O grande mistério: da Encarnação ao Pentecostes
1 - Num belo artigo,
DONATIEN MOLLAT - padre jesuíta muito conhecido pela tradução do Evangelho de
S. João na Bíblia de Jerusalém e pelo livro que escreveu sobre «S. João, Mestre
de espiritualidade» (traduzido em português, pelo Apostolado da Imprensa) -
chama a nossa atenção para o facto de ser raramente notado que o Evangelho segundo
S. João abre com a proclamação da Encarnação do Verbo e fecha marcado com a
cena de Cristo resssuscitado soprando sobre os discípulos e dizendo: «recebei
o Espírito Santo» (cfr. DONATIEN MOLLAT, La Parola e lo Spirito, Libreria
Editrice Vaticana, 1987, p. 11). Numa passagem ulterior, MOLLAT afirma que «a
relação entre Cristo e o Espírito Santo domina, por assim dizer, todo o pensamento
joanino» (ibidem, p. 16).
No Evangelho segundo S. João, haverá, desde o começo até ao fim, um movimento
de continuidade, que o Padre MOLLAT condensa nestas palavras: «a missão do Verbo
feito carne consuma-se no envio e no dom do Espírito». E, em abono desta fórmula,
invoca um autor que, «sintetizando um texto de Santo Atanásio, (...) escrevia
recentemente: o Verbo assumiu a carne para que nós pudéssemos receber o Espírito
Santo». E o Padre MOLLAT comenta: «não se pode resumir melhor o Evangelho
segundo S. João».
Um importante sinal da importância daquele envio será a insistência com que
Jesus lhe faz referência: «o anúncio da vinda do Espírito Consolador depois
da partida de Jesus constitui um dos maiores temas do discurso do adeus» (ibidem,
p. 31).
«Nesse discurso, Jesus não fala como se os discípulos desconhecessem a presença
do Espírito Santo durante o ministério terreno de Jesus. Em Jo 14,17, Jesus
diz: "o Espírito da Verdade, que o mundo não pode acolher porque não O vê nem
O conhece, mas que vós conheceis, porque permanece convosco" (Jo 14,17). Um
autor muito considerado, o Padre DE LA POTTERIE (co-autor, com o Padre LYONET,
ambos jesuítas, de um famoso livro, intitulado La vie selon l'Esprit,
Ed. du Cerf, 1965), comenta esta passagem nos seguintes termos: "estas palavras
referem-se à condição que era a de então dos discípulos, antes da partida de
Jesus. Durante o seu ministério público, o Espírito já estava presente na pessoa
e na obra de Jesus. Em Cristo, que estava junto dos discípulos (Jo 14,25), o
Espírito já então agia; estava, portanto, junto dos discípulos, mas não estava
"neles"» (ibidem, p. 31).
Mas, «precisamente, a glorificação de Cristo assinalará uma nova etapa e decisiva: a do envio do Espírito Santo e da sua "vinda" aos corações dos crentes» (ibidem, p. 31). Como antes nos explica S. João, em Jo 7,39: Ele falava do Espírito que haveriam de receber aqueles que tinham crido nele; pois não havia ainda Espírito, porque Jesus não fora ainda glorificado.
«A relação de Jesus com o Espírito e do Espírito com Jesus aparece, portanto, no quarto Evangelho, como um traço essencial da teologia bíblica e da cristologia. A efusão do Espírito, esperada no Antigo Testamento como princípio de uma nova criação e de uma nova aliança, encontra a sua realização, que supera toda a espectativa. No Filho de Deus incarnado reside, no estado de nascente, a plenitude do Espírito Divino esperado e, com a sua glorificação, difunde-se "sem medida"» (ibidem, p. 33).
2 - O Padre CANTALAMESSA, teólogo franciscano, publicou as meditações quaresmais que pregou ao Papa e à sua Casa no ano de 1981, dedicadas ao tema «O Espírito Santo na vida de Jesus - o mistério da unção» (a versão em português é intitulada: O Espírito Santo na Vida de Jesus, Edições Loyola). É interessante aproximar estas meditações dos ensinamentos do Padre MOLLAT.
«No momento da Encarnação, o único consentimento livre do homem à salvação é o fiat de Maria; mas, a partir do baptismo e das tentações de Jesus Cristo, há algo de novo na história da salvação: há o consentimento livre e humano de um Deus! Humano, mas de um Deus: isto é, um sim de qualidade humana mas de poder divino. A esta nova e fundamental etapa da vida de Jesus corresponde uma nova e fundamental unção com o Espírito Santo, e é precisamente isto que entendemos por mistério da unção» (loc. cit., p. 13).
O Padre CANTALAMESSA recorda-nos que S. João nos disse, na sua primeira carta, o seguinte: «nisto reconhecemos que permanecemos n'Ele e Ele em nós: Ele nos deu o Seu Espírito» (1Jo 4,13). «Um mesmo Espírito está em Jesus e em nós; nós formamos um só corpo - somos Igreja - na medida em que participamos da unção de Cristo e temos o Seu Espírito» (ibidem, p. 16).
«É da unção com o Espírito Santo que deriva para a humanidade de Cristo a gratia capitis, isto é, a santidade que nos comunica a nós; e não, ao menos por si mesma, da Encarnação (desta deriva apenas a sua santidade substancial ou pessoal - a gratia unionis - que nos é incomunicável a nós, enquanto ligada à sua união hipostática com o Logos). «Este mistério da unção, que contemplamos na sua dimensão histórica na vida de Jesus, faz-se realidade sacramental para nós no baptismo» (ibidem, p. 17).
«Mas o mistério da unção não se esgota aqui, isto é, no rito sacramental. Há um outro plano sem o qual tudo permanece ineficaz para nós, e é como sempre o plano existencial e pessoal. Tudo aquilo que a palavra de Deus nos disse até aqui acerca da unção tende para este plano pessoal e operativo do mistério, isto é, tende a fazer com que a unção produza o seu fruto. E o fruto é este: que nos tornemos, nós próprios, o bom odor de Cristo no mundo» (ibidem, p. 17).
Graças sejam dadas a Deus, que por Cristo nos carrega sempre em seu triunfo e, por nós, expande em toda a parte o perfume do seu conhecimento. Em verdade, somos para Deus o bom odor de Cristo, entre aqueles que se salvam e aqueles que se perdem (2Cor 2,14-15).
Mário Pinto