XXXIV Aniversário do RCC em Portugal

"Não extingais o Espírito"





Há trinta e quatro anos, na Casa de Retiros de Nossa Senhora do Carmo do Santuário de Fátima, com um pequeno grupo de doze pessoas sob a coordenação espiritual do Pe. José da Lapa, dos Missionários do Espírito Santo, nasceu, em Portugal, o Renovamento Carismático Católico. Sopro de vida divina, depressa esta faúlha do Espírito Santo se propagou por todo o país, sendo hoje aos milhares os portugueses que fazem a sua caminhada de fé nesta espiritualidade de Pentecostes.

A marcar este trigésimo quarto aniversário, Pneumavita, a comunidade-mãe do Renovamento Carismático Católico em Portugal, organizou e coordenou, como é habitual, duas assembleias no Centro Pastoral de Paulo VI, em Fátima: a primeira, de 7 a 9 de Novembro e a segunda, de 14 a 16 do mesmo mês; entre ambas, na terça-feira, dia 11, uma Eucaristia de acção de graças na Igreja de Santa Isabel, em Lisboa. Da 1ª Carta de S. Paulo aos Tessalonicenses vieram as palavras que o Senhor inspirou para tema central destas celebrações: "Não extingais o Espírito. Não desprezeis as profecias. Examinai tudo, guardai o que é bom. Afastai-vos de toda a espécie de mal" (1 Ts 5, 19-22).

As duas assembleias em Fátima seguiram um esquema semelhante e sempre na dinâmica carismática, tendo estado em serviço todas as equipas de Pneumavita: secretariado, acolhimento, animação, liturgia, intercessão, coro, saúde e comunicação social. Na sexta-feira à tarde, acolhimento e adoração ao Santíssimo Sacramento. À noite, abertura solene da assembleia, com palavras de boas vindas do Pe. Lapa que contou, na primeira pessoa, a história de como tudo aconteceu em Fátima há trinta e quatro anos, tendo também dado a palavra a duas pessoas da primeira hora e que nos acompanharam nestas duas assembleias: o Pe. Manuel Couto, já na altura sacerdote, e a Rosa Maria, a primeira jovem daquele grupo inicial de doze. Depois, houve a chamada das dioceses: estavam presentes irmãos de todas as dioceses de Portugal, bem como representantes da Equipa de Serviço Nacional. Seguiu-se a entrada solene de Nossa Senhora e a apresentação do orador convidado, que fez uma breve introdução ao tema. No sábado de manhã, Laudes, ensinamento e Eucaristia; à tarde, Celebração Mariana na Capelinha das Aparições e, já de novo no Centro Paulo VI, dois ensinamentos. Depois de jantar, assembleia de adoração, louvor, cura e libertação. No domingo, oração de Laudes, ensinamento e Eucaristia final.

A terminar esta introdução geral gostaríamos de fazer uma referência especial ao Pe. Rocha Monteiro, salesiano, também ele ligado ao Renovamento Carismático desde o início e para o qual sempre tem trabalhado com muita dedicação, sendo autor de muitos cânticos do Renovamento; fundou no Porto, em Junho de 1975, a Comunidade de Vida. (No dia 1 de Março de 1975, nas Florinhas do Lar, o Pe. José da Lapa havia já iniciado o Renovamento Carismático na Diocese do Porto).

O Pe. Rocha, como é conhecido, esteve connosco nas duas assembleias e a sua colaboração foi fundamental para que pudéssemos ter aquele ambiente de muita simplicidade mas de grande paz, júbilo e comunhão, levando a que nos deixássemos conduzir pelo Espírito Santo e pudéssemos viver as maravilhas que o Senhor foi derramando sobre todos nós. O Pe. Rocha não só conduziu a inspirada oração que, nas noites de sexta-feira, acompanhou a entrada de Nossa Senhora naquele cenáculo, como também fez as orações introdutórias aos ensinamentos, presidiu à adoração solene no primeiro sábado, às Laudes no segundo sábado e foi o tradutor que acompanhou os conferencistas. Graças ao Espírito Santo, que encheu o Pe. Rocha com muita sabedoria, ardor e unção, pudemos usufruir plenamente dos ensinamentos, todos eles proferidos em língua italiana.

Durante todo o tempo de funcionamento das assembleias, houve exposição solene do Santíssimo Sacramento no salão do Bom Pastor, com grupos de adoradores em permanência.

