SIM, PENTECOSTES ACONTECEU





Pentecostes (Shavuot - a festa das semanas - para os judeus), o quinquagésimo dia, é - devia ser - no cristianismo a expressão de Plena Universalidade. Por este motivo, interrogo-me frequentemente sobre o facto de nenhum dos evangelhos - sejam os sinópticos (Mateus, Lucas e Marcos) ou o de João - referir este acontecimento que é descrito nos Actos. Será que aconteceu Pentecostes, da maneira que conta a tradição? Já volto a esta questão!

Na breve leitura do evangelho que transcrevo o gesto e atitude de Jesus indicia, se olhado e interpretado isoladamente, a perspectiva e existência de algum "nacionalismo" e até mesmo "separatismo". Contudo, tais indícios servem também para revelar-nos a dinâmica do pensamento, descobertas e ajustamentos na postura doutrinal de Jesus. Ao dirigir-se para os arredores de Tiro e Sidónia, uma mulher cananeia suplica-lhe que socorra sua filha; Jesus responde-lhe: "Não fui enviado senão às ovelhas perdidas da casa de Israel"; a mulher insiste e suplica por ajuda. Jesus, respondeu-lhe: "Não convém jogar aos cachorrinhos - os "pagãos" eram chamados de porcos e cães - o pão dos filhos", a mulher replica: "Mas os cachorrinhos ao menos comem as migalhas que caiem da mesa de seus donos". Surpreendido, exclama: "Ó mulher grande é tua fé..." (Cf. Mt. 15,21-28) Dito assim, Deus, melhor, o Deus de Jesus nesta passagem, era efectivamente o Deus de Israel e para o Israel. Porém, esta mulher (que não é uma convertida, ela é simplesmente uma mulher de fé) com a sua resposta revela-nos a acção do Espírito, fazendo despertar em Jesus a consciência e o sentido Universal de sua missão; ou seja, estabelecer a unidade e a plenitude fraterna. A universalidade de Pentecostes ocorre também durante a vida de Jesus. Por vezes, somos atraídos pelo fantástico e maravilhoso, desprezando aspectos substantivos das mensagens que nos chegam. A partilha que agora inicio sobre Pentecostes não é a referida em Actos 2, 1-13. É necessária uma breve reflexão.

A narrativa da torre de Babel, onde a humanidade é dividida pela diversidade de línguas, dá-nos conta da unidade perdida. O espírito pentecostal, em oposição a esta divisão, pode ser a resposta a esta perda, perspectivando-se a reconquista de tal unidade. Compreender-se-á que o facto de se falar várias línguas, e as mesmas serem entendidas apesar das diferentes culturas, permite concluir, numa perspectiva filosófica, que a narrativa presume que a linguagem de Deus, ou seja, a do AMOR, é inteligível, perceptível, táctil e, deste modo, verdadeiramente Universal. Significa isto que pode beber-se do mesmo vinho, sem que seja necessário fazê-lo pelo mesmo cálice. Contudo, se Pentecostes ocorre no quinquagésimo dia, como nos refere Actos 2, 1-13, qual o motivo de Pedro só o vir a entender depois que teve o sonho descrito em Actos 10, 9-23? Actos 10, 28 explica: "Vós sabeis que é proibido a um judeu aproximar-se de um estrangeiro ou ir à sua casa. Todavia...". Introduzo outra passagem para clarificar esta reflexão.
Mc. 8, 11-21 deixa claro que os fariseus reclamavam de Jesus um prodígio. Advertindo seus discípulos sobre o fermento dos fariseus e do de Herodes - este fermento simboliza suas doutrinas -, e apercebendo-se que eles estavam preocupados por haver somente um pão na barca, decide intervir: "Por que discutis por não terdes pão? «Tendo eu partido cinco pães entre os cinco mil, quantos cestos recolhestes cheios de pedaços?» - Responderam-lhe: "Doze." - «E quando eu parti os sete pães entre os quatro mil homens, quantos cestos de pedaços levantastes?» - "Sete!", responderam-lhe. Jesus disse-lhes: "Como é que ainda não entendeis?"

