A DEFESA DA VIDA
Segundo a Encíclica "DEUS É AMOR" do Papa Bento XVI
No dia de Natal de 2005, a festa da Encarnação do Filho de Deus, o Papa Bento XVI fez publicar sua primeira Encíclica, "Deus é amor." A Encíclica, dirigida a cada membro da Igreja, procura esclarecer uma das palavras que usamos, e que é talvez das mais mal empregues, abusadas, e confundidas e, ao mesmo tempo, uma das mais centrais e importantes: AMOR.
O Papa procura enfatizar o facto de que o amor é ao mesmo tempo uma dádiva e uma ordem, uma realidade que Deus incutiu em nós e que nos faz regressar de volta a Ele e uns aos outros.
É um dom que abrange o corpo e a alma, e ambas as realidades, naturais e sobrenaturais. O amor tem um conteúdo. Não é um mero sentimento ou uma boa intenção, mas antes, tem uma "forma específica", que leva a uma direcção específica, e sempre inclui e exclui determinadas
acções. O Papa reforça que o amor de Deus e o amor ao próximo são um único mandamento e que nenhum deles sobrevive ou cresce se os tentarmos separar. A Enciclica surge no dia de Natal, porque essa festa nos revela o amor de Deus, ensina-nos que o seu significado se encontra na Pessoa de Cristo, e que este amor tem uma expressão concreta num tempo e espaço bem definidos. Amar, além disso, constitui um programa concreto por parte da Igreja inteira, e é tão essencial à Igreja quanto o são a Palavra e os Sacramentos.
Que implicações tem um ensinamento como esta Encíclica, para os movimentos a favor da vida?
A Encíclica, primeiro que tudo, atesta que a defesa da vida está na essência da resposta que o cristão e a Igreja inteira dão ao próprio Deus. A defesa da criança não nascida, está manifesta em diversos temas importantes:
1. A ligação inseparável entre o amor de Deus e o amor ao próximo.
O Papa faz uma reflexão da passagem de 1Jo 4:20: "Se alguém diz que ama a Deus e odeia o seu irmão, é um mentiroso; pois quem não ama seu irmão a quem vê, não pode amar Deus a quem não vê." Há uma ligação inquebrável entre o amor de Deus e o amor ao próximo. As palavras de S. João devem pois ser interpretadas de modo a significar que o amor ao próximo é um trajeto que conduz ao encontro com Deus, e que fechar os olhos ao nosso irmão nos cega também para Deus".
Há alguns que reivindicam que o aborto é compatível com o amor, ou, por vezes, feito em nome do amor. Mas o aborto é necessariamente "fechar os olhos ao próximo" indicado pela Encíclica como incompatível com o amor. Este fechar dos olhos acontece, quer no indivíduo que não reconhece as reivindicações que a vida da criança coloca aos nossos ombros, quer na sociedade, em que os olhos da lei estão fechados para o feto, quando o declara sem personalidade jurídica. Em resumo, quem não ama o seu próximo não nascido, não pode amar a Deus. Esta passagem da Encíclica ensina-nos também que a defesa do feto é de facto "um trajeto que conduz ao encontro com Deus."
2. A renúncia, como dimensão do amor.
Comentando o termo "eros" o Papa diz que as emoções naturais, humanas, do amor, são boas. No encontro com Deus, os nossos instintos naturais são purificados e elevados; amadurecemos de modo que o nosso amor se torna auto-doação, guiado pela razão e pela fé.
O amor pode tornar-se tão poderoso que dá a vida ou a destrói; mas não pode ser neutro. À luz de Cristo, a Encíclica ensina que o "amor transforma-se agora em interesse e cuidados para com o outro. Deixou de ser uma preocupação o querer mergulhar e intoxicar-se na felicidade pessoal; em vez disso, procura o bem do amado: transforma-se em renúncia e está pronto, mesmo desejoso do sacrifício".
No melhor sentido da palavra, cada gravidez é uma "crise," isto é, um momento em que nós escolhemos crescer, com toda a dor que isso envolve. A mulher grávida é fisica, psicològica, e espiritualmente levada a um estado que supera a sua condição habitual. A Encíclica diz que a "há um chamamento à purificação e crescimento na maturidade; e este passa também através da renúncia". A criança muda a mãe para sempre, e esta ao dar-se à sua criança faz crescer em si a maturidade.
