VOCAÇÃO
A última coisa que pensava na minha vida era vir a ser padre!
Isto porque era uma figura que não me atraía muito. Pelo contrário, para mim
o sacerdote era alguém que não tinha sucesso na sua vida e por isso foi para
o seminário.
Tudo começou há seis anos, quando conheci o Movimento Regnum Christi, no qual
me integrei prontamente. Participei no apostolado Juventude Missionária, graças
ao qual fui nas missões ao México, em Agosto de 2004. Mas mesmo antes de encontrar
este Movimento, já no meu coração sentia a necessidade de fazer uma experiência
missionária, para poder ter a possibilidade de fazer algo pelos outros. Deus
tinha semeado no meu coração o desejo de me doar ao próximo: sabem, aquela sensação
muito difícil de explicar, mas que move a vontade diante da necessidade dos
outros, não nos deixando indiferente?
Mas a missão revelou-se verdadeiramente extraordinária! Pela primeira vez, vi
com os meus olhos qual a verdadeira dimensão da palavra pobreza. Quando se tem
contato com a pobreza, não se fica indiferente. É um choque tal que faz estremecer
e pôr em causa todas as certezas. Tanto que, terminada a missão, percebi que
não tinha dado nada, e que só tinha recebido amor, carinho e muito bem. Por
este motivo, quando regressei a casa senti-me confuso. O problema era este:
como podem estas pessoas, extremamente pobres, mostrar felicidade e alegria,
uma alegria tão grande que transborda para os outros, e eu que possuo tudo não
sou feliz? Cheguei então à seguinte conclusão: eles não têm uma felicidade temporal,
mas uma felicidade que só Deus pode dar.
Deste confronto voltei mudado. As minhas certezas e pensamentos sobre a fé eram
outros! Posso dizer que neste contexto se manifestaram, por primeira vez, as
minhas primeiras inquietações. Nada de especial, mas posso garantir que depois
da missão se alteraram muitos dos meus projectos. Comecei a questionar qual o
verdadeiro sentido da vida e das coisas. Logicamente, tudo era novo para mim.
Eu não sabia como enfrentar esta situação. Dentro de mim começava a ver-se uma
estrela, muito longe, mas que estava ali. Era belíssima e atraía-me muito, mas
o meu coração não podia aceitá-la, porque estava cheio de preconceitos. Essa
estrela era a possibilidade de ser chamado à vida missionária e poder assim
entregar-me àquilo para que fui criado, isto é, ajudar e servir o próximo. A
verdade é esta: tudo me levava a uma doação sempre maior. Cada vez fui fazendo
mais voluntariado e cada vez era mais feliz.
Em 2005 fui a Portugal para terminar o curso de arquitetura. Aí encontrei um
clima fantástico, de muita fé e de muito carinho e conheci amigos e padres fantásticos
com os quais pude compartilhar a minha fé num ambiente de festa e também de
oração. Para mim, foram um grande exemplo e ajudaramme muito na minha relação
com Deus, sobretudo nos encontros do Renovamento Carismático na Igreja de Santa
Isabel.
Penso que neste período Jesus continuava a fazer crescer sempre mais, e mais
forte no meu coração, a semente da vocação. Tanto que, em Agosto de 2006, decidi
dar um ano da minha vida para fazer voluntariado no Movimento Regnum Christi.
Mandaram-me para o Brasil e aí vivi numa comunidade religiosa, com padres e
irmãos que tinham mais ou menos a minha idade. Esta experiência despojou-me
de qualquer preconceito que podia ter sobre a vida religiosa. Tive também a
graça de fazer férias com eles e, verdadeiramente, fizemos de tudo, mas sem
nunca exagerar com nada. Eu fiz o que nunca tinha feito antes na minha vida
com os meus amigos: fomos a uma ilha perdida do Atlântico e fiz surf, caiaque,
caminhadas na floresta, mergulho... Todas estas actividades fizeramme valorizar
a vida religiosa. Vi que tudo era normal e, pouco a pouco, todos os meus preconceitos
se foram dissolvendo, pela convivência com santos irmãos, que me trataram muito
bem, como se nos conhecêssemos toda a vida.
Agora, como legionário, entendo por que me trataram deste modo. Resume-se numa
palavra: caridade. Disse para mim mesmo: “Por que não posso eu viver assim por
toda a minha vida?”. Desde essa altura, comecei a pensar seriamente na vocação
e comecei a falar sobre isso com um padre, de quando em quando. Estas conversas
duravam horas. Falava com ele de todos os meus problemas e ele ajudava-me a
resolvê-los. Juntos procurámos conhecer a vontade de Deus para mim. Penso que,
sem este apoio e ajuda fraterna, não teria nunca chegado a discernir qual era
esta vontade que Deus tanto queria na minha vida, porque me teria faltado muita
generosidade; estamos tão cheios de nós mesmos que muitas vezes colocamos os
nossos projectos antes dos projectos e da vontade de Deus.
Pouco a pouco tive coragem de dizer SIM. Um sim contra a corrente e que se pode
considerar uma loucura, mas eu acrescento: valeu a pena! Perguntamo-nos que
coisa pode empurrar um jovem que acaba de terminar o curso de arquitetura, com
claras oportunidades de trabalho neste sector e com um pai proprietário de uma
rede de onze escolas de condução, a viver uma vida religiosa em pobreza, castidade
e obediência? Eu respondo assim: o amor. O amor infinito, que só Deus pode dar.
O amor que eu quero dar a Deus e aos homens.
Pode ser que alguém diga que sou um pouco louco, mas quem escolhe o amor nunca
falha. Cada homem, na própria condição, como leigo ou sacerdote, está chamado
a responder ao Amor e a viver a caridade. No fim da vida seremos julgados não
sobre quanto ganhámos, ou se fomos famosos, ou pelo que fizemos, mas sim pelo
quanto fomos capazes de amar. Eu convido-os a estar atentos para não chegarem
de mãos vazias ao encontro com Deus, para refletirem sobre o verdadeiro sentido
da vida.
Regressei do Brasil com a intenção de fazer o Curso de Discernimento. Foi muito
bom e diverti-me a valer, mas sobretudo, tive a oportunidade de tirar o espinho
do mundo, pôr-me diante de Cristo, cara a cara, e perguntar-Lhe qual sua vontade
para a minha vida. Depois vi a possibilidade da chamada ao sacerdócio e lancei-me.
Agora não trocaria esta vida por aquela de antes, por nada deste mundo... Porquê?
Porque, finalmente, estou plenamente feliz. E sei que o Senhor está feliz comigo.
Fica uma última consideração: dá uma oportunidade a Deus e deixa que Ele fale
ao teu coração. E se escutares o Seu chamamento não te preocupes, porque diante
de ti se está a abrir um horizonte extraordinário. A estrada que Deus pensou
para ti é só uma: descobre-a, vale a pena.
Envio saudações a todos os que lerem esta história. Rezo por todos vós. Se me
quiserem escrever é este o e-mail: salamanca@legionaries.org (Basta enviar para
Ir. Daniel Gasparella). Ou se querem encontrar mais informações, consultem o
site: www.vocacion.org. Muito obrigado!
Ir. Daniel
Gasparella, LC
Dez/2010