Para compreender esta leitura necessário é conhecer a simbologia desses números (o doze e o sete). O doze significa as tribos de Israel que Jesus queria congregar por estarem divididas; e o número sete - o termo hebraico para 7, sheba, é idêntico à raiz do termo "shaba", "jurar"; sendo que alguns pensam que o termo hebraico para jurar derivou de um rito original de juramento em que o número 7 era usado -, sendo significativo em muitas culturas, na bíblia reflecte a totalidade, plenitude, "completação". Este número, por vezes, é multiplicado por si mesmo (7x7 ou 7x70); significando, ao invés de excesso, a remoção do limite implicado na totalidade. Assim, Caim é vingado 7 vezes, Lamec 7x70 (cf. Gn. 4,24). São sete os anos de fartura e carestia no Egipto (Gn. 41,2ss). Os seis dias da criação são seguidos por um 7º dia de descanso, significando a obra completa e perfeita. Existem 70 povos no mundo (Gn 10) e 70 pessoas na família de Jacob (Gn 46, 27; Ex 1,5). Os 70 anciãos de Nm 11,16 são realmente 72, 6 para cada tribo - os 12 filhos de Jacó - Gn 49, 1-28, tal como os 72 discípulos em Lc. 10,1. Este número é usado em ritos de purificação: há 7 dias de ázimos (Ex. 12, 15-19). O número de pães distribuídos ao povo eram sete (cf. Mc. 8, 5 e Mt. 15, 34-37). Em Mc. 6, 38 e Mt. 14, 17 a simbologia deste número reaparece, exactamente 5 pães + 2 peixes.
Poder-se-á, assim, concluir que a ideia de Jesus, implícita em Mc. 8, 11-21, consistia em (re)unir as doze tribos de Israel (as ovelhas perdidas), mas também fazer dessa mensagem uma proposta verdadeiramente Universal. Corrobora esta ideia a seguinte afirmação: "Tenho ainda outras ovelhas que não são deste aprisco..." (Jo 10, 16). Ou seja, esta mensagem não é dirigida a judeus e a cristãos. Jesus não afirma que as trará a esse aprisco, fala-nos de outro(s)! O Espírito convida à renúncia ao proselitismo e ao maniqueísmo. Logo, só neste contexto a carga simbólica que o número sete transporta faz sentido.

A linguagem das igrejas, do indivíduo e demais instituições, assim como a acção - ainda que permaneçam a diversidade cultural, religiosa, linguística, racial... - deve traduzir a busca desta unidade perdida, interiorizando o sentido Universal de sua missão; tal como aconteceu em Jesus. Doutro modo, per si as igrejas, o indivíduo, instituições e comunidades não são a salvação; ela(e)s devem transportar essa proposta. Pensando-se individualmente essa a salvação (impondo dogmas, estatutos, regras para o todo e negando o livre-arbítrio) a questão que os confronta é a seguinte: para quê Deus? A advertência de Jesus: "Tomai cuidado de vós mesmos" (Lc. 17, 2), recorda-nos o facto do indivíduo necessitar ser protegido de si próprio. A vigilância exerce-se, fundamentalmente, sobre os sentimentos e motivações de cada um, e a unidade não significa uniformidade.

Deus é amor para se consumar, e não para consumir. A maldade e o sofrimento não são uma fatalidade. O sofrimento deve ser olhado como um sinal de alerta, porque propõe a mudança individual e colectiva. Einstein afirmou: "O mundo não está ameaçado pelas pessoas más, e sim por aquelas que permitem a maldade". Porém, o Reino que Jesus nos fala constroi-se a partir do novo nascimento: "Necessário vos é nascer de novo" Jo. 3, 7. Este Reino (que Jesus nunca diz como é, simplesmente afirma com o que se parece) é exequível e compreensível, se soubermos seguir as simples analogias.

A teologia, contrariando as teses neo-liberais e outras, que também comportam a sua carga "religiosa", não pode servir todos da mesma maneira, nem seguir a lógica que todos são os outros. É também necessária a prudência e o discernimento ao julgar comportamentos de uma época pelos padrões de outra. Jean Guitton - in "As minhas razões de Crer" - refere: "O conhecimento, ao progredir, desembaraçará as fórmulas anteriores das suas imperfeições, tornará mais precisas as adaptações da Verdade, mas o Verdadeiro subsistirá". Séneca afirmou: "Quando o Homem não sabe a que porto se dirige nenhum vento lhe é favorável". O Pneuma, Vento (Sopro) Divino ou Santo Espírito, recorda aos cristãos esse "porto": "Se permanecerdes na minha palavra, sereis meus verdadeiros discípulos; conhecereis a verdade e a verdade vos libertará!" (Jo. 8, 31-32).
Finalmente: Sim, Pentecostes aconteceu, como é revelado em Mt. 15, 21-28, Mc. 7, 24-30 e, subsequentemente, em Act. 10, 44-48, porque algo desta importância só acontece quando compreendido, assumido e materializado. Resta cumprir Pentecostes!

G.G.L.A.


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