"Um Novo Pentecostes", Novos Movimentos, "Uma Nova Evangelização"




1 - Depois de termos comemorado a Páscoa, estamos a preparar-nos para reviver a celebração do Pentecostes. O Pentecostes foi a descida do Espírito Santo sobre os Apóstolos, pelo mérito da oração, ao Pai, de Jesus Cristo glorificado e subido aos Céus. Tal como tinha prometido.
Com efeito, pouco antes da sua paixão, Jesus revelou mais claramente aos Após-tolos o Espírito Santo: convém-vos que eu vá para o Pai, porque assim eu pedirei ao Pai e Ele vos enviará o Espírito Santo, que será o vosso Protector e Vivificador; Ele ficará para sempre convosco; Ele vos recordará tudo o que Eu vos disse e vos ensinará todas as coisas novas; Ele é o espírito da Verdade, que procede do Pai e dará testemunho de Mim.

2 - A revelação do Espírito Santo aos Apóstolos está insistentemente descrita no Evangelho de S. João. E aí, o Espírito é apresentado sobretudo como Consolador (isto é, Advogado, Protector, Vivificador) e Mestre da Verdade (Jo, 14-16). Mas, além disso, também como o Poder de Deus, que perdoa os pecados por meio daquele a quem desce (Jo 20, 22-23) -outro poder maior não há.

3 - Com a descida do Espírito Santo sobre os Apóstolos (descrita nos Actos na sua exuberante manifestação e pelos seus poderosos frutos carismáticos), a Igreja sempre entendeu, e além disso viveu, o Pentecostes como a plenitude da primícia da salvação (santificação) universal, operada por Jesus Cristo, mas com ênfase no poder apostólico con-cedido à Igreja. Daqui a mais frequente cono-tação do Pentecostes com a evangelização. Ora, a evangelização está hoje especialmente na ordem do dia das preocupações da Igreja. E com toda a razão, visto que não apenas se torna necessário evangelizar mais, mas também, e talvez sobretudo, evangelizar melhor. Neste sentido é que se fala de Nova Evangelização. A este propósito, todas as reflexões são poucas, dada a urgência e a dificuldade das questões. Como em ocasiões anteriores, voltemos ao tema.

4 - É necessário começar por reco-nhecer que, actualmente, o maior problema "da" Igreja é um problema que está "na" Igreja: não está fora da Igreja, no mundo; está dentro da Igreja. E está aqui como o problema de sempre: o da verdadeira conversão a Jesus Cristo, o do baptismo no Espírito, o do caminho para o Pai: pela santidade de vida sob a condução do Espírito, na comunidade da Igreja; pela consequente evangelização no Espírito.

De um modo patente aos olhos do mundo, os católicos parecem hoje decrescer em número; e porventura também em ardor - o que é muito mais grave. Perante o desaparecimento das tradicionais formas culturais que mantinham uma sociedade dentro da Igreja (num certa inércia da velha concepção da cristandade), a profissão da fé e do culto deixou de ter apoios por assim dizer sociológicos, e ficou apenas dependente da convicção da fé pessoal - tanto mais quanto a própria sociedade, que antes estava dentro da Igreja, agora parece desprezar a Igreja. É bem conhecida, a este respeito, a análise da descristianização da Europa, por exemplo, e o avanço do laicismo, isto é, não apenas de uma secularização da vida política, mas ainda de uma certa hostilidade social contra a Igreja e a fé.

5 - Porém, estes fenómenos não foram nem são exteriores à Igreja. Nasceram e permanecem dentro da Igreja. Por exemplo: em coincidência com esta grande mudança cultural geral, a cultura eclesiástica de hoje (tanto quanto se pode falar assim para dizer uma certa cultura que é dominante) despreza enormes veios da espiritualidade das primeiras décadas do século XX (por exemplo, com os Maritain, em França, e com as escolas da teologia ascética e mística, que foi excelentemente cultivada inclusive nas Faculdades de teologia pontifícias), na tradição da espiritualidade mística secular na Igreja, que vem desde os Primeiros Padres, passou pela Escolástica e continuou pelas renovações dos séculos posteriores - quem pode esquecer Santa Teresa de Ávila, S. João da Cruz, S. Iná-cio de Loyola, e toda a reverência que a espiritualidade mística destes exemplos, e doutros, mereceu na Igreja até à crise dos anos que precederam o Concílio Vaticano II, e a que depois se lhe seguiu, não menos dramática, de que aliás ainda não saímos inteiramente?