Vamos, a partir daqui, referir-nos à primeira assembleia aniversária (de 7 a 9 de Novembro).

PRIMEIRA ASSEMBLEIA

A oração de Laudes de sábado foi presidida pelo Pe. Filipe de Sousa, pároco de Albergaria-dos-Doze e fundador da Comunidade "Luz e Vida"; às Laudes de domingo presidiu o Pe. Tomás, Missionário da Boa Nova.
A Eucaristia de sábado foi presidida por D. Maurílio Gouveia, Bispo Emérito de Évora, tendo o Bispo Emérito de Leiria-Fátima, D. Serafim Ferreira e Silva, presidido à Eucaristia de domingo.

O CONFERENCISTA

Matteo Calisi foi o conferencista convidado para esta assembleia aniversária. Nascido em Bari, Itália, é casado, tem dois filhos e é professor de música. Em 1983, fundou a "Comunidade de Jesus", em Bari, uma associação internacional de fiéis com particular sensibilidade missionária e ecuménica, reconhecida pelas autoridades eclesiásticas.

É membro de diversas comissões internacionais para o diálogo com outras Igrejas e Comunidades cristãs; foi, de 1993 a 2004, Vice-Presidente do ICCRS (Serviço Internacional do Renovamento Carismático Católico), com sede no Vaticano; é Presidente, desde 2002, da "Fraternidade Católica das Comunidades Carismáticas", organismo de Direito Pontifício; colabora, desde 1996, com o Conselho Pontifício dos Leigos no "grupo ad hoc" dos Movimentos Eclesiais e das Novas Comunidades e, em Março de 2008, o Papa Bento XVI nomeou-o membro do Conselho Pontifício para os Leigos.
Reconhecido internacionalmente, é autor de várias obras sobre Adoração, Evangelização e Ecumenismo.

ENSINAMENTOS

Matteo Calisi proferiu quatro ensinamentos, todos eles subordinados ao tema geral deste 34º aniversário: "Não extingais o Espírito. Não desprezeis as profecias. Examinai tudo, guardai o que é bom. Afastai-vos de toda a espécie de mal" (1 Ts 5, 19-22). Segue-se um resumo dos ensinamentos.

Actualmente, e segundo estatísticas recentes, em mais de cento e vinte milhões de católicos em todo o mundo, o Renovamento Carismático Católico é a maior corrente espiritual que alguma vez existiu na Igreja, sendo transversal a toda a cristandade mundial. Há grupos de oração, comunidades de aliança, comunidades de vida, comunidades monásticas, mas tudo tem um denominador comum: a efusão do Espírito Santo. Lembremos a profecia de Joel, citada por Pedro no discurso à multidão no dia de Pentecostes: "Nos últimos dias derramarei o meu Espírito sobre toda a criatura. Os vossos filhos e as vossas filhas hão-de profetizar; os vossos jovens terão visões e os vossos velhos terão sonhos…Farei ver prodígios em cima, no céu, e sinais em baixo, na terra…e então, todo aquele que invocar o nome do Senhor será salvo" (Act 2, 17-21). Nada é possível fazer na Igreja sem o Senhor, sem o Espírito Santo.

Hoje é difícil falar de Deus; o homem desistiu de O procurar, preferindo um mundo que vive numa lógica de morte porque quer negar Deus, não quer falar nem ouvir falar de Deus. E neste mundo a quem Jesus Cristo nada diz, o Renovamento Carismático proclama publicamente que Ele está vivo e que vem ao nosso encontro para nos dar a verdadeira felicidade e a verdadeira vida A espiritualidade do Renovamento Carismático é a espiritualidade pentecostal, onde o Espírito Santo se derrama, enchendo-nos com os seus dons e carismas.

Primeiro Ensinamento

A experiência da efusão do Espírito Santo é uma experiência fundamental que colocou o Renovamento Carismático na Igreja e no mundo e que gera três frutos:
- o primado de Deus na Igreja;
- o poder da evangelização acompanhada por carismas;
- o fortalecimento do louvor e da adoração.

