O Espírito Santo na Vida de Poullart des Places: da devoção à docilidade
Excerto da bela Conferência proferida na celebração do tricentenário
da morte do Fundador da Congregação do Espírito Santo, que decorre neste ano.
A origem da consagração dos Espiritanos ao Espírito Santo
poderia ser procurada na data do nascimento oficial do Seminário dos estudantes
pobres, na festa do Pentecostes de 1703. Sabemos, porém, que Poullart des Places
tinha já sonhado e começado a sua obra alguns meses antes. Nada o impedia de
retardar a cerimónia da inauguração até ao início do próximo ano escolar ou
até uma outra festa à sua escolha. Não é portanto a data do Pentecostes que
expl ica a consagração ao Espírito Santo, mas é a vontade do fundador de dedicar
a sua obra ao Espírito Santo que explica a escolha do dia do Pentecostes para
a sua inauguração.
Para reencontrar as fontes da inspiração da devoção ao Espírito
Santo, de Poullart des Places, temos que nos remontar à Bretanha das suas origens
As missões e os retiros tinham sido os principais instrumentos da renovação
espiritual daquela província. Ora a verdade é que esta renovação se tinha operado
sob o signo da devoção ao Espírito Santo; e isso graças à influência do jesuíta
Padre Lallemant [autor de um conhecido livro, intitulado «A doutrina espiritual»].
Este jesuíta, o famoso orientador do terceiro ano de noviciado dos Jesuítas,
é o fundador de uma escola de espiritualidade que, mais que qualquer outra,
acentua a importância da docilidade ao Espírito Santo, nos caminhos da vida
cristã. Ele nunca esteve na Bretanha; mas os seus discípulos sim. Os seus discípulos
foram os grandes pregadores des sa espi r i tual idade na Bretanha, nomeadamente
em Rennes, Rouen, Bourges, Saint Brieu; a sua animação espiritual cobriu toda
a Bretanha.
Para Lallemant, os dois pólos da sua espiritualidade eram a pureza
de coração e a docilidade ao Espírito Santo, sendo o primeiro apenas um meio
para atingir o segundo. «O fim a que devemos aspirar, depois de nos termos por
muito tempo exercitado na pureza do coração, é estarmos de tal maneira possuídos
e dirigidos pelo Espírito Santo, que seja só ele quem conduz todas as nossas
forças e sentidos, e quem regule todos os nossos movimentos, interiores e exteriores;
que nos abandonemos totalmente a Deus, por uma renúncia espiritual das nossas
vontades e das próprias satisfações. Assim, não viveremos em nós, mas em Jesus
Cristo, por uma correspondência fiel ao agir do seu divino Espírito». No livro
do Padre Lallemant, «Doutrina Espiritual», donde este texto foi extraído, há
150 páginas consagradas ao Espírito Santo; mas pode-se dizer que no decorrer
da obra não há nenhum parágrafo em que o Espírito Santo não seja referido.
Além
de pregadores, os jesuítas apóstolos da Bretanha eram também exímios directores
espirituais. No século XVII, estes padres chegaram mesmo a formar uma associação
denominada «Associação dos Padres do Espírito Santo», uma espécie de confederação que
chegou a contar cerca de mil associados, que se dedicava especialmente à formação pastoral e espiritual
dos padres. Um manual para estes padres tinha o nome de «Instituição da Congregação
dos eclesiásticos dedicada ao Espírito Santo, sob a tutela da sua esposa sagrada,
a Santíssima Virgem». Há muitas semelhanças entre este manual e os Regulamentos
do Seminário [instituído por] Poullart des Places.
Além isso, algumas cidades
da Bretanha, como Rennes, Vannes, Quimper, tinham a sua casa de retiros. A de
Rennes foi fundada em 1675, pelo reitor do colégio. Um documento de 1678 informa-nos
que, nesta casa, mais de cem padres, só neste ano, participaram em retiros especialmente
organizados para o clero.