6 - Um sinal inequívoco desta crise in-terna da Igreja, crise da vivência da fé, da dou-trina da espiritualidade, é ver como mudou o ensino nos seminários e faculdades de teologia, quanto à preparação do clero; não há aí nem ensino suficiente da história da mística, nem da Teologia ascética e mística. Nem mesmo suficientemente de teologia pentecostal. Os manuais de espiritualidade ascética e mística que foram clássicos até há cerca de cinquenta anos, como os de Garrigou-Lagrange ou Tanquerey, por onde estudaram todos os sacerdotes até então, passaram a caducos e desprezados - é certo que a sua linguagem revela o estilo do tempo, que já não se adequa ao nosso tempo; mas a sua doutrina é perene. Actualmente, no panorama editorial destes livros só resta o manual de António Royo Marín, "Teología de la perfección cristiana", da BAC.

Em lugar de tudo isso, o progressismo eclesiástico descobriu de modo inebriado a exe-gese bíblica e o compromisso social da Igreja no mundo; e, juntamente com coisas que de facto deviam ser deitadas fora (por serem do espírito de cristandade, de um intimismo ritual e do clericalismo), perdeu-se a boa tradição do cultivo da "intimidade divina", da relação pessoal e mistérica com Deus, sem a qual não há nenhum cristianismo vivo; e os excessos de racionalismo crítico conduziram a um certo relativismo teo-lógico, em que se incluíram opiniões cépticas acerca de mistérios e tradicionais pontos de fé da Igreja. A ponto de o próprio Papa ter escrito um livro sobre Jesus de Nazaré para, distinta-mente da escola da exegese, e como ele próprio diz, "favorecer no leitor o crescimento de uma relação viva com [Jesus Cristo]".

7 - Porém, o Concílio foi convocado por João XXIII sob a invocação a Deus de um Novo Pentecostes sobre a Igreja e sobre o Mundo. E esse Novo Pentecostes tem vindo a manifestar-se a quem o procura ver, no meio da crise referida. Há assim uma crise de morte e de ressurreição, dentro da Igreja. Nesta crise, é visível o maior protagonismo do laicado, relativa-mente a uma tradição clerical que durou séculos. Uma das suas manifestações, segundo um discernimento que é bastante consensual, revela-se no surgimento dos chamados Novos Movimentos e Novas Comunidades Eclesiais, sem dúvida com "um novo entusiasmo" e com uma renovada evangelização. Por diversas vezes os Pontífices romanos assim o têm discernido publicamente, como obra do Espírito Santo, portadora de uma renovação espiritual na linha da tradição ascética e mística da Igreja.

O que parece evidenciar-se nestes últimos tempos é uma maior atenção a estas novi-dades; designadamente a relacionação dos novos movimentos com a Nova Evangelização - expressão de João Paulo II, que tem feito sucesso mas carece de aprofundamentos e desenvolvimentos doutrinais e pastorais.

8 - É isto mesmo o que se vem notando, mais recentemente, em vários importantes acontecimentos dentro da Igreja, em que estão envolvidos altas figuras eclesiásticas da Igreja universal. Refiram-se, a este propósito, as seguintes.

A reunião de Aparecida

9 - A reunião do Episcopado Sul-americano em Aparecida, com o Documento Apare-cida (Maio de 2007). Documento que parece conter precisamente uma nova sensibilidade espiritual para a Nova Evangelização (no último número desta revista, publicámos um esclarecimento do Santo Padre Bento XVI nesta linha). Na sequência desta importante reunião sul-americana, o bispo de Petrópolis (Rio de Janeiro, Brasil), D. Fillipo Santoro, que teve um empenhamento destacado no Encontro de Aparecida precisamente em relação com os Novos Movimentos, proferiu uma conferência no II Congresso de Movimentos Eclesiais e Novas Comunidades da América Latina e das Caraíbas (Bogotá, Colômbia, 28/2 a 2/3 2008), sobre o tema da formação dos discípulos e missionários no seio dos movimentos.

O Congresso sobre as paróquias e a nova evangelização

10 - O IV Congresso de Roma (de 30 Janeiro a 1 de Fevereiro de 2008) sobre este tema: "paróquias e nova evangelização: o contributo dos movimentos eclesiais e novas comunidades". Nesta reunião - organizada pela Comunidade Emmanuel em colaboração com o Instituto Pontifício Rdemptor Hominis - estiveram vários Cardeais e Bispos, precisa-mente com Novos Movimentos e sobre a Nova Evangelização.