No decurso de uma refeição que Jesus partilhava com os apóstolos, ordenou-lhes que não se afastassem de Jerusalém mas que esperassem lá o Prometido do Pai: "Ides receber uma força, a do Espírito Santo, que descerá sobre vós, e sereis minhas testemunhas em Jerusalém, por toda a Judeia e Samaria e até aos confins do mundo" (Act1, 4-8). Tomemos consciência de que esta Palavra é actualíssima nos dias de hoje. É Jesus mesmo em pessoa, aqui em Fátima, que nos dá a mesma ordem. É Jesus que aqui nos reuniu para um novo desafio. Primeiro recebemos o Espírito Santo, o Senhor, depois comunicamo-l'O aos outros. Por isso nós, no Renovamento Carismático, devemos reforçar aquilo que é a unicidade da missão da Igreja Católica: centrarmo-nos em Deus - Pai, Filho e Espírito Santo. A iniciativa parte sempre de Deus Pai, Deus Filho executa e Deus Espírito Santo aplica o fruto da redenção na humanidade.

Deus amou tanto o mundo que nos enviou o seu Filho unigénito para que todos sejam salvos e tenham a vida eterna. É isto o Evangelho, é isto que o cristão e a Igreja têm a obrigação de proclamar, através de homens e mulheres de Deus cheios do Espírito Santo que pregam e fazem discípulos em todas as nações.

O Renovamento Carismático sabe muito bem que Jesus é o único caminho para sermos salvos, a única esperança para a humanidade e, por isso, aceitou a responsabilidade de proclamar tudo isto com fé. Anunciemos, pois, o Evangelho com clareza, com dinamismo, com audácia, sem medos. No primeiro dia do seu pontificado, João Paulo II disse: "Abri as portas a Cristo!" Todo o projecto pastoral deve partir desta verdade: proclamar abertamente que Jesus é o Senhor e o Salvador. Esta é a missão que a Igreja confia ao Renovamento Carismático: abrir as portas a Cristo; fechar as portas do inferno.

Segundo Ensinamento

São Lucas diz assim no seu Evangelho: "Tendo convocado os doze, Jesus deu-lhes poder e autoridade sobre todos os demónios e para curarem doenças. Depois, enviou-os a proclamar o Reino de Deus e a curar os doentes" (Lc 9, 1-2a). Jesus disse-lhes para pregarem, afastarem os demónios e curarem os doentes. Ele deu autoridade aos ministros da Igreja para cumprirem a sua missão e, no Livro dos Actos, fala-se de todos os apóstolos que evangelizaram desta maneira. São Paulo diz que as comunidades crescem, não só pela força da Palavra mas pela presença do Espírito Santo e com sinais: curas e milagres tornam mais forte a Palavra e convencem os incrédulos. É impossível que o Espírito Santo não aja hoje como agiu na Igreja primitiva. Deus faz hoje os mesmos milagres e desperta a realidade dos carismas para evangelizar as pessoas que não O conhecem. A evangelização na Igreja tem de ser acompanhada pelo exercício e pelo poder dos carismas, senão transforma-se em pura retórica.

Portanto, os carismas são necessários para a edificação da Igreja e isto será recordado no Concílio Vaticano II. No documento conciliar "Lumen Gentium" diz-se que o Espírito Santo santifica os fiéis não só através dos sacramentos, mas também através dos carismas divinos. Ao olhar para muitos sacerdotes e leigos, vemos a enorme ignorância que existe quanto aos dons e carismas, mas graças a Deus que a Igreja nos deu o Catecismo, onde podemos ler que os carismas, hoje, são actuais e devem ser exercitados, pois caso contrário podem vir a perder-se. Esperámos tantos anos para ver os carismas realizados na Igreja e, desde há quarenta anos, graças ao Renovamento Carismático, os dons do Espírito Santo estão a exercer-se na Igreja com muito poder.

Terceiro Ensinamento

O carisma da cura tem uma grande importância nos tempos actuais. O próprio Vaticano escreveu um documento sobre o ministério da cura, que voltou à Igreja graças aos homens e mulheres que tiveram a coragem de o praticar (o Pe. Tardif, por exemplo); os seus ensinamentos e testemunhos contribuíram para o retorno desta realidade da Igreja primitiva e estamos hoje, de novo, a experimentar a cura do corpo e do espírito.

Deus fez uma promessa no Antigo Testamento: "Eu sou o eterno que curo". O homem ficou separado de Deus por causa do pecado e, porque era impossível ao homem reverter esta situação, Deus mandou o seu Filho para expiar o nosso pecado. Nas suas chagas fomos curados e salvos. A sua acção redentora foi feita de uma vez para sempre. Portanto, a cura já foi realizada há dois mil anos mas está disponível, nos nossos dias, a quem a procura e a pede. Então, como poderemos, hoje, receber os frutos desta cura? Jesus liberta-nos da nossa vida emocional desorganizada, da nossa doença física, para nos dar uma nova relação de amor com o Pai. Ele é o grande médico.

