De
Roma a Fátima, como peregrino do Espírito
Viagem de regresso
Milão foi a primeira etapa desta peregrinação espiritual e geográfica. No dia 4 de Junho de 1974 visitei um pouco da cidade: vi o quadro mural "a última ceia" de Leonardo Da Vinci e percorri, pormenorizadamente, a majestosa Catedral de Milão "II Duomo". Pelas 18h a Irmã Maria Francesca, das Irmãs do Cenáculo, levou-me à casa da sua Congregação, Via Fratelli Gabba, 7B, onde começava a reunir-se, em oração carismática, o primeiro grupo de Milão. Em Roma a irmã tinha-me pedido para celebrar a Eucaristia para o Grupo. Foi na Capela das Irmãs, em ambiente de Cenáculo, que celebrei a Eucaristia para 15 pessoas: religiosas e leigos(as). Pelo que me disseram, foi a primeira Eucaristia "carismática" em Milão, para o primeiro grupo, que estava a germinar, e através do qual o Renovamento no Espírito Santo se difundiria por toda aquela diocese e região. Após a Eucaristia as irmãs serviram-nos uma refeição fraterna; partilhando a graça deste encontro, recordámos a caminhada feita em Roma na Casa Geral das Franciscanas Missionárias de Maria (Via Giusti 12).

No dia 6 de Junho continuei a viagem, rumo à Suíça, onde passei 8 dias: primeiro em Locarno, em casa de uma família amiga. Depois noutros pontos da Suíça, visitando casas e confrades espiritanos, fazendo paragem maior em Friburgo, onde a Congregação tem uma Universidade Católica-Missionária.
Em todos os lugares da Suíça por onde passei, ninguém sabia da existência de grupos do Renovamento Carismático.
A caminho de Paris
Em
meados de Junho deixei a Suíça, onde as belezas das montanhas
e dos lagos extasiavam o olhar, mas não impediam que o meu interior vivesse
como num deserto. Retomei a viagem, tendo como meta chegar a Paris, desejoso
de encontrar Irmãos e grupos do Renovamento Carismático, que ali
sabia existirem.
Respirei fundo quando, chegado a Paris, fui recebido fraternalmente, pelo Superior
e confrades espiritanos da nossa Casa Mãe, na Rue Lhomond, ali no coração
de Paris, bem perto do Panteão. Na primeira oportunidade, dirigi-me à
Capela da Comunidade e louvei o Senhor por me encontrar naquele lugar, no coração
da Família Espiritana, onde em 2 de Fevereiro de 1852 expirava, durante
o cântico do Magnificat das Vésperas da Apresentação,
o Venerável P.e Francisco Maria Paulo Libermann, judeu convertido e Pai
espiritual dos Espiritanos.
No
dia 16 de Junho, já retemperado da viagem, a minha primeira preocupação
foi dialogar, com alguns confrades, sobre o "Renouveau Charismatique",
providencialmente surgido, após o Vaticano II, na nossa Universidade
do Espírito Santo, em Duquesne, Pittsburg, Estados Unidos, no célebre
Fim de Semana de 17 -19 de Fevereiro de 1967.
Para minha alegria, soube que, na Casa Geral, vários espiritanos estavam
ao par deste acontecimento eclesial e que, em Paris, começavam a germinar
grupos carismáticos. Foi ali, na Casa Mãe, que um confrade me
falou dos grupos de Montparnasse e de Auteuil.
Durante os dias que estive em Paris, além de visitar amigos e lugares históricos desta Cidade da Luz, a minha preocupação maior foi contactar grupos carismáticos, sobretudo os dois atrás referidos. No grupo de Montparnasse, que reunia cerca de 200 pessoas, participei só uma vez. A minha presença não foi notada.
Mas
foi no grupo de Auteuil, muito perto da Obra dos Orfãos de Auteuil, à
qual o P. Daniel Brottier entregou a sua vida, que eu revivi, em família,
a minha experiência de Roma. Na cripta da Igreja, mais de 400 pessoas
se apinhavam e, após um acolhimento caloroso, de uma animação
exuberante, um sacerdote deu as boas vindas, apontou o sentido daquela Assembleia
e, com a invocação ao Espírito Santo, a reunião
decorreu num clima de profundo louvor, intercortado com passagens bíblicas,
ressonâncias e testemunhos interpelantes. Após orações
de intercessão, cantado o Pai Nosso de mãos dadas, o sacerdote
abençoou a assembleia. Um dos servidores convidou todos os que ali estavam
pela primeira vez para um breve encontro, numa sala ao lado. Enquanto a assembleia
saía, envolvida pelas canções alegres do ministério
da música, o servidor, de nome Emmanuel, dirigiu-se aos novos, entre
os quais eu me encontrava, pedindo ressonâncias àquela Assembleia
de oração do "Renouveau Charismatique", respondendo
a algumas perguntas e anotando a identificação deste pequeno grupo
de "novos", cerca de 20 irmãos e irmãs. Como os outros,
também eu me apresentei, dizendo quem era, donde vinha e para onde ia.
Logo ali, o irmão Emmanuel me perguntou se pensava voltar na próxima
semana. Quando lhe disse que sim, convidou-me para nessa altura ir rezar com
os servos da coordenação, para depois, na Assembleia, dar o testemunho
da minha experiência em Roma.
Foi o que aconteceu na semana seguinte. O irmão Emmanuel apresentou-me
e, depois do louvor inicial, após um breve ensinamento sobre as origens
do "Renouveau Charismatique", dei, com simplicidade e alegria, o meu
breve testemunho, no grupo Hossana, de língua francesa, em Roma.
Ao terminar a reunião, com cumprimentos, troca de endereços, promessas de oração, senti que fortes laços de união iam ligar este grupo de Auteuil ao Renovamento Carismático em Portugal. E isto aconteceu, já que entre estes irmãos se encontravam alguns que sonhavam com a formação da Comunidade Emmanuel, através da qual vários irmãos, alguns anos depois, vieram a Portugal e nos receberam nos grandes Encontros Carismáticos de Paray le Monial.
Viagem para Madrid...
Quase ao terminar o mês de Junho, depois destes maravilhosos encontros em Paris, continuei viagem até Madrid. Hospedado na Casa Provincial dos Espiritanos, no dia 2 de Julho, os meus confrades levaram-me ao Centro de Retiros de Los Molinos, onde, durante o mês de Julho, com mais de 50 pessoas (sacerdotes, religiosos/as e leigos) participei num curso especializado do movimento "Por um Mundo Melhor".
Durante este mês de Julho de 1974 perguntei, durante o curso, se alguém conhecia, em Madrid ou em Espanha, grupos de "la Renovacion Carismática Católica". Ninguém conhecia nem tinham ouvido falar...
Lisboa, 24 de Março de 2002
P.
José da Lapa
Missionário do Espírito Santo