Colóquio Internacional sobre os carismas, promovido pelo RCC

11 - Colóquio internacional em Roma sobre carismas da Igreja, promovido pelo Reno-vamento Carismático Católico.
O Renovamento Carismático Católico organizou em Roma, de 3 a 6 de abril de 2008, um Colóquio Internacional sobre o tema dos carismas. Alguns anos passados depois do precedente encontro organizado após a saída da Instrução sobre as orações para obter de Deus a cura (2000), o Renovamento Carismático Católico decidiu convocar um segundo Colóquio de especialistas provenientes de todo o mundo para reflectir sobre a doutrina e a prática dos caris-mas na Igreja de hoje.

O encontro foi organizado por dois organismos de coordenação do Renovamento, o International Catholic Charismatic Renewal Services (ICCRS), com sede no Vaticano, e a Catholic Fraternity of Charismatic Covenant Communities and Fellowships (CFCCCF), com sede em Bari, em colaboração com o Conselho Pontifício para os Leigos.

A introdução dos trabalhos esteve a cargo do cardeal Stanislaw Rylko, presidente do Conselho Pontifício para os Leigos, à qual se seguiram as intervenções de Michelle Moran (Inglaterra) e de Matteo Calisi (Itália), presidentes respectivamente do ICCRS e da CFCCCF, e dos bispos Joseph Grech (Austrália) e Albert Marie de Monléon (França). Como no precedente Colóquio Internacional, celebrado em 2001 sobre a "Oração para a Cura e a Renovação Carismática na Igreja Católica", a assembleia foi integrada por cerca de 150 participantes provenientes em sua maior parte do RCC de todo o mundo e por representantes da Santa Sé.

Destacados especialistas ofereceram diversas reflexões e contribuições: à luz da Sagrada Escritura (Pe. Francis Martin, EUA), da Patrística (Pe. Raniero Cantalamessa OFM Cap.), da Teologia (arcebispo Alberto Taveira, Brasil) e da Pastoral (Mary Healy, EUA). Seguiram-se mesas redondas com testemunhos e experiências de participantes provenientes de contextos sociais e culturais diversos: Francis McNutt (EUA); Pe. Robert Faricy, S.J. (EUA); Pe. Alberto Ibáñez, S.J. (Argentina); Pe. Carlo Co-lonna, S.J. (Itália); Pe. Gabriele Amorth (Itália); e Jean Pliya (Benin).A assembleia teve como moderadores o professor Guzmán Carriquiry, subsecretário do Conselho Pontifício para os Leigos, e Oreste Pesare, director do ICCRS.

A preocupação dominante do Colóquio - comunica uma nota do ICCRS - foi a de apresentar de forma aprofundada o ensinamento da Igreja sobre os carismas, como foram exercidos ao longo da História da Igreja, desde os tempos apostólicos até nossos dias, e em especial na Renovação Carismática Católica.

Este evento quer ser uma exortação à redescoberta e à prática dos carismas na vida ordinária da Igreja Católica, e não como prerrogativa de um determinado movimento eclesial. O Colóquio terminou no domingo 6 de Abril com as conclusões do cardeal Stanislaw Rylko e a celebração eucarística presidida por Dom Jozef Clemens, secretário do Conselho Pontifício para os Leigos.

Ao apresentar o encontro, o director executivo do escritório de ICCRS, Oreste Pesare, esclareceu que "falar de carismas não quer dizer só falar de obras milagrosas". "O Catecismo da Igreja Católica - acrescentou - nos recorda claramente que: 'extraordinários ou simples e humildes, os carismas são graças do Espírito Santo que, directa ou indirectamente, têm uma utilidade eclesial, ordenados como estão à edificação da Igreja, ao bem dos homens e às necessidades do mundo' (CIC 799)".

Desde este ponto de vista, o desejo da Renovação Carismática Católica é "que em todas as realidades da Igreja Católica se volte à plena consciência do papel essencial do Espírito Santo na vida dos fiéis, e à beleza da redescoberta dos dons do Espírito - dos carismas - que nos permitem viver como filhos de Deus de maneira extraordinária pelo bem de toda a Igreja".

O director do ICCRS disse que espera deste Colóquio repercussões na vida de muitos "servos do Espírito Santo" espalhados por todo o mundo, e "uma renovada motivação para continuar difundindo com zelo a única cultura que poderá levar uma esperança nova ao coração da humanidade do terceiro milénio: a cultura de Pentecostes".