O jovem Poullart des Places deve ter sido muito marcado por esta corrente de
devoção, pois na rua de S. Salvador, onde decorreu a sua adolescência, uma casa,
com bastantes probabilidades de ser aquela mesma casa que ele habitou com seus
pais, era então vulgarmente apelidada de «Casa do Espírito Santo».
É também
provável que em Rennes existisse já uma Confraria do Espírito Santo, pois em
1699 temos notícia de uma renda em seu favor; e temos referências a essa confraria,
na capital bretã.
Estas influências, que terão deixado marcas em Poullart des
Places, foram depois aprofundadas durante a sua formação nos colégios jesuítas,
nomeadamente pelo P. Julien Bellier, capelão do hospital de Saint Yves, que
Cláudio acompanhava nas suas visitas, bem como nas visitas que em Nantes ele
fazia à casa de retiros desta cidade.
Uma outra influência dos colégios, talvez
mais decisiva, foi a Associação dos Amigos, que ele frequentou em Paris, no
colégio de Clermont, Louis Le Grand. Na origem desta associação de piedade estão
precisamente dois bretões, discípulos do Padre Lallement: Vincent de Meur e
Jean Bagot. A acta da inauguração da Associação reza assim: «Escolheu-se e determinou-se
o dia do Pentecostes, 4 de Junho de 1645, onde todos juntos, estando reunidos
na congregação mariana do colégio às 3 horas da tarde, cada um recitou as orações
e fizeram as outras orações designadas pelas regras para a recepção dos novos
membros…»
Poullart des Places conhecia bem esta acta, que se repetia todos os
anos no decurso da primeira assembleia; e se ele dedicou a sua obra ao Espírito
Santo, foi porque bebeu nas meditações e colóquios destas reuniões a sua profunda
devoção à Santíssima Trindade. Estas meditações encontravam-se compiladas no manual
chamado «Prática das virtudes cristãs». O Capítulo
VII é todo ele dedicado ao Espírito Santo. Dizia esse manual: «No dia de Pentecostes
e durante toda a semana, abrirei o meu coração ao Espírito Santo, a fim de que
o encha, o possua intimamente e seja o Espírito do meu espírito e o coração
do meu coração. Apresentá-lo-ei a fim de que ele o consuma, como vítima, nas
chamas do seu amor… Na prática devo acostumar-me a considerar o Espírito Santo
habitando intimamente em mim».
Foi a partir destas influências que ele acabou
por passar da devoção ao Espírito Santo à ductilidade ao Espírito Santo. Ele
percebeu que o Espírito Santo queria passar das tradições e do património espiritual
da Bretanha para o seu coração. Então, o Espírito Santo começou a entrar na
sua vida. A devoção que o marcava foi apenas a porta para ele entrar. Foi um
salto difícil de que nos dá conta nos seus escritos. Foi quando descobriu a
revelação do amor de Deus por ele, que o fez ultrapassar todas as reticências.
No seu retiro de 1701, faz uma releitura da sua vida, toma consciência deste
Deus que sem cessar o procura, o persegue e o não deixa em paz: «Vós me procuráveis,
Senhor e eu fugia de vós». Então todas as barreiras caem; e ele perde todas
as suas defesas. A partir desse momento, não tem outro desejo senão entregar-se
a Deus e corresponder a esse amor.
Foi o «franchir le pas» [dar o passo], de
que falava Lallemant. Ele entrega-se a Deus com todos os seus defeitos, as suas
luzes e as suas sombras, uma vez por todas. «Arrependido da minha cegueira,
renuncio de todo o coração a todas as coisas que me levam a fugir de vós. Agora
que venho procurar-vos, estou disposto a seguir todas as ordens da Vossa Providência.
Vinde ao coração em que desde há muito quereis entrar. A partir de agora, só
para vós terei ouvidos e não terei mais afectos senão para vos amar. Estou decidido
a seguir o caminho que me indicardes».
