A experiência do baptismo do Espírito Santo
I
Na sequência dos meses anteriores, tomamos hoje uma carta de
S. Paulo para fazer algumas, necessariamente poucas, considerações, com o intuito
de sugerir uma meditação pessoal. Depois da Carta aos Tessalonicenses e das
Cartas aos Coríntios, escolhemos a Carta aos Gálatas.
É uma Carta pequena no tamanho, mas grandíssima no conteúdo. S. Paulo ataca
um grande problema pastoral, porque entre os Gálatas, povo que não pertencia
à tradição judaica, alguns defendiam que os cristãos deviam manter as práticas
do judaísmo. Para combater esta tendência judaizante, S. Paulo desenvolve uma
argumentação que toca os dois pólos fundamentais da pregação aos cristãos: a
autoridade e o testemunho de quem prega; e a própria experiência da fé daqueles
cristãos a quem o pregador se dirige.
II
Quanto à sua autoridade, S. Paulo proclama que o Evangelho,
que prega, não o recebeu de homem algum, porque o recebeu directamente de uma
revelação de Jesus Cristo. E então conta a sua história e dá o seu testemunho,
seja da sua conversão, seja da sua comunhão com os outros apóstolos.
Esta dimensão da evangelização é muito importante. Porque uma coisa é pregar
como quem ensina, e outra coisa é pregar como quem dá testemunho. Na Igreja
Católica, a todo o momento se diz aos leigos que devem dar testemunho, por palavras
e obras. O testemunho que se pede refere-se não apenas à pregação, mas sim à
própria conversão. Se a pregação pede a fé, é preciso dar testemunho de fé.
Se a pregação pede a vida, é preciso dar testemunho de vida.
Reconheçamos com humildade que, na pregação do Evangelho, na vida ordinária
da Igreja, raras são as ocasiões em que aquele que prega dá testemunho pessoal.
Ora, S. Paulo, que foi um apóstolo, deu testemunho da sua fé e da sua autoridade,
contando a sua própria vida. Claro que nem todos têm um testemunho tão dramático
para dar: mas os testemunhos mais humildes e aparentemente simples também podem
ser muito poderosos, como no exemplo admirável de Santa Teresinha do Menino
Jesus. Quem vive com generosidade a Vida no Espírito e faz discernimento pessoal
e se sujeita ao discernimento da comunidade e da autoridade, tem, seguramente,
coisas de que pode e deve dar testemunho pessoal, apenas para glória de Deus.
III
Mas o outro pólo testemunhal incluído na Carta aos Gálatas,
o dos próprios crentes, não é menos interpelante, hoje, para nós. Vejamos.
S. Paulo pergunta, a certo passo (traduzo por palavras hoje mais correntes o
que vem na Carta aos Gálatas, capítulo 3): ó Gálatas insensatos! Quem vos fascinou?
Não foi Jesus Cristo? Só vos pergunto uma coisa? Foi pelas vossas obras, por
aquilo que vós próprios fizestes, que recebestes o Espírito Santo? Não foi porque
aceitastes a fé? Não foi porque pedistes e recebestes o baptismo? Então foram
em vão as experiências do Espírito que já fizestes? Aquele que vos dá o Espírito
e que realiza milagres entre vós, acaso o faz porque vós praticais a lei judaica?
Ou é pela vossa fé?
Estas interpelações - que o meu leitor deverá ler no texto da Carta aos Gálatas,
capítulo 3, versículos 1 a 6, pelo menos - poderiam hoje ser dirigidas a um
auditório de baptizados, como os Gálatas eram?
Não creio. Os baptizados, hoje, não testemunham (ou só muito raramente) entre
si a experiência exaltante do baptismo do Espírito Santo; nem testemunham os
"milagres" do Espírito no seio da comunidade.
Alguns dizem que agora já não é preciso que o Espírito de Deus se manifeste
do mesmo modo exuberante e poderoso como nos princípios da evangelização. Como
assim? Então hoje não é precisa a manifestação do Espírito, no mundo à nossa
volta? Neste mundo de que nos queixamos tanto, por ser cada vez mais agressivo
contra a fé cristã? O século XX, não se diz que foi um século de mártires cristãos?
E não continua a acontecer o mesmo, hoje, já no século XXI?