O encontro do Monte das Bem-aventuranças

12 - Outro encontro extraordinário - de 24 a 29 e Março de 2008 - foi o de 9 cardeais e 160 bispos provenientes de toda a Europa, reunidos na Domus Galilaeae, no Monte das Bem-Aventuranças, a convite dos responsáveis do Caminho Neocatecumenal, Kiko Argüello, Carmen Hernández e o Pe. Mario Pezzi, para reflectir sobre a Nova Evangelização da Europa.

Os participantes receberam um telegrama do Secretário de Estado, o cardeal Tarcisio Bertone, que lhes enviou uma saudação e a bênção do Papa Bento XVI.

No termo do encontro, os cardeais e bispos prepararam um comunicado conjunto, para relançar a evangelização da Europa através das novas realidades eclesiais, em particular do Caminho Neocatecumenal.

"Aqui, está-se tratando do futuro da Europa", disse o cardeal Christoph Schonborn, arcebispo de Viena e um dos participantes do encontro. E acrescentou: "Nos últimos 40 anos, a Europa disse três vezes 'não' ao seu futuro: em 1968, quando refutou a Humanae Vitae; 20 anos depois, com a legalização do aborto; e hoje, com o matrimónio homossexual. Já não se trata apenas de uma questão moral, mas de um facto: por exemplo, na Alemanha, hoje, por cada 100 pais, há 70 filhos e 44 netos. Em duas gerações, a população reduzir-se-á a metade", constatou o purpurado. "Isto é, objectivamente, um 'não' ao futuro - constatou -. A única força na Europa que promoveu e promove o futuro é a Igreja Católica, através de Paulo VI, de João Paulo II e de Bento XVI.

O Caminho Neocatecumenal é, sem dúvida, uma resposta do Espírito Santo a esta situação; e eu pude comprová-lo como bispo e como pastor. Vi pais que dizem 'sim' à vida com generosidade e coragem, que dizem 'sim' ao futuro", insistiu o cardeal Schonborn. "Este en-contro no Monte das Bem-Aventuranças é muito importante - disse o cardeal Stanislaw Dzwisz, arcebispo de Cracóvia, que participou do encontro -, porque a moralidade na Europa está em uma crise profunda, não só no âmbito individual, mas também institucional. É necessário reflectir para buscar uma saída, e nós, como pastores, devemos fazê-lo. Assim, há uma proposta impor-tante, a proposta do Caminho Neocatecumenal, que é renovar a vida familiar. A crise da Europa foi causada pela crise da família; assim, Renovando a vida da família pode-se renovar a Europa". Entre outros destacados bispos, participaram no encontro, que concluiu no sába-do, 29 de Março, o primaz da França, cardeal Barbarin, o arcebispo de Lyon, o cardeal Rouco, arcebispo de Madrid e presidente da Confe-rência Episcopal Espanhola, o cardeal Meisner, arcebispo de Colónia, o cardeal Glemp, primaz da Polónia, e o cardeal Puljic, arcebispo de Sarajevo. Representando o Santo Padre, intervieram o presidente do Pontifício Conselho "Cor Unum", cardeal Josef Cordes, e o presidente do Pontifício Conselho para os Leigos, cardeal Stanislaw Rylko, que no sábado presidiu à Euca-ristia conclusiva. O Caminho Neocatecumenal foi reconhecido por João Paulo II como "um itinerário de formação Católica válido para a sociedade e para o tempo moderno".

Bento XVI, em Janeiro de 2006, inaugurou a Missão "ad Gentes" promovida pelo Caminho Neocatecumenal, enviando 7 presbíteros a diversas cidades europeias, cada um acompanhado de três famílias com numerosos filhos, em áreas onde a Igreja está actualmente ausente e onde o número dos não-baptizados corresponde a quase 90% da população. Os bispos presentes escutaram os primeiros resultados desta experiência e muitos deles expressaram o seu desejo de poder iniciá-la nas suas dioceses.

A evangelização, ou talvez melhor, a re-evangelização da Europa é um tema muito próximo e muito querido a Sua Santidade, que, em 2007, dirigindo-se ao episcopado europeu, falou da "apostasia da Europa", e recentemente, em 8 de Março de 2008, falando da situação de secularização na Europa à Assembleia Plenária do Pontifício Conselho para a Cultura, disse: "A secularização, que se apresenta nas culturas como proposta do mundo e da humanidade sem referência à Transcendência... não constitui apenas uma ameaça exterior aos crentes, mas manifesta-se desde há muito tempo no próprio seio da Igreja. Desnaturaliza desde dentro e em profundidade a fé cristã e, em consequência, o estilo de vida e o comportamento diário dos crentes".

Mário Pinto

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