O RENOVAMENTO CARISMÁTICO CATÓLICO EM LISBOA



 


Segunda reunião de porta aberta na Casa dos Missionários do Espírito Santo (à Estrela)

Desde o dia 5 de Janeiro (Epifania de 1975) até ao dia 2 de Fevereiro, o pequeno grupo ("grupo do coração" como alguém lhe chamou) continuou a reunir semanalmente, às Terças-Feiras à noite, na casa dos Espiritanos. Todo o grupo sentiu, em profunda sintonia, que poderiamos convidar para este pequeno "núcleo", a Irmã Rosa Brun, das Oblatas do Sagrado Coração de Jesus que, como disse, em Julho de 1974, havia feito, com sua irmã Maria de Jesus Brun, uma experiência carismática em Tours, França. Ela aceitou. Uma Terça-Feira, à noite, em 21 de Janeiro, este pequeno grupo, a pedido da Superiora, Irmã Maria José, deslocou-se ao Colégio das Oblatas, na Rua das Praças 17, para participar numa Eucaristia a que eu presidi.

Senti que as irmãs da Comunidade estavam muito abertas à oração carismática, fruto do testemunho e dinâmica carismática que a Irmã Rosa e algumas irmãs francesas imprimiam à vida orante da Comunidade. Foi a primeira comunidade religiosa a abrir-se e a renovar-se, em Portugal, através do Renovamento Carismático. Com frequência o nosso pequeno grupo ia ao Colégio do Sagrado Coração de Jesus para rezarmos em conjunto. Foi deste modo, inesperado, que as Irmãs Oblatas abriram as portas para as actividades que ali se realizariam: Seminários de Vida Nova no Espírito, Encontros de Jovens, Retiros, Festas do aniversário do Renovamento Carismático em Lisboa que coincidem sempre com o aniversário do grupo/Comunidade Pneumavita. Várias vezes o Senhor D. Albino Cleto, então Bispo auxiliar de Lisboa, participou e viveu connosco estas celebrações no grande ginásio do colégio.


Reunião/Assembleia do dia 2 de Fevereiro de 1975

Conforme a deliberação do dia 5 de Janeiro, sem telefonemas, nem circulares, a 2ª reunião, de porta aberta, realizou-se no Salão de Cima, na Casa Espiritana da Estrela, no dia 2 de Fevereiro, Domingo. Era a festa da Apresentação e também data comemorativa da morte do Venerável Padre François Libermann, um dos fundadores da Congregação do Espírito Santo. O Salão, totalmente aberto, estava lindamente decorado com paineis: do Espírito Santo, de Nossa Senhora e de Libermann. O Altar, quase ao fundo, envolvido com artísticos arranjos de flores convidava, como centro de convergência, a comunidade que ali ia reunir, ao louvor, à escuta da Palavra e à participação na Ceia Eucarística. Para que o salão se transformasse nun cenáculo assim tão belo, muito contribuiram as pessoas do Núcleo e, de modo particular, a Irmã Maria de Lourdes, das Irmãs Doroteias a quem o Senhor concedera, de modo extraordinário os dons da oração, humildade, simplicidade e arte da decoração. A Irmã Maria de Lourdes, com uma criatividade invulgar, transformava em jardins de beleza os lugares da Casa onde a Comunidade e Assembleia reuniam em oração. Soube das nossas reuniões, veio, apaixonou-se pelo Renovamento e, desde esta data até à sua morte, em Julho de 1988, foi duma fidelidade e dedicação impressionantes. A Irmã Maria de Lourdes e o dr. Manuel Rodrigues Teixeira (este veio a falecer em Julho de 1987) foram duas colunas de que o Espírito Santo se quis servir para formar e sustentar a Comunidade Pneumavita.

Com o Salão preparado, abriram-se as portas. As pessoas apinhavam-se junto da portaria. Com a oferta de uma vela, a equipa de acolhimento recebia as pessoas, com indizível alegria, orientando-as para o lugar de antemão preparado para esta tarde festiva. Na reunião de Janeiro participaram cerca de 120 pessoas. Neste dia 2 de Fevereiro, pelas 15.30h já se encontravam na sala mais 200 pessoas: alguns sacerdotes, religiosas de várias congregações, de modo particular Irmãs Oblatas e Servas de Nª Sª de Fátima, seminaristas, um bom grupo de jovens e outras pessoas.

Das 15.30h até às 16.00h vários cânticos carismáticos eram ensaiados e cantados com alegria, criando clima para a vivência litúrgica desta festa. De novo, atendendo a muitas pessoas que vinham pela primeira vez, dei umas pinceladas rápidas sobre o Renovamento Carismático Católico: história, natureza, coordenadas fundamentais.

A Irmã Maria Gonçalves, S.N.S.F. veio de Fátima com um pequeno grupo para participar, colaborar e testemunhar.

Pelas 16.30h iniciou-se a celebração litúrgica, neste Dia da Luz, com a benção das velas. O salão transformou-se num jardim de flores e de luz. Era a festa das "candeias". Seguiu-se a celebração da Palavra e a seguir à homilia, como é costume no Renovamento Carismático, em Assembleias de Louvor, a Palavra de Deus foi rezada, adorada e partilhada pelos sacerdotes e algumas pessoas da assembleia. Como no dia 5 de Janeiro, neste dia com maior intensidade, gerou-se um clima de paz, de alegria, de luz interior e de amor fraterno. Sendo muitos sentiamos que eramos um só corpo, com uma só alma e um só coração. Cristo, Palavra de Deus e Pão Eucarístico, pela orça do Espírito Santo manifestava a Sua presença real-sacramental. Este Cenáculo, sem o sabermos, iria tornar-se o ninho do Renovamento Carismático Católico em Portugal.

Depois da acção de graças, como presidente da Assembleia, pedi para que as pessoas que se sentissem interpeladas dessem o seu testemunho. Muitos irmãos e irmãs se levantaram e testemunharam com muita fé e alegria:

"A paz que me inunda não a posso descrever. Em mim e entre nós aconteceu pentecostes"; "A presença viva de Jesus em nós e entre nós é uma graça extraordinária que eu nunca tinha experimentado..."; "Sinto que esta tarde de cenáculo vai marcar profundamente a minha vida"; "A luz de Cristo glorioso dissipou muitas trevas que me envolviam..."; O Espírito Santo invadiu-me e sinto-me criatura nova..."; "Sinto que Jesus quer fazer de nós missionários para espalhar esta luz e este fogo que arde dentro de mim..."; "Peço a Deus que estas reuniões continuem e os grupos carismáticos se espalhem em Portugal. Isto é um novo pentecostes..."

E os testemunhos continuariam indefenidamente. As horas do relógio diziam que era necessário partir. Eram quase 18.30h.
A seguir a estes testemunhos espontâneos louvàmos o Senhor, cantàmos com alegria. A próxima reunião foi marcada para o dia 2 de Março, aqui à mesma hora. A assembleia terminou e cada um/a partiu levando no coração uma faúlha deste fogo novo que Cristo trouxe à terra e que só deseja que ele se propague... Após esta 2ª reunião de porta aberta, impressionado (quase assustado) por esta maré que, inesperadamente, aumentava, como quem está numa encruzilhada sem saber que rumo seguir, em oração eu perguntei a Jesus: "Senhor, que queres que eu faça?... Senhor, mostra-me o caminho que devo seguir...". E, no fundo do coração, eu sentia uma voz interior que me dizia, suave e fortemente: "informa, conta ao teu Bispo o que viveste em Roma e o que está a acontecer em Fátima e em Lisboa."

Carta ao Senhor Cardeal Patriarca

Com data de 4 de Fevereiro de 1975, escrevi uma carta ao Senhor D. António Ribeiro, Cardeal Patriarca de Lisboa. Era meu desejo nada fazer contra ou à margem do meu Bispo. Nesta carta eu partilhei, de modo sucinto, a minha experiência em Roma no Renovamento Carismático Católico. Relatei como o Renovamento se iniciou em Fátima, com a aprovação do Senhor D. Alberto Cosme de amaral, Bispo de Leiria, em Novembro de 1974. Informei depois, como estava a rezar com um pequeno grupo de amigos, à porta fechada, na casa Espiritana da Estrela, desde o mês de Outubro de 1974. Mais pormenorizadamente informei também o Senhor Patriarca do grande número de pessoas que compareceram nos dois domingos em que abrimos a porta: no dia de Epifania, 5 de janeiro (120 pessoas) e no primeiro domingo de Fevereiro (mais de 200 pessoas). Disse que não ousava prosseguir sem a orientação pastoral do meu Bispo.

