XXXIV Aniversário do RCC em Portugal

"Não extingais o Espírito"





A marcar o trigésimo quarto aniversário do Renovamento Carismático Católico em Portugal, a comunidade Pneumavita organizou e coordenou, como é habitual, duas assembleias no Centro Pastoral de Paulo VI, em Fátima: a primeira, de 7 a 9 de Novembro e a segunda de 14 a 16 do mesmo mês; entre ambas e no final deste tempo celebrativo, respectivamente nas terças-feiras 11 e 18 de Novembro, duas Eucaristias de acção de graças na Igreja de Santa Isabel, em Lisboa.

SEGUNDA ASSEMBLEIA

A assembleia seguiu um esquema semelhante à primeira e sempre na dinâmica carismática, tendo estado em serviço todas as equipas de Pneumavita. Na sexta-feira à tarde, acolhimento e adoração ao Santíssimo Sacramento, presidida pelo Pe. Lapa. À noite, abertura solene da assembleia, com palavras de boas vindas do Pe. Lapa que contou, na primeira pessoa, a história de como tudo aconteceu em Fátima há trinta e quatro anos, tendo também dado a palavra a duas pessoas da primeira hora: o Pe. Manuel Couto, já na altura sacerdote, e a Rosa Maria, a primeira jovem daquele grupo inicial de doze. Seguiu-se a chamada das dioceses; estavam presentes irmãos de todas as dioceses de Portugal, bem como representantes das Equipas de Serviço Diocesanas e da Equipa de Serviço Nacional. Depois, foi a entrada solene de Nossa Senhora e, como introdução ao tema geral da assembleia "Não extingais o Espírito" (1 Ts 5, 19), um pequeno ensinamento proferido pelo nosso irmão Nini Langiulli, advogado, membro da "Comunidade de Jesus", a comunidade fundada por Matteo Calisi (o orador da primeira assembleia).

A oração de Laudes de sábado foi presidida pelo Pe. Rocha Monteiro, salesiano, ligado ao Renovamento Carismático desde o seu início; às Laudes de domingo presidiu o Pe. Amândio Paínha, pároco do Vimieiro (diocese de Évora). A tarde de sábado iniciou-se com a oração do Terço, na Capelinha das Aparições.
A Eucaristia de sábado foi presidida por D. Joaquim Mendes, Bispo Auxiliar de Lisboa, tendo o Bispo Emérito de Leiria-Fátima, D. Serafim Ferreira e Silva, presidido à Eucaristia de domingo.

O CONFERENCISTA

O Pe. Carlo Colonna é sacerdote jesuíta, ordenado em 1970. Desde que conheceu o Renovamento Carismático em 1985, ao qual logo aderiu, tem-no dado a conhecer em diversas partes de Itália. É assistente espiritual da "Comunidade de Jesus"; estando envolvido no ministério ecuménico da comunidade, e tem participado em numerosos encontros ecuménicos em Itália e no estrangeiro.
É autor de dezenas de livros de teologia espiritual e de catequese e é também autor de cânticos religiosos.
Durante esta sua estadia connosco, o Pe. Colonna proferiu quatro ensinamentos subordinados ao tema geral da assembleia. Gostaríamos de referir que, no primeiro ensinamento, o Pe. Colonna falou fundamentalmente sobre o dom de profecia, tendo-nos confiado, em particular, que, durante a noite, o Senhor assim o tinha inspirado.

Primeiro Ensinamento

Para melhor entrarmos na compreensão do tema da assembleia, vou começar com outro texto da Bíblia: "O que estava sentado no trono afirmou: Eis que faço novas todas as coisas" (Ap 21, 5a). Estas simples palavras contêm todo o programa do Pai, desde que começou a obra da nossa salvação até à volta de Jesus Cristo. Deus tem a intenção de fazer nova toda a humanidade e todo o universo. Deus começou a criar coisas novas desde o princípio da humanidade, coisas que nenhum homem pode fazer. O Renovamento Carismático é uma coisa nova hoje, há uns anos não existia. Eis que Deus criou um povo de profetas, criou um movimento de profetas, o Renovamento Carismático, que tem como compromisso o tornar novo o rosto dos cristãos e de tornar os cristãos poderosos no Espírito Santo. Isto é uma coisa nova que Deus está a fazer no meio de nós.

