiva; mas, também nada a tem destruído mais
do que o intelectualismo abstracto, o formalismo ritualista, o voluntarismo
ressequido. A ruptura entre a fé e a experiência produziu-se nos séculos XIV
e XV, quando a obrigação se tornou o primeiro princípio da moral. Assim se gerou
uma existência em dois planos: um, moral (com um entre-piso ascético); o outro,
"místico". Actualmente, evidenciam-se quatro planos completamente dissociados:
o primeiro, a vida real, completamente natural e mundana, denominada cristã
porque se vê "o Cristo anónimo" no social; o segundo, o da submissão aos preceitos
cristãos que afinal são rejeitados como opressores; o terceiro, «ascético»,
é igualmente recusado; o quarto, "místico", que se tornou aberrante porque não
tem precedente.
É o reino da moral de obrigação, do puro e simples dever, que
fez perder o sentido da necessidade da experiência [de Deus], que é contudo
reconhecida por toda a tradição cristã. Recordemos simplesmente o texto da primeira
Epístola de S. Pedro, que sublinha a exigência de um certo saborear a Deus como
condição indispensável do crescimento da fé. "Desejai, como recém-nascidos,
o leite não adulterado da Palavra, a fim de que, por ele, cresçais para a salvação,
já que saboreastes como o Senhor é bom" (1Pd 2,3). Perfeitamente estabelecidos
por Pedro, Paulo e João, os critérios da experiência do Espírito nunca mais
deixaram de ser meditados pela Tradição. Eles resumem-se na caridade, que é
a expressão do mistério da Cruz» (Guillou, ob. cit., pp. 239-240).
11. «No nosso
tempo, o Senhor ressuscitado difundiu, aqui e ali, em vários segmentos do Seu
Corpo dividido, o anseio e a experiência de um “Novo Pentecostes”. [...] Para
cada um de nós, a porta de entrada para este novo Pentecostes actuante na Igreja
é uma renovação do nosso baptismo; devemos remover a camada de cinzas para que
volte a arder e a tornar-nos capazes de amar. Se esta meditação fizer brotar
em nós a nostalgia da novidade do Espírito, se a desejarmos e invocarmos, Deus
não tardará a oferecer-nos, também a nós, a ocasião da sua experiência... »
(Padre Raniero Cantalamessa,
A Vida sob o Senhorio de Cristo,
Edições Loyola: S. Paulo, 1993, p. 150).
Fernando de Campos