Portugal, hoje




A D. Ana está acamada vai para vinte e cinco anos, articulações destruídas por doença reumática grave, com tratamento, mas ainda sem cura. O Sr. José, seu marido, há muitos anos que não sai de casa, preso à responsabilidade e ao cuidado de velar pela sua companheira de toda uma vida. Vivem de uma pequena pensão de reforma e de algum apoio social da Santa Casa da Misericórdia. Há cerca de dois anos, o casal começou a ser visitado por voluntárias da nossa associação de doentes, que se aperceberam do carinho e do desvelo invulgar do Sr. José pela sua esposa, a par da serena aceitação da D. Ana pela sua situação de dependência física, sem contudo desistir da sua afirmação como pessoa, de vontade e pensamento autónomo e livre, apesar de todas as condicionantes. A vida daquele casal tão unido, verdadeiramente, para o Bem e para o Mal, foi motivo de reflexão sobre muita coisa, muitos valores actualmente em causa, muitas queixas de fraco motivo que fazemos no nosso quotidiano. Como tudo o que é belo toca o coração, o exemplo daquele amor tão sublime na essência, como humilde no expressar, deu origem a uma genuína solidariedade entre todos que os conheceram de perto, a começar assistente social que os referenciou. Todos gostariam de ter uma “varinha mágica” que ajudasse aquelas duas pessoas tão unidas a ter uma vida digna, com alguma qualidade, alguma alegria que os ajudasse a superar a situação pesada do seu quotidiano. Demos carinho, atenção, algum apoio, mas...sentimos ficar sempre muito aquém do que precisavam.

 

Um dia tivemos conhecimento de uma iniciativa dos Serviços Sociais da Câmara Municipal de Lisboa, para pessoas idosas, carentes a vários níveis, dependentes, ou doentes graves e seus directos cuidadores: férias, durante duas semanas, num bom espaço, situado numa quinta, com uma pequena equipa de técnicos de saúde, assistência social e voluntários a dar o necessário apoio. Assim, autenticamente como por “toque de varinha mágica”, a D. Ana, acamada há cerca de vinte cinco anos, e o Sr. José, seu marido, pessoas sem recursos económicos, partiram o ano passado ( e este ano repetiram), para as primeiras férias das suas vidas! Férias que nunca tinham usufruído, nem mesmo quando ambos trabalhavam e tinham saúde. A D. Ana foi de ambulância - desta vez não para consulta médica, exames clínicos ou hospitalização- mas para um espaço diferente, onde dela cuidaram com todo o carinho e cuidados de saúde; o Sr. José pôde-se libertar, por duas semanas, das suas tarefas de vigilante e cuidador, nas suas múltiplas vertentes. A D. Ana conseguiu, por algumas vezes, aguentar a saída numa cadeira de rodas, para ver o campo envolvente, olhar o céu, ver árvores, flores, outras pessoas e até teve quem fosse ao seu quarto cantar e tocar só para ela. O Sr. José pôde “alinhar” com pessoas que se encontram nas mesmas situação de cuidadores a tempo inteiro, conviveu, passeou em mini-excursões, assistiu a espectáculos, divertiu-se e teve quem dele cuidasse dele, por duas semanas. Quando, pela primeira vez perguntámos ao casal se estaria interessado numas férias, a reacção foi de incredibilidade e espanto: Como seria possível?! Ao saber os pormenores, o Sr. José, três semanas antes da data marcada tinha a mala pronta. Às voluntárias envolvidas, resta a gratificação do “brilhozinho nos olhos” do Sr. José e ressoa a frase da D. Ana: “Já nem me lembrava da cor das árvores. São mesmo verdes!”

 

Não faço ideia, como pessoa que conhece bem a realidade dos dependentes, quer físicos, quer mentais, e a dura realidade das suas famílias e directos cuidadores, se a população em geral entende a importância que iniciativas destas representam. Não sei mesmo, se a própria hierarquia gestora dos diferentes pelouros Câmara Municipal de Lisboa estará a par da riqueza humana desta sua iniciativa e dará o apreço devido a esta pequena equipa de heróis portugueses, que sem alarde, sem mediatização, só porque amam e compreendem o ser humano na sua integralidade, decidiram desenvolver. Por mim, pela Instituição de Solidariedade Social que represento, pelas pessoas nestas difíceis situações existenciais e suas famílias, fica a minha pública homenagem, com orgulho pelo que se faz de bom em Portugal, hoje.

Fernanda Ruaz (Vice-Presidente da Liga contra doenças Reumáticas)




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