Nós adoramos o Pai, princípio e fim de todas as coisas, porque tudo vem do Pai e tudo regressa à glória do Pai. Mas o Pai não realiza a Igreja de Cristo, que é a nossa, sem nós e nós somos chamados a ser colaboradores do Pai, que nos faz compreender que não devemos extinguir o Espírito. São Paulo diz, logo a seguir "…não desprezeis as profecias" porque São Paulo tem como objectivo o fenómeno profético. Quando se fala do fluxo do Espírito Santo, São Paulo escolhe a profecia, que vem directamente de Deus.

O Espírito Santo usa o homem para falar como profeta. No meio de nós, há muitos que têm este carisma da profecia e havia muitos mais nas primeiras comunidades cristãs. Hoje há também comunidades proféticas que têm o ministério profético na Igreja. A adoração profética é uma coisa nova que se vive nas nossas paróquias e o Espírito começa a agitar comunidades proféticas.

Não extingais o Espírito de profecia que sopra nestas novas comunidades carismáticas e que pode ser extinto a partir de dentro da própria comunidade ou então de fora, por pessoas que não aceitam estas manifestações proféticas. Devemos ser colaboradores do carisma profético. O Espírito de profecia arrasta-nos, envolve-nos, faz-nos falar. Todos os profetas, de manhã, escutavam o que Deus lhes dizia. Jesus, a grande personalidade profética, realizava obras quando escutava o Pai. São Paulo foi também uma fortíssima personalidade profética. Movimentos proféticos, comunidades proféticas, personalidades proféticas é que nos levam para a frente. Agora fala-se de nova evangelização, que indica um nível diferente, um nível que vai para a frente pela força do Espírito, e hoje vemos que são comunidades fortemente proféticas que levam à frente esta evangelização.

Também o Renovamento Carismático pode apagar o carisma profético e fazer apenas a evangelização ordinária mas não é esta a nossa vocação. Devemos não extinguir mas alimentar o espírito profético e a ele nos confiarmos. O carisma profético cresce no tempo e produz obras cada vez maiores, sempre novas, pelo que devemos estar atentos para não extinguir este fogo profético, uma fortíssima convicção de que só em Deus está a salvação do homem pela graça de Jesus Cristo na força do Espírito Santo.

SEGUNDO ENSINAMENTO

No Evangelho de João, o primeiro milagre que nos aparece é o das bodas de Caná. Este milagre é uma síntese da obra de Deus e da nossa. O banquete está para se tornar num momento de tristeza, Nossa Senhora dá-se conta da falta e mostra a Jesus esta necessidade. Maria é medianeira e, depois, fica de parte; então Jesus opera no meio de nós. Diz aos servos para encherem as talhas de água e que as levem ao mestre-sala para provar. Era o melhor vinho do banquete. A água já não é água, transforma-se numa coisa nova. Este é o programa de Deus: "Eu faço novas todas as coisas".

É muito interessante ver a diferença entre o que Deus fez e os homens fizeram. Deus fez muito e os homens fizeram muito pouco mas fizeram-no para obedecer a Jesus. Esta é a nossa pequena colaboração com o Espírito. Se os servos tivessem dito "Estamos cansados, não vamos encher as talhas", poderiam ter extinguido o Espírito. O Espírito necessitava da colaboração dos criados.

