Renovamento Carismático, um Presente Divino
Em Maio de 2008, as Edições Pneuma fizeram publicar
o livro “Chamamento à Santidade - Reflexões sobre o Renovamento
Carismático Católico”, da autoria do Cardeal Paul Josef Cordes e prefaciado pelo Pe. Raniero Cantalamessa. Trata-se da tradução portuguesa
do original “Call to Holiness – Reflections on the Catholic Charismatic Renewal”.
Esta edição no nosso país teve a causa próxima de prestar homenagem, no seu
aniversário natalício em 4 de Maio de 2008, ao Reverendo Padre José da Lapa, Missionário do Espírito Santo, que trouxe para Portugal, em 1974, o
Renovamento Carismático Católico, tendo também fundado a Comunidade Pneumavita; mas, como se diz na nota introdutória, a intenção dos responsáveis
desta Comunidade, que anima as Edições Pneuma, foi também a de estender a homenagem
a todos os Bispos e sacerdotes das Igrejas em Portugal.
O Cardeal Cordes, actual
Presidente do Instituto Pontifício Cor Unum e antigo Vice-Presidente do Conselho
Pontifício para os Leigos de 1981 a 1996, desempenhou, durante
mais de dez anos, as funções de Conselheiro Episcopal para o Renovamento Carismático Católico Internacional em Roma, tendo para tal
sido designado por Sua Santidade o Papa João Paulo II em sucessão do Cardeal
Suenens, falecido Cardeal de Malines e Bruxelas, e um dos primeiros a reconhecer
o poder divino que se manifestava através do Renovamento.
Ao deixar o cargo
de Conselheiro Episcopal, o Cardeal Cordes pensou em oferecer ao Renovamento
Carismático este livro, fruto da sua experiência, diálogo e estudo naquelas
funções.
O Pe. Cantalamessa, pregador da Casa Pontifícia e autor de várias obras
muito importantes para quem queira caminhar e crescer no Renovamento
e na Igreja, diz no seu notável Prefácio:
“Estou convencido de que este livro
será de grande utilidade, não só para os participantes no Renovamento Carismático
- e, acima de tudo, para os seus líderes -, mas também para toda a Igreja, e
em especial para os seus pastores. Todos encontrarão nele uma síntese de primeira
qualidade, que facilitará imensamente a tarefa de entender e valorizar esta
realidade eclesial que o Cardeal Suenens definiu «como corrente de graça destinada
a toda a Igreja». Só posso incentivar os interessados em aproveitar este precioso instrumento de discernimento espiritual.”
Nos
finais do ano de 2009, o Papa Bento XVI escreveu uma carta ao Cardeal
Cordes, felicitando-o pelo seu 75º aniversário então decorrido e recordando
a bela história de amizade que os liga, e que inclui o facto de ambos terem pertencido à Conferência Episcopal da Alemanha antes de serem
chamados a servir a Cúria Romana. Nesta carta, Bento XVI sublinhou a contribuição
do Cardeal Cordes na génese e crescimento das Jornadas Mundiais da Juventude,
bem como a sua importante participação pastoral e compromisso com os novos movimentos, nomeadamente o Renovamento Carismático Católico, fruto
precioso do concílio Vaticano II. Escreveu Bento XVI:
“Enquanto, no começo,
havia na Igreja muitas reservas em relação aos movimentos, o senhor percebeu
imediatamente a vida que brotava deles, o poder do Espírito Santo que dá novos
caminhos e, de maneiras imprevistas, mantém a Igreja jovem. Não só soube reconhecer
o carácter pentecostal desses movimentos e trabalhou apaixonadamente até que
foram benvindos pelos pastores, como viu que havia neles homens profundamente tocados
pelo Espírito de Deus e que, dessa maneira, novas formas
de verdadeira vida cristã cresceriam e também surgiriam novas maneiras autênticas
de ser Igreja. Aqui, mais uma vez reconheço a sua habilidade para ver que o
orgânico é mais importante que a organização.” E concluindo: “Estes movimentos
são presentes pelos quais precisamos de agradecer. Não seria possível pensar
na vida da Igreja dos nossos tempos sem nela incluir estes presentes de Deus.”
Como é bela a maneira como Bento XVI vê o Renovamento Carismático na Igreja!
