O Cenáculo e Nossa Senhora





Acolhendo o mandato de Jesus, de voltarem para Jerusalém e aí aguardarem a vinda do Espírito Santo, os apóstolos, confusos, expectantes e até assustados, reuniam-se numa sala [chamada de cenáculo por ter sido também a sala da última ceia], sendo acompanhados por Nossa Senhora, que os apoiava com a sua presença e a sua oração. Maria está ali, no cenáculo, não simplesmente como uma das mulheres, mas sim como mãe de Jesus, porque o Espírito Santo, que está para vir, é o Espírito de seu Filho. Entre Maria e o Espírito Santo há uma ligação profunda. Jesus encarnou em Maria por obra do Espírito Santo.

Este momento que os apóstolos estão a viver é um momento importante e fundamental nas suas vidas e na vida do cristianismo. É a transição do tempo de Jesus para o tempo da Igreja. Jesus não está mais física e visivelmente com eles; continuará com eles mas agora através do seu Espírito. Daqui em diante, os apóstolos serão testemunhas privilegiadas, depositários da palavra e da promessa de Jesus, e devem continuar a sua missão: anunciar o Reino de Deus, contando com a colaboração de algumas mulheres, entre as quais Maria, mãe de Jesus.

Nossa Senhora é uma pessoa activamente presente, quer na vida e na missão de Jesus, quer na vida da Igreja nascente, sobretudo com a oração, tendo inaugurado na Igreja a vocação da vida orante ao lado da vocação apostólica, activa.

Os apóstolos, depois de terem recebido o Espírito e transformados por Ele, saem para a praça a anunciar Jesus Cristo. Depois partem, fundam e dirigem Igrejas, enfrentam processos, convocam até um concílio, o Concílio de Jerusalém. E Maria, juntamente com outras mulheres, acompanha-os com a oração, mostrando assim que a dimensão orante é indispensável e complementar à actividade apostólica. É a sua retaguarda. Uma retaguarda forte que continua hoje nos mosteiros de vida contemplativa, verdadeiros cenáculos que apoiam e acompanham a acção apostólica dos bispos, sacerdotes, missionários e missionárias.

O que nos diz Maria, presente no Cenáculo no momento do Pentecostes, e após Pentecostes, com a sua presença na comunidade cristã? Primeiro, diz-nos que, antes de empreender qualquer iniciativa ou actividade e de ir pelas estradas do mundo, a Igreja precisa de receber o Espírito Santo. O mesmo se pode dizer de cada um de nós. Antes de iniciarmos o nosso dia, de dar início aos nossos trabalhos, precisamos de invocar o Espírito Santo, esta presença de Jesus em nós, derramado nos nossos corações pelo Baptismo e no Crisma, e que é o grande inspirador e protagonista da vida cristã e da vida e actividade da Igreja. A vida cristã é uma vida no Espírito, inspirada e movida pelo Espírito, que é o grande orante no coração do crente. É Ele que nos coloca em sintonia com Deus e com Jesus Cristo.

A presença do Espírito é garantia de fidelidade, de perseverança e de luz, pelo que a sua acção em nós permite viver segundo as exigências divinas e vencer, com esperança, as fraquezas, sofrimentos e contrariedades. A nossa resposta de amor e de fé, como a de Nossa Senhora, permite a Deus realizar, através dos nossos limites e contingências de uma vida difícil, a sua obra de amor, a nossa salvação. Em segundo lugar, diz-nos que a oração é uma dimensão fundamental na nossa vida, devendo preceder toda a nossa actividade, e que, quer seja pessoal ou comunitária, a oração tem de ser concorde e perseverante. Concorde, isto é, feita em sintonia com o Espírito que a inspira, e em comunhão com os irmãos e irmãs na fé, para ser uma oração eficaz, conforme o ensinamento de Jesus: “Em verdade vos digo: se dois de vós estiverem de acordo na terra sobre qualquer coisa que queiram pedir, isso lhes será concedido por meu Pai que está nos céus. Pois onde dois ou três estiverem reunidos em meu nome, ali estou eu no meio deles” (Mt 18, 20).

Perseverante e assídua e não apenas de vez em quando; trata-se de rezar muito, como Nossa Senhora pediu em Fátima aos três pastorinhos. Rezar muito e com perseverança não significa rezar com muitas palavras; significa estar em sintonia com Deus, na sua presença, em atitude de fé e de confiança, acreditando que “Ele concorre em tudo para o bem daqueles que O amam”.

Finalmente, Nossa Senhora é para nós, também, modelo eminente da escuta da Palavra de Deus. Mãe e primeira discípula, é o primeiro membro ilustre da nova família de Jesus, constituída por todos aqueles que “ouvem a palavra de Deus e a põem em prática”. A grandeza de Maria está em ter escutado a palavra de Deus e a ter observado. Antes de ser mãe de Jesus, Nossa Senhora foi uma grande crente na palavra de Deus. Quando da visita a sua prima, após a anunciação, Isabel exclamou: “Feliz aquela que acreditou no que lhe foi dito da parte do Senhor” (Lc 1, 43).

A palavra de Deus é fundamental na vida de cada um de nós e na vida e na missão na Igreja. Nela, Deus fala-nos e nós podemos falar com Ele. São muitos os frutos da Palavra naqueles que a acolhem como Nossa Senhora. Quando vivida, a Palavra converte, purifica, gera Cristo, infunde nos corações daqueles que a acolhem, como Nossa Senhora, os sentimentos de Cristo. A Palavra, sendo a verdade de Deus, liberta, porque quem a vive, vive segundo Cristo e, por isso, pode experimentar a alegria, a felicidade e a paz.

Caríssimos irmãos e irmãs: Jesus, na cruz, deu Maria a João como mãe e, a partir daquele momento, João tomou-a consigo e levou-a para sua casa. Hoje, também a nós, Jesus nos dá a sua mãe como nossa mãe. Levemo-la connosco. Que ela caminhe connosco e nos ensine a dimensão importante da oração na nossa vida e na vida da comunidade dos discípulos de Jesus, a Igreja.

Aprendamos com Nossa Senhora a escutar e a viver a Palavra de Deus, para sermos verdadeiros discípulos, como ela, membros da família de Jesus, constituída por todos aqueles e aquelas que “ouvem a palavra de Deus e a põem em prática”.

D. Joaquim Mendes, Bispo Auxiliar de Lisboa
(Da homilia proferida na Eucaristia a que presidiu,
em Fátima, durante a Assembleia de Pneumavita, em 15.11.2008)


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