Jesus tem autoridade sobre o físico e sobre o psíquico. No seu tempo, fez curas físicas e psíquicas e a Igreja é a continuação do poder salvífico de Jesus na história. Ele continua a agir. Os apóstolos continuaram a tradição de Jesus com todo o poder: curavam, invocando o nome da Salvação. No capítulo 5 da Carta de Tiago diz assim. "Algum de vós está doente? Chame os presbíteros da Igreja e que estes orem sobre ele, ungindo-o com óleo em nome do Senhor. A oração da fé salvará o doente e o Senhor o aliviará; e, se tiver cometido pecados, ser-lhe-ão perdoados".

Jesus, o Bom Pastor, quer curar-nos. Se estamos doentes, vamos ao médico e, com fé, recorremos também a Jesus, tal como fez a mulher hemorraíssa.

Quarto Ensinamento

A efusão do Espírito Santo foi o momento em que o Reino de Deus entrou na nossa vida. Vivemos a experiência do nosso encontro com Jesus, que se tornou o nosso único Senhor e Salvador, o que automaticamente fez nascer em nós o louvor e a adoração. Deus intervém e logo o primeiro efeito no povo é louvar. Nas primeiras comunidades cristãs o louvor tinha um papel muito importante.

Como é que devemos louvar e adorar? Há uma fase inicial e há uma continuidade. A primeira fase corresponde a uma adoração que eu diria salvífica, mais ligada ao perdão dos pecados, à pessoa de Jesus e à sua humanidade.

Segundo a lógica do Senhor, depois desta fase de salvação, devemos elevar-nos e procurar um louvor mais rico, uma adoração mais profunda. O projecto de Deus é fazer do povo carismático um povo de adoradores, um povo de sacerdotes que adorem o santíssimo nome de Deus com poder e glória.

A primeira característica deste louvor é a manifestação de Deus omnipotente. Todo o Renova-mento Carismático deve concentrar-se em Deus omnipotente e louvá-l'O e adorá-l'O pela sua omnipotência, entregando-Lhe não só o nosso coração mas todo o nosso corpo.

A segunda característica é que esta adoração é exactamente a adoração do céu, é antecipação da oração celeste, por isso é uma adoração esc-tológica. É uma experiência de adoração do trono de Deus, numa real comunhão com os anjos e os santos.

A terceira característica é termos como que uma nova veste, a veste sacerdotal, e uma nova unção para servir o Senhor, o que nos dá uma função sacerdotal de adoradores. É para este louvor e adoração que os carismáticos devem crescer. Esta é a maturidade do Renovamento Carismático.

A quarta e última característica é a dimensão mística. Quanto mais adoro, mais sou investido de dons místicos e mais a alma chega à união com Deus.

Este é o caminho para ver a Deus: perseverar numa vida de santidade cada vez mais profunda e entrar num louvor e numa adoração cada vez mais fortes, como um rio que corre diante do trono do Cordeiro.

PALAVRAS FINAIS

De coração totalmente aberto ao Espírito Santo, que nos conduz e nos leva a convergir para Aquele que é a Trindade Santa, a Comunidade Pneumavita agradece ao Senhor a infinitude de bênçãos derramadas durante esta primeira assembleia, em que nos congregámos na casa da Mãe para louvarmos o Senhor pelos trinta e quatro anos do Renovamento Carismático Católico em Portugal e pelas maravilhas que esta espiritualidade de Pente-costes tem operado na vida de tantos milhares de homens e mulheres em todo o mundo.

Com gratidão, agradecemos a presença do Sr. D. Serafim Ferreira e Silva, que nos acolhe em Fátima com muita amizade, bem como as palavras de incentivo que sempre nos dirige e que tanto nos têm ajudado nesta nossa caminhada em Igreja.

Ao Sr. D. Maurílio Gouveia, também o nosso muito obrigada. Companheiro da primeira hora, a sua dedicação, o seu apoio e o seu saber têm sido para nós, desde o início, a certeza de um caminhar no sentido certo. Como disse na sua homilia, o Senhor chama-nos a edificar uma sociedade mais humana, a "nova Jerusalém", a que Paulo VI chamou " nova civilização do amor". Por vezes, pode parecer que as forças do mal acabarão por vencer mas acreditamos que ninguém poderá deter o dina-mismo da acção do Espírito Santo.

Isabel Moraes Marques

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