Pregador pontifício dá resposta cristã à secularização da morte
Os tempos actuais caracterizam-se pela desconfiança e inclusive
pelo ridicularização da ideia de que existe uma vida depois da morte — e, no
entanto, anunciar esta vida eterna é precisamente uma das chaves
da nova evangelização. Foi o que afirmou o padre Raniero Cantalamessa, pregador
da Casa Pontifícia, perante o Papa e a Cúria Romana, na Capela Redemptoris Mater.
Nesta segunda pregação do Advento, o padre Cantalamessa quis centrar-se no segundo
dos três obstáculos que, em sua opinião, a nova evangelização tem de superar
hoje, especialmente em países de antiga tradição cristã: o cientificismo, o
secularismo e o racionalismo.
O secularismo, como atitude contrária à fé, é
sinónimo de temporalismo, “de redução do real somente à dimensão terrena”. É
precisamente contrário à fé cristã, que “triunfou sobre a ideia pagã da escuridão
depois da morte”, pelo que se constiuiu em novidade absoluta.
Como é possível
que essa ideia tenha decaído? – questionou o pregador pontifício. “Ao contrário
da época actual, em que o ateísmo é primariamente expresso na negação da existência
de um Criador, no século XIX o ateísmo exprimia-se pela negação da vida após
a morte”. “Feuerbach e principalmente Marx combateram a crença na vida após
a morte, sob o pretexto de que aliena o compromisso terreno. À ideia de uma
sobrevivência pessoal em Deus, substitui-se uma ideia de sobrevivência na espécie
e na sociedade do futuro” — explicou o Padre Cantalamessa. O materialismo e
o consumismo “completaram a obra nas sociedades opulentas, fazendo parecer inconveniente
que se fale ainda de eternidade entre pessoas cultas e em sintonia com os tempos”.
“Tudo isso provocou claramente um retrocesso na fé dos crentes que, com o tempo,
fez-se tímida e reticente sobre este ponto” — afirmou ainda, acrescentando que
“já não se prega” sobre a vida eterna.
A consequência disso é que o “desejo
natural de viver para sempre, assim distorcido, tornase um desejo ou frenesim
de viver bem, ou seja, agradavelmente, mesmo que à custa dos outros, se necessário”.
“Perdido o horizonte da eternidade, o sofrimento humano parece dupla e irremediavelmente
absurdo”, afirmou.
Diante disso, a resposta mais eficaz “não é combater o erro
contrário, mas fazer brilhar novamente diante dos homens a certeza da vida eterna,
confiando na força intrínseca que possui a verdade quando é acompanhada pelo
testemunho de vida”, explicou.
O desejo de eternidade é “o desejo mais profundo,
ainda que reprimido, do coração humano”. A única resposta válida para este problema
“é aquela que está baseada na fé na encarnação de Deus”. “Há perguntas que os
homens não deixam de fazer desde que o mundo é mundo e os homens de hoje não
são excepção: Quem somos nós? De onde viemos? Para onde vamos?”
A fé renovada
na eternidade não nos serve “somente para evangelizar, isto é, para o anúncio
aos outros; precisamos dela, mesmo antes, para dar um novo impulso à nossa caminhada
rumo à santidade”.
“O enfraquecimento da ideia de eternidade atinge também os
crentes, diminuindo neles a capacidade de enfrentar com coragem o sofrimento
e as provas da vida”, afirmou o padre Cantalamessa.
Fonte: Agência Zenit