Não extingamos o Espírito porque Ele vem sobre nós para nos transformar em Cristo. Por toda a eternidade permaneceremos transformados em Cristo. Foi este o programa que o Pai deu ao Espírito: "Eu te envio no Pentecostes para transformar os homens em Cristo". Então, o Espírito vem com prudência, com sabedoria, bate à porta e diz-nos: "Quero transformar o teu coração em Cristo". Não fechemos os nossos corações; o Espírito precisa desta esmola para fazer em nós grandes coisas. Nós fazemos a nossa parte e Deus fará a sua.

Sinto no meu coração que o desejo do Espírito é que sejais todos homens e mulheres de fé activa, colaboradores atentos a escutar o Espírito para seguir a sua linha. Assim, sereis uma comunidade que glorifica o Pai através do Filho, uma comunidade Pneumavita porque o Pneuma está sempre em actividade.

TERCEIRO ENSINAMENTO

A vida no Espírito, que começa com a atracção por Jesus ligada à efusão do Espírito Santo, é o programa central do Renovamento Carismático. Se tenho a vida no Espírito, tenho a verdadeira riqueza porque a vida no Espírito faz-me familiar à Santíssima Trindade. É uma presença nova do Espírito que nos leva cada vez mais para Jesus Cristo; Ele tem que ser para nós o primeiro amor.

Como se desenvolve esta vida no Espírito? Temos de ter a coragem de seguir Jesus passo a passo, mesmo nas mais pequenas coisas dos nossos afazeres. A sabedoria quer dar todos os tesouros aos seus discípulos mas põe os discípulos à prova. As noites do Espírito, o tempo do deserto, é o tempo da prova, tempo duro em seguir Cristo; embora sejamos atraídos por Jesus e O queiramos seguir, levamos dentro de nós uma mentalidade humana. Mas a prova da cruz lentamente muda a mentalidade interior do discípulo porque, na medida em que o discípulo persevera com a sua fé activa, aprende não só a seguir Cristo mas a morrer por Cristo, a descer ao túmulo com Cristo, e eis que no coração do discípulo aparece uma grande luz, a luz de uma sabedoria superior que não é deste mundo e que Deus destinou para os seus filhos. Esta sabedoria da cruz transforma o discípulo em perfeito e, neste momento, ele já está preparado para receber a vida em abundância, a vida de união com Cristo, a ponto de Jesus lhe dizer: "Já não és servo, és meu amigo".

Há três etapas na vida espiritual: etapa inicial, etapa de desenvolvimento e etapa de perfeição. Cada etapa tem vários estados que crescem de acordo com a nossa generosidade. Gostaria que aparecesse em vós um grande desejo de crescer na vida nova no Espírito. O mundo vive segundo a carne, o sexo, a vanglória, compromissos fúteis, coisas inúteis, tudo muito longe da sabedoria da cruz e já não se fala na vida do Espírito. Onde estão os carismas, os dons, os frutos do Espírito Santo? Temos de nos comprometer com a vida no Espírito e fazer tudo para que este tesouro permaneça no nosso coração.

QUARTO ENSINAMENTO

Nesta última meditação vamos fazer como que uma síntese de como devemos colaborar com o Espírito e não mais O extinguir. O Espírito Santo foi infundido nos nossos corações, sobre a Igreja e todo o mundo para realizar a obra de Jesus Cristo. A obra de Jesus vem do Pai, que confiou ao Filho a obra que Ele quer realizar, e o Espírito Santo conhece os desígnios do Pai, conhece a obra do Filho e realiza-a completamente em nós, mas não a pode realizar sem nós.

O Espírito Santo enviado por Jesus vem libertar-nos das mãos dos nossos inimigos. Quais são estes inimigos? O nosso primeiro inimigo é o meu pecado e, juntamente com os pecados, vêm os poderes do mal que me escravizam. Neste caminho apresentam-se muitos outros patrões que me querem dominar; não têm o rosto feio do pecado mas têm frequentemente o rosto do falso profeta, da heresia religiosa e, então, começamos a perder a liberdade que Jesus nos quer dar. Se não estamos unidos ao Senhor, nada podemos fazer.