Nós, no Renovamento Carismático, temos a experiência inequívoca de que o Espírito
Santo se manifesta em amor e em poder, entre nós, quando o acreditamos, o amamos
e o pedimos. Temos feito uma experiência pentecostal que já foi milhares de
vezes discernida por leigos e pelas autoridades da Igreja, inclusive pelo Papa,
em numerosas ocasiões. E nessa experiência contam-se as maravilhas de Deus.
Não. O problema não é o da diferente forma de o Espírito se manifestar, no tempo
histórico. O problema é o da forma como nós queremos, ou não queremos, hoje,
manifestações poderosas do Espírito. O problema é o da nossa fé, que se tornou
racionalista, como racionalista é o espírito do nosso tempo. Recordemo-nos,
por exemplo, do caso, entre nós, das curas extraordinárias operadas por intermédio
da oração do Padre Tardif, há bem poucos anos. Estão gravadas em vídeo; foram
emitidas pela TVI. Podem rever-se em Dvd. A elas assistiram muitos leigos, sacerdotes
e um bispo. As pessoas curadas de modo extraordinário ficaram duradoiramente
curadas - três, uma em Fátima e duas no Pavilhão dos Desportos, eram pessoas
que estavam há dezenas de anos em cadeira de rodas e se levantaram naquele momento.
Pois nunca mais se falou disso, se é que se chegou mesmo a falar nessa altura.
Parece que se quer esquecer.
Não. O que nos sucede, a nós, é o mesmo que sucedia aos judeus: acabavam de
ver uma cura extraordinária e pediam mais milagres como prova, porque nunca
lhes chegava; e nunca lhes chegava porque continuavam a duvidar sempre.
A Igreja, fora dos casos em que exige (e admite) formalmente um milagre pela
intercessão de um servo de Deus, para efeitos de lhe reconhecer santidade, ou
dos casos controlados em Lourdes e noutros santuários (e sabe-se com que rigores
racionais examina esses casos), não inclui na sua pedagogia espiritual ordinária
esta dimensão experiencial confiante da fé. O que tem consequências negativas:
não contra o milagrismo, que Deus repreende; mas contra "a vida no Espírito",
que é vida cristã.
IV
Leia-se na carta aos Gálatas o contraste luminoso da "vida na carne" e da "vida no Espírito", no capítulo 5, a partir do versículo 16: "Digo-vos, pois, deixai-vos conduzir pelo Espírito, e não satisfareis os apetites da carne". E depois de enumerar várias obras da carne, vêm os maravilhosos "frutos do Espírito Santo", que todos devemos saber de cor: "o fruto do Espírito é amor, alegria, paz, paciência, afabilidade, bondade, fidelidade, mansidão, temperança" (Gl 5, 22-23). "Se vivemos pelo Espírito, andemos também de acordo com o Espírito" (Gl 5,25) - talvez se pudesse concluir desta afirmação de S. Paulo o seguinte: se vivemos como baptizados, pois o baptismo comunica a vida do Espírito, então vivamos efectivamente de acordo com o Espírito Santo.
V
O Papa pede aos leigos "mais unidade" entre a fé e a vida. No dia 15 de Novembro passado, o Papa recebeu em audiência os participantes da XXIII Assembleia Plenária do Conselho Pontifício para os Leigos, que teve lugar em Roma por ocasião do 20º aniversário da "Christifideles Laici", a exortação apostólica de João Paulo II após o Sínodo dos Bispos de 1987, e que se considera a Carta Magna do laicado católico. Durante o discurso que dirigiu aos membros e consultores do Conselho Pontifício para os Leigos, Bento XVI insistiu na necessidade de "maior unidade entre a fé e a vida" como elemento fundamental da missão dos leigos no mundo e na Igreja, e especialmente na vida política. No seu discurso, Bento XVI qualificou a explosão dos novos movimentos laicais, isto é, do "associativismo laical" das últimas décadas (em que se inclui o Renovamento Carismático), como "um sinal do Espírito para a Igreja". O Papa mostrou a sua preocupação pela participação dos leigos na vida pública; especialmente "a urgência da formação evangélica e do acompanhamento pastoral de uma nova geração de católicos comprometidos na política". Os políticos cristãos devem ser "coerentes com a fé professada, ter rigor moral, capacidade de juízo cultural, competência profissional e paixão pelo serviço ao bem comum", acrescentou.
Mário Pinto