A partir daí, a docilidade ao Espírito
Santo ser á a bússola que o vai guiar. A disponibilidade apostólica será uma
das marcas de origem dos Espiritanos. Será no horizonte desta disponibilidade
que ele conhecerá os pobres e jogará a vida pela sua causa. «O que o Espírito
nos pede neste momento, pede-o para sempre. Devemos pertencer-lhe na vida e
na morte… Comprometemo-nos a procurar a honra do Espírito Santo», primeiro dentro
de nós próprios por meio de um espírito de docilidade perfeita à vontade de
Deus, de obediência e submissão aos impulsos da graça, por um espírito de abandono
de nós próprios aos desígnios da divina Providência. É necessário
deixar-se dirigir pelo Espírito Santo, seguir unicamente as suas inspirações
e resistir a todas as da carne, não ter mais afectos nem intenções que as que
Ele inspira, confiar nele e rejeitar toda a inquietação. «Ele é o meu pastor,
nada me falta».
Alguns anos mais tarde, quando a congregação estava já solidamente
implantada, o Padre Warnet, Superior Geral, confessava: «Esta consagração que
fazemos ao Espírito Santo faz parte essencialmente do espírito das nossas Constituições:
as santas promessas que com ela fazemos são a herança que nos deixaram os nossos
pais. Eles eram pobres dos bens da terra e queriam ser ricos só dos dons do
Espírito Santo, que constituíam todo o seu tesouro. Legaram-nos também um testemunho
dos seus piedosos sentimentos, numa fórmula de consagração que nó devemos honrar
com uma veneração inteiramente religiosa, porque é como que o seu testamento
espiritual… Consagraram-se ao Espírito Santo sob a invocação de Maria, concebida
sem pecado, e nos ofereceram a eles. Não podemos pertencer a melhor Mestre,
sob uma melhor salvaguarda como a de Maria. Consagremo-nos portanto a um e a
outra, segundo a intenção dos nossos pais».
E o Padre Besnard, na sua biografia
de S. Luis Maria Grignion de Monfort, diz dos primeiros espiritanos: «Sabe-se
a que se destinam os jovens eclesiásticos que se reúnem no Seminário do Espírito
Santo. Formados para todas as funções do sagrado ministério e em todas as virtudes
sacerdotais… possuem em grau elevado o espírito de
desprendimento, de zelo e de obediência. Dedicam-se ao serviço das necessidades
da Igreja, sem outro desejo que não seja o de servir e de ser útil. Vemo-los
nas mãos dos superiores imediatos; e ao primeiro sinal da vontade destes… formam
como que um corpo de tropas auxiliares, dispostos a ir por toda a parte onde
haja trabalho para salvar almas, dedicando-se preferentemente às obras das Missões,
tanto estrangeiras como nacionais, oferecendo-se para ir residir nos lugares
mais pobres e mais abandonados, para os quais se encontram mais dificilmente
obreiros. Quer seja necessário ser relegado para o fundo de uma zona rural,
ou enterrado no canto de um hospital… ensinar num seminário ou dirigir uma comunidade
pobre… quer seja preciso atravessar os mares ou ir até ao fim do mundo para
ganhar almas para Jesus Cristo, a sua divisa é esta: «Eis-nos aqui, dispostos
a fazer a vossa vontade — Ecce ego, mitte me».
De notar que, associada ao Espírito
Santo estava sempre Nossa Senhora: «Nossos pais consagraram-se ao Espírito Santo
sob a invocação de Maria concebida sem pecado. Não podemos pertencer a um melhor
Mestre nem estar sob melhor protecção que a de Maria. Consagremo-nos portanto
a um e a outra segundo o desejo dos nossos pais espirituais».
Penso que um primeiro
apelo da celebração deste ano jubilar da morte do nosso fundador será reabrir
o seu testamento, o testamento da sua vida, e dar um novo espaço ao Espírito
Santo na difusão do seu papel na vida e na missão da Igreja; deixarmos que Ele
faça parte incontornável do nosso projecto de vida.
Pe. A. Torres Neiva
Fonte: http://www.spiritans.co.cc/index.php?id=462