Uma vez que só pertencemos a Jesus, o Espírito Santo quer criar em nós a personalidade profunda de Jesus, Aquele que vive na relação com o Pai, Aquele que todos os dias é gerado no Pai. E, dentro de mim, o Espírito Santo desenvolve o conhecimento do Pai. Conhecer o mistério do Pai, que é um mistério maior do que o Espírito Santo, é uma coisa muito séria mas o Pai é misericordioso e leva-nos à escola do Espírito, à escola de Jesus, à escola dos santos e, pouco a pouco, o Espírito forma em mim a personalidade de Jesus. É assim que Jesus nos leva à adoração do Pai em espírito e verdade.

O Renovamento Carismático quer renovar o louvor a Deus, ao Pai e ao Filho sob o poder do Espírito Santo. O Espírito Santo quer transformar o coração dos cristãos, quer que a nossa adoração cresça em profundidade para podermos adorar o Pai como os santos e anjos fazem no céu. No capítulo 4 do Apocalipse está bem descrita a adoração do Pai; no capítulo 5, a adoração do Cordeiro. Mas este trono do Pai e do Filho não está só, é gloriosíssimo, imenso, altíssimo, rodeado por miríades de anjos e pelos quatro viventes, com um cântico que se espalha por todo o paraíso. Vede como o nosso Deus não é um Deus solitário, quer fazer-se rodear por todas as suas criaturas, quer viver connosco. O caminho de Deus aprende-se na adoração em espírito e verdade e não nos livros.

PALAVRAS FINAIS

Agradecemos a presença fraterna de D. Serafim Ferreira e Silva, Bispo Emérito de Leiria e Fátima, que faz questão de sempre nos acompanhar nestas assembleias aniversárias. Há anos e anos que nos vem dando prova da sua paternidade espiritual, amizade e dedicação.
Também o nosso agradecimento a D. Joaquim Mendes, Bispo Auxiliar de Lisboa. Foi, durante vários anos, director espiritual do Renovamento Carismático na Diocese do Porto e agora, como o bispo mais jovem em Portugal, o Espírito Santo quer servir-se dele para nos ajudar e acompanhar na nossa caminhada.

Para Deus, que tudo isto quis e permitiu, vão as nossas últimas palavras, que serão também as primeiras.
Senhor Deus nosso Pai, este foi o tempo da nossa festa, da nossa Páscoa que celebrámos contigo. Foram dias em que nos abençoaste imensamente e sabemos que nos vais sempre abençoar pois estamos sob a Tua contínua protecção, tal como a terra está sob a contínua luz do sol. Pai, Te queremos louvar e bendizer por estas duas assembleias Pneumavita; que elas possam dar frutos abundantes nas nossas vidas, nos nossos grupos e nas nossas paróquias. Te louvamos, ó Pai, pela sabedoria com que quiseste instruir-nos nestes dias e pelas coisas novas que fizeste em nós através de Teu Filho Jesus no poder do Espírito Santo.

Quando acendemos um fogo, é preciso preparar a lenha, colocá-la em boa posição, começa a acender-se, o fogo contagia, entra em toda a lenha e começa a arder. A Igreja nasceu por esta pequena lenha que Jesus preparou durante três anos e se inflamou com o fogo descido do céu. Por Teus desígnios, também o Renovamento Carismático Católico começou a incendiar Portugal com o fogo do Espírito Santo há trinta e quatro anos, depois de ter seduzido e incendiado por completo o coração e a vida do Teu sacerdote Pe. José da Lapa e dele ter irradiado para um pequeno grupo que foi crescendo e se tornou em Pneumavita. Por esta grande graça que concedeste à Igreja em Portugal, louvor e glória, honra e bênção, por todos os séculos dos séculos. Ámen.

Isabel Moraes Marques

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