A Porta estreita



Eram umas 10 horas de uma noite escura e fria de inverno. Vinha sozinha do lado do Centro Paulo VI em Fátima. Sozinha?...
Acabava de sair do túnel que, pelo lado da Cruz Alta, dá entrada no Santuário. Era aquela entrada sobranceira que permitia ter uma visão global deste conjunto arquitectónico, que afinal ocupa mesmo a Cova de Santa Iria.

Acho que o Senhor me estava a querer mostrar duas coisas nessa noite, eu estava demasiado absorvida na primeira e só o silêncio (bendito silêncio!) me permitiu ver a outra, que é aquela sobre a qual quero escrever...
O que se me deparou à saída do túnel foi a totalidade de um cenário que estava a ter o privilégio de apreciar e que (como sou muito egoísta e convencida) era uma dádiva do céu e só para mim.

Que privilégio o meu, encontrar-me ali no silêncio daquela noite de inverno, tão fria que além de despovoar praticamente o local, ainda cristalizava a atmosfera fazendo parecer que de repente me encontrava noutra dimensão. O silêncio era tão grande, que parecia que nem as estrelas tinham tido ordem de sair à noite (não havia lugar nem sequer para o barulho das luzes).

A segunda coisa que o Senhor me mostrou, e sobre a qual eu estava distraída, foi sobre o muro construído para assinalar o ano do Jubileu de 2000.

O meu júbilo era assim: "Meu Senhor e meu Deus, como sois bom ! Que cenário este!" Ao fundo, à minha frente a Basílica, encimada pela coroa dourada, o negro do céu descoberto de nuvens criando contraste destacava-a de tal forma que (e era esta a minha divagação poética)… parecia que o próprio edifício era Nossa Senhora, que as arcadas eram os seus braços e manto abertos, aqui à frente, para na sua grandeza a todos acolher. Lá em baixo, ao fundo, uma quase mão cheia de gente movia-se em torno da capela das aparições, que é também o sacrário desta enorme basílica a céu aberto, que eu ia começar a atravessar... "Yes ! Lindo..."

Foto: recinto do Santuário


Tinha acabado de passar ao lado da Cruz e percebi que estava exactamente a meio da largura do Santuário. Estava quase a chegar ao muro do jubileu. A partir daí eu contava usufruir daquele momento que era o presente que julgava que o Senhor me estava a oferecer. No meu ponto de vista dizia:
- Sei que Tu estás aí em baixo sobre o pedestal, também dourado, estás de braços abertos, queres-me também acolher e eu vou cortar este Santuário a direito até ao Teu Coração e ao Coração Imaculado de Maria... Grande momento, e ainda vou apreciar a simetria deste local...

O imprevisível aconteceu. De repente, senti um aperto no coração. ???
... e como o silêncio se fazia sentir e ouvir, eu fui capaz de seguir
      - Tu, SEGUE-ME ! ! ! - queria dizer aquele aperto no coração.
      - WHAT ! ? !, então, o que é que se passa, JESUS !!!?!...???

Qual TITANIC que tem de se desviar de um enorme ICEBERGUE, senti que a ordem era mudar de rota.

- PORQUÊ SENHOR? PORQUE É QUE NÂO PODE SER POR AQUI?! IA TUDO TÃO BEM, ESTAVA TUDO TÃO MARAVILHOSAMENTE NO SÍTIO... eu só queria ir até ao Teu Coração, não vês que era perfeito, descer até lá abaixo onde Tu estás de braços abertos?!?

Mas o silêncio à minha volta era inegável e eu estava demasiado agradecida para poder desobedecer. Desta vez não queria entristecer o autor daquele cenário, mesmo que não o pudesse vir a desfrutar...

Lentamente, com alguma tristeza, comecei a levantar os olhos do chão. Interrogava-me para onde é que o Senhor dirigia os meus passos. Afinal era noite, estava frio, e eu estava sozinha. (!!!!????)

- Oh Divina Providência! , pequena prova! , Tu realmente nunca falhas Senhor, nós é que falhamos. Afinal sempre havia uma razão.
Quando levantei os olhos do chão, percebi para onde me dirigia. Foi a segunda coisa que naquela noite o Senhor me mostrou: a primeira, a beleza da Cova de Santa Iria, a segunda ... a porta estreita.

Foto: Muro Muitas vezes de dia, acompanhada, em manhã solarenga, havia entrado no Santuário vinda do Centro Paulo VI e, sempre que passava aquele muro, sentia-me irritada com o arquitecto que tinha concebido semelhante "portento". Irritavam-me aqueles dois pedaços de muro que não tinha percebido se faziam ou não alguma alusão ao muro de Berlim, pois as primeiras inscrições estavam escritas em alemão. Irritava-me, principalmente, porque parecia que estavam ali só para estorvar a entrada a quem quer passar. Assim, quando podia, dirigia-me à outra passagem que, pelo menos, tinha ar de porta.

Afinal era tudo uma questão de escala. A porta larga no muro do jubileu era de facto uma porta estreita para a escala do Santuário. Daí aquela desproporção arquitectónica sempre me ter irritado. Simplesmente sentira que havia algo que me passava ao lado. Não tinha ainda entendido que semelhante desproporção pretendia sinalizar uma PORTA LARGA.

A história que quero contar é esta. Pretendo fazer alusão àquela palavra que diz: "o Espírito Santo fala, nós não sabemos para onde vai, mas ouvimos a sua voz"; fala de como Jesus quis que eu entrasse naquela noite pela porta estreita, que era por esse caminho e não por outro, por mais bonito que pudesse parecer, que se ia ter ao Seu Coração. Por mais que até a Sua imagem estivesse à minha frente, em cima de um pedestal.

Hoje penso que sim, que isso pode acontecer em dias de Domingo solarengos, quando pela escala do local a porta larga é estreita. Mas não naquela noite em que só um punhado de gente se encontrava no Santuário. Nessa noite eu tinha mesmo de passar pela porta pequena, não porque a desproporção da porta maior esteticamente me irritasse, mas porque eu estava a ir ter com o Senhor.

Descodificado o mistério, percebi sobre o que o Senhor me queria falar... que é no silêncio que o podemos encontrar.

O mundo sabe disso e por isso se esforça tanto por fazer toda a espécie de barulho à nossa volta e dentro de nós. Cabe a cada um de nós sabermos retirar-nos para o silêncio, para aprender a ouvir a Sua voz...

Sem silêncio, sem paz à nossa volta e no nosso interior, não é possível acreditar que o caminho que parece mais óbvio, ou que se nos depara mais belo à nossa frente, nem sempre é o caminho mais directo. Sem silêncio não é possível fazer o caminho mais rápido, porque o barulho do mundo desorienta-nos, e depois lá temos de andar nós às voltas e mais voltas, que nem o povo escolhido no deserto, para andar o mesmo que andaríamos a direito e mais depressa, se fôssemos obedientes...

...então percebi!!!

E sorri... .

M.T.

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