Quão bela foi também a missa pontifícia de Pentecostes em 1975, presidida por
Paulo VI, à qual assistiram cerca de 25.000 pessoas, das quais 10.000 eram peregrinos
do Renovamento Carismático! No dia seguinte, no final da Eucaristia celebrada
no altar papal, Paulo VI pronunciou um importante discurso em várias
línguas, que assinalou o acolhimento público do Renovamento Carismático n
a Igreja, exclamando depois:
“Como não haveríamos de considerar este renovamento
espiritual uma grande oportunidade e uma bênção para toda a Igreja?”; no final,
aos pés do altar, abraçou com emoção o Cardeal Suenens e disse-lhe: “Quero agradecer-lhe,
não em meu nome, mas em nome do Senhor, tudo o que tem feito para trazer o Renovamento
Carismático para o coração da Igreja”. Foi um abraço de enorme alcance que mereceu
estas palavras publicadas na Vie Spirituelle em Julho desse ano: “O acontecimento
que teve lugar em Roma, no Pentecostes, é sinal e promessa. E é t amb
ém uma mensagem: é uma chamada ao combate espiritual destinado a fazer frente,
com as armas do Espírito, às forças da desagregação”.
Conta o Pe. Congar que,
depois de uma intervenção sua durante o Concílio Vaticano II em
que tinha falado sobre o Espírito Santo, um teólogo com uma mentalidade decerto
muito pré-conciliar comentou, depois de o ter felicitado pela qualidade do seu
latim: “O senhor falou no Espírito Santo. Quem fala no Espírito Santo são os protestantes. Nós, os católicos, temos o Magistério”. A nós,
do Renovamento Carismático, parecem-nos palavras prehistóricas. Como poderíamos
viver uma vida cristã em plenitude sem o Espírito Santo, que anima e santifica
a nossa caminhada até chegarmos à casa do Pai? A nós, que somos membros do Corpo
cuja cabeça é Cristo e em cuja alma está o Espírito Santo? A nós, que fomos
marcados com o selo do Espírito Santo prometido, o qual é garantia da nossa
herança, para que dela tomemos posse, na redenção, para louvor da glória do
Senhor?” (cf. Ef 1, 13-14)?
O Renovamento Carismático Católico, uma extraordinária
dádiva de Deus ao nosso tempo, festeja este mês e este ano o seu 43º aniversário.
Começou com um pequeno grupo de leigos universitários, cerca de trinta entre alunos e professores, e depressa tomou as proporções de uma
avalanche; hoje somos milhões espalhados por todo o mundo e todos nele temos
lugar (leigos, religiosos, sacerdotes, bispos) porque é o Senhor que nos chama,
pelo nosso nome, à vivência da Sua poderosa presença e nos toca com a força
do Seu Espírito. E nesta corrente santificante de graça e de amor, destinada
a penetrar até ao mais interior da Igreja, Maria tem a melhor parte.
Vêm-me
agora ao coração algumas palavras de João Paulo II na celebração
do vigésimo quinto aniversário do Renovamento Carismático, no Vaticano:
“É com alegria que me junto à vossa oração para louvar a Deus pelos muitos frutos
que o Renovamento trouxe para a Igreja. O surgir do Renovamento foi uma dádiva
do Espírito Santo à Igreja e um dos seus mais importantes efeitos é o despertar
de uma sede crescente de santidade que vemos nas vidas das pessoas. O Renovamento
Carismático é hoje uma manifestação eloquente da juventude e da vitalidade da
Igreja; é uma afirmação vigorosa do que o Espírito diz às Igrejas” (Ap 2,7).
A cada um de nós, e a exemplo dos irmãos que acima recordámos, cuja obra e testemunho
tão profundamente nos interpelam e a quem o Renovamento Carismático tanto deve,
cabe-nos não deixar passar a graça que se nos apresenta, abrindo-nos com humildade
e fidelidade ao sopro do Espírito Santo, o sopro do Criador, o Único em que
o mundo pode ser curado e salvo, o verdadeiro Senhor.
Jamais passou pelo pensamento
do homem o que Deus preparou para aqueles que O amam, porque todas as promessas
de Deus são um ‘sim’ em Jesus e Ele continua vivo nos nossos dias. Aleluia!
Maria de Azevedo