3. A unidade do corpo e da alma.
O amor Cristão reconhece a unidade do corpo e da alma. A Encíclica diz: " nem é o espírito sózinho, nem o corpo sózinho que ama; é o homem, a pessoa, uma criatura unificada, composta de corpo e alma, que ama". O dualismo falso que vê a pessoa humana somente como uma alma "que usa" um corpo, conduz ao aborto e à eutanasia. Os pais são tentados a pensar que, em abortando uma criança, simplesmente "estão fazendo-a voltar para Deus." Aqueles que matariam um doente terminal ou inválido, justificam os seus actos como "livrar caridosamente" a "pessoa" do corpo que já não funciona correctamente. Estas atitudes são contrárias ao amor, porque conduzem à destruição da pessoa humana, que é corpo e alma.
4. A procura da inclusão Eucarística.
O compromisso com a vida é uma atitude eucarística porque é um esforço para incluir os nossos irmãos e irmãs que sejam excluídos do amor e da protecção. A Eucaristia é a união com Cristo e conseqüentemente com todos nossos irmãos e irmãs, incluindo os que ainda não nasceram. O Papa aborda este tema com grande clareza: "Na Comunhão Sacramental eu torno-me um com o Senhor, e também com todos os outros que estão em comunhão.Como S.Paulo diz, "porque só há um pão, nós que somos muitos, somos um só corpo, porque tomamos parte desse pão" (1 Cor 10:17). A união com Cristo é também união com todos aqueles por quem Ele se entregou. Eu não posso possuir Cristo apenas para mim; eu posso pertencer-lhe somente na união com todos aqueles que se tornaram, ou que se tornarão, um com Ele. O amor de Deus e o amor ao próximo são unidos agora verdadeiramente: Deus encarnado, dirige-nos a todos para Ele.
Deste modo, a contradição habitual entre adoração e ética deixa simplesmente de existir: "Adoração" ela própria, comunhão Eucaristica, inclui a realidade quer de ser amado, quer de amar os outros por sua vez. Eucaristia que não passe pela prática concreta do amor, está intrinsecamente fragmentada".
É de notar que o Papa se refere não só à união com os que ligaram ao Senhor, mas também união com aqueles que se hão-de ligar. Isto inclui o feto, que partilha da mesma humanidade que nós partilhamos com Cristo.
5. A Igreja e a política.
O Papa reitera o facto de que a Igreja e o Estado têm missões distintas mas relacionadas. No contexto do discurso sobre o compromisso da Igreja para com a caridade, o Papa indica que a luta para a justiça é também do interesse da Igreja, mas está relacionado mais diretamente aos deveres do Estado. Explica, "A Igreja não pode e não deve substituir o Estado. Na luta pela justiça o seu papel consiste em desenvolver argumentos racionais, contribuindo para o reavivar da energia espiritual sem o que a justiça, que exige sempre sacrifício, não poderá prevalecer e prosperar". Isto, naturalmente, trata directamente do direito à vida. A Igreja deve desempenhar o papel de ajudar os povos a compreender as exigências da justiça, e assim, deve ensinar que o direito à vida está no coração da justiça e é da responsabilidade do Estado. A Igreja deve também incentivar os dons que Deus dá aos leigos para entrarem no mundo da política, de um modo vivo e desperto. Ou seja é na Igreja que devemos encontrar o incentivo e o alimento para fazer o trabalho difícil de restaurar o respeito para a vida na nossa sociedade. Infelizmente, muitos encontram apenas o oposto da parte dos seus párocos, que estão frequentemente incomodados com a política e incapazes de articular a vocação dos leigos para transformar as realidades políticas. Esta Enciclica é um desafio para mudar tudo isso.
Entrementes, a missão caritativa da Igreja consiste, como a Encíclica ensina, "na resposta simples às necessidades imediatas e às situações específicas: alimentando o que tem fome, vestindo o despido, cuidando e curando o doente, visitando aqueles que estão na prisão, etc." A resposta às necessidades imediatas deve, obviamente, incluir as necessidades imediatas das crianças programadas para morrer pelo aborto, e as necessidades dos pais que estão em tal desespero, que tentam abortar. Felizmente existem numerosas actividades da Igreja para responder a estas necessidades concretas.
Conclusão
A igreja nasceu do amor. Os cristãos vivem no amor. O próprio Deus é amor. E os movimentos a favor da vida, são movimentos de amor. Se assim não forem, então, não são nada. Mas se o forem, serão vitoriosos, "porque o amor é mais forte do que a morte" (CC 8:6). O Papa Bento XVI forneceu aos movimentos pro-vida e à Igreja, uma reflexão nova no Evangelho do Amor de Deus. Como o seu predecessor João Paulo II ensinou na "Evangelium Vitae", este é o mesmo que o Evangelho da vida, pois "o Evangelho do amor de Deus para com o homem, o Evangelho da dignidade da pessoa e o Evangelho da vida são um único e indivisível Evangelho".
Tradução e adaptação do artigo de Fr Frank Pavone,
Director Nacional dos Padres Para a Vida
New York, USA
www.priestsforlife.org