O Mistério do Corpo de Cristo





"O Pai dá ao Filho o Espírito Santo sem medida" (Jo 3,34): a medida do dom sem medida é o Corpo de Cristo.
É à medida da nossa medida porque é humano, é um corpo e alma, como as nossas. E é uma medida que é incomensurável, porque é de Deus, e "n'Ele habita toda a plenitude divina" (Col 2, 9).

O CORPO, POSSIBILIDADE PARA O ESPÍRITO VIVIFICAR O INTERIOR

O corpo é a possibilidade para o Espírito se mover no interior, vivificar não por uma acção completamente exterior (que não será obediência, mas constrangimento), mas mais por uma acção que se dilui na vida, como o sangue no corpo. O Espírito anima e vivifica o interior. Todas as potências do discernimento, do desejo, da sensibilidade, da acção, são o mistério que Deus moldou no homem. Deus quis comunicar o Espírito sem medida, mas quis transmiti-lo à medida duma liberdade humana, no interior de um corpo: "Tu não quiseste sacrifício nem oblação, mas preparaste-me um corpo" (Heb 10,5-9).

Na passagem do salmo 40, citado no texto da Carta aos Hebreus, a versão original em hebreu era um pouco diferente: "Não querias sacrifício nem oblação, tu abriste-me os ouvidos" (Salmo 40, 7). A tradução dos Setenta tem uma etapa posterior ao judaísmo e dizia: "mas tu moldaste-me um corpo".

TODO O CORPO, COMO O OUVIDO, À ESCUTA DE DEUS

Neste ponto de transição do Antigo para o Novo Testamento, não é somente o ouvido que o Espírito de Deus quer abrir à sua Palavra. É todo o corpo que, como o ouvido, está à escuta de Deus em obediência. Mas esta obediência não é simplesmente para escutar, mas sim para uma incarnação.

O desejo de Deus, após o princípio do mundo, foi introduzir o Espírito, dar-Lhe uma morada entre os homens. E para que estes sejam templos do Espírito Santo, seria preciso que tivesse um corpo sobre o qual repousasse. Na origem do mundo, o Espírito voava sobre as águas, isto é, sobre o que tinha de mais potente, pois que é da água que tudo procede, é dela que tudo nasce. O Espírito plana sobre tudo quanto é força na realidade da criação. Para que pudesse penetrá-la desde o interior, Deus criou o homem no sexto dia, como centro e cume da criação. Deu-lhe um corpo que tirou da terra e moldou com as Suas mãos; depois, Ele insuflou o Espírito nas narinas de Adão: o Espírito veio para vivificar o interior.

Estas capacidades que vêm com a criação não se podem manifestar senão através do dinamismo de um corpo vivificado pela liberdade: o homem, pólo de liberdade e de amor.

UMA CRIAÇÃO SUBMISSA À VAIDADE

Quando, com a queda de Adão, o receptáculo do Espírito (o corpo moldado para ser instrumento livre e vivo, conforme a von-tade de Deus) se quebrou, o corpo do homem deixou de ser o pólo que anima a criação do Espírito. A criação encontra-se, então, sub-missa à vaidade, como diz S. Paulo: "Porque a criação aguarda ansiosa a revelação dos filhos de Deus. De facto, a criação foi submetida à vaidade - não voluntariamente, mas devido a quem a submeteu - na esperança de ela também ser libertada da escravidão da corrupção, para participar, livremente, da glória dos filhos de Deus. "Pois sabemos que toda a criação tem gemido e sofrido as dores do parto, até ao presente" (Rom 8, 19-22). Quando não é mais animada através do corpo do homem habitado pelo Espírito, a criação, esta superabundância do Espírito que se transformou na mais pequena das criaturas, cai no erro da vaidade. Há nela como que um imenso desperdício, como a areia desintegrada feita em pedaços, ignorância que se desfaz em pó infinitamente e passa numa ampulheta sem que coisa alguma a consiga reter. Lá, onde falta o corpo obediente, organizado para ser o mistério da piedade filial de amor dos homens pelo Pai celestial, é toda a criação que se tornou vaidosa. Diz Qohélet (1, 2-4-66): "Vaidade das vaidades, vaidade das vaidades, é tudo vaidade. "Uma geração passa, outra vem; mas a terra sempre subsiste. O sol levanta-se, o sol se põe;(...) O vento parte para o Sul e regressa ao Norte, e roda, roda, retomando o seu percurso."

Este vento que regressa é o Espírito que se move sobre uma criação, sobre aquele que se não prendeu. Há como um eco disto na palavra de Jesus a Nicodemos: "O vento sopra onde quer, mas tu não sabes donde vem, nem para onde vai" (Jo 3,8).

O TRABALHO PACIENTE DE DEUS

Em Cristo crucificado, o Espírito en-contra a sua orientação. Cessa de pairar sobre a face dos vivos, porque se estabeleceu, enfim, em elo que une o Céu e a Terra. É ali que se encontra o mistério do Corpo de Cristo: o Espírito que desposa um corpo.

Em toda a expectativa do Antigo Testamento, não há, na humanidade, outro significado do ser moldado como o Corpo de Cristo. É o trabalho paciente de Deus preparando o Corpo de Seu Filho, fibra por fibra, como um fabricante de órgãos prepara este instrumento, peça por peça, teclado por teclado, para tocar uma melodia de amor divino, de amor do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Depois da escolha de Abraão, até à Virgem Maria, fez-se finalmente a lenta preparação do Corpo de Cristo. Em toda a genealogia de Jesus, suce-dem-se grandes figuras, como David, desde logo todas iluminadas pela luz de Jesus.

De geração em geração, há também a continuidade de tudo quanto há de pecador, de mais pobre, na nossa humanidade; é através disto que Deus prepara o Corpo de Cristo. Esta linhagem proveio do mais pequeno, do mais submisso e humilde nos últimos tempos que precederam o nascimento de Cristo, para terminar finalmente em Maria. Toda a sua hereditariedade humana tomou Jesus de Maria, porque Ele é verdadeiramente o fruto do seu ventre. E existe lá gravada, nesta capital genética do Corpo de Cristo (para falar em termos biológicos), toda a história da redenção do povo de Israel, ligada ao mistério da Sua plenitude. Daqui a sua purificação messiânica da descendência de Abraão e David, de que faz parte a Carne de Cristo. Fruto das entra-nhas de uma mulher, é preciso entretanto que a semente desta Carne, venha do Alto. Deus, assumindo esta Carne, deu misteriosamente um novo nascimento à humanidade: o novo Adão, ou melhor, como diz o texto de S. Paulo, o último Adão, o Adão definitivo.

O MISTÉRIO DO CORPO DE CRISTO

O mistério do Corpo de Cristo, criado por Deus, não é dom, mas capacidade de receber o dom. Deus deu-Se-Lhe através dum Corpo capaz de receber a plenitude da Sua divindade. E é a partir deste momento em que Jesus é glorificado, que se tornou o Novo Adão, o primeiro nascido de entre os mortos, o irmão mais velho duma multidão de irmãos, de cujo interior o Espírito Santo se apossa. Não vem de fora, mas do interior, porque nos foi dado pelo Corpo de Deus. E a graça não voltará a nós forçadamente. Fechados no cenáculo, na noite de Páscoa, os apóstolos não O ouviram bater. Não O viram atravessar as paredes, porque Jesus não é um fantasma: "Jesus veio e pôs-se entre eles" (Jo 20,19). Não passou através de paredes porque não vinha de fora, vinha de Deus. A partir do momento em que a sua humanidade foi glorificada, Jesus entrou na plenitude da nova humanidade com um poder e sabedoria extraordinários, a que coisa alguma pode resistir. Ali está o milagre da Eucaristia.

No mistério da Eucaristia, Jesus, na plenitude da sua humanidade, pode unir-se ao interior de todo o homem, a fim de se comunicar Corpo a corpo, Carne a carne, Coração a coração. Pela Eucaristia, o Espírito Santo encontra por fim presa toda a criação e não volta mais como um vento a soprar por cima de nós. Logo que recebemos o Corpo de Cristo, recebemos a graça do Espírito Santo. E a graça é que nos transforma na Carne de Jesus. E nós e entre nós estamos todos juntos no Corpo de Cristo total.

Também, quando recebemos uma graça, devemos sempre pensar que esta graça é uma participação do Corpo de Cristo. E isto não é, de modo algum, uma graça abstracta. Quando recebemos uma graça de paciência, recebemos a paciência de Cristo. Quando recebemos uma cura, recebemos a força de Cristo, como no momento em que a hemor-roíssa tocou a ponta do manto de Jesus.

A INSONDÁVEL RIQUEZA DE CRISTO

Não há, pois, dom que não receba a configuração de Cristo. E isso até às estruturas mais delicadas. O Espírito Santo, com efeito, não se contentou em tecer, no ventre de Maria, simplesmente um esqueleto com alguns músculos; teceu até à última das células, uma pele, com nervos extremamente finos, com toda a subtileza de um organismo psíquico e uma alma humana. Devemos pois apossarmo-nos da "insondável riqueza de Cristo", como diz S. Paulo, isto é, o dom incomensurável do Espírito Santo dado à medida humana. Este Espírito é dado sem medida, mas é-nos dado através duma medida que liga cada uma das nossas medidas. Cada uma das fibras da Carne de Cristo, liga-se, pela Eucaristia, com cada uma das fibras da nossa carne: assim sendo, pode abrir em nós todas as capacidades mais secretas para receber a riqueza inesgotável de Cristo.

É por esta razão, após os princípios da humanidade até ao fim dos tempos, que a graça não se acabará de reproduzir nos homens, esta riqueza insondável de Cristo: todos os santos se assemelharão a Cristo e, ao mesmo tempo, serão todos originais. Aqui reside o mistério da Eucaristia: nós formamos o mesmo Corpo total, onde cada um é original, é único. Com efeito há, em Cristo, toda uma plenitude de uma humanidade movida pela graça, pelo Espírito Santo.

Este mistério do Corpo de Cristo diversifica-se em graças extremamente diferentes e, ao mesmo tempo, a Eucaristia permanece residindo em nós, inexaurível. É por esta razão que, na Igreja, apareceu pro-gressivamente a necessidade de adorar a Eucaristia. Isto não se opõe, de modo algum, ao facto desta Eucaristia ser feita para ser nosso alimento de alma, tornando-se em verdadeira comida. Inesgotável, ela será até ao fim dos tempos, até que Cristo se complete em todos nós. Não haverá então mais Eucaristia, porque a Eucaristia seremos nós, humanidade inteira. Haverá, efectivamente, uma coincidência perfeita entre a humanidade salva e o Corpo total de Cristo.

JESUS EXPOSTO PARA NÓS

Mas porque a humanidade ainda não atingiu a sua plenitude, a Eucaristia é-nos necessária: precede a Igreja, duma certa maneira. Acompanha os cristãos, como acompanhou de princípio os primeiros cristãos que, para comungar, traziam muitas vezes com eles, numa caixa de prata ou num pequenino saco pendurado no pescoço, e assim a davam aos que a desejavam, a santa Eucaristia, forma de garantia de vida incomparável.

A Igreja é já Eucaristia. É pelo ministério dos padres no meio da assembleia que se celebra a Eucaristia. E entretanto ela está perante nós: é o Corpo e o Sangue de Cristo presente como o Cordeiro frente ao Pai. Não somos nós que "fazemos" a Eucaristia. É o Pai que no-la dá logo que, pelo Espírito Santo, nós Lha pedimos em cada celebração: "Que este mesmo Espírito Santo santifique estas ofertas, as quais se tornarão no Corpo e Sangue de Teu Filho". Devemos participar na Eucaristia, interiorizar esta graça do Espírito Santo, unir-nos à nossa assembleia. É ali que vive o Corpo de Cristo, que lança os fundamentos em nós, e entre nós, de todas as formas de carismas. Ao mesmo tempo, ficaremos em adora-ção perante a plenitude inesgotável do Corpo de Cristo. Então, podemos expor Cristo Jesus no Seu Santíssimo Sacramento: porque Jesus está exposto no Seu Corpo. Está em toda a parte, e dar-Se-nos-á sem fim. E só a adoração nos pode revelar o mistério último da nossa incorporação n'Ele.

Extraído da revista "IL EST VIVANT"
Traduzido por Isabel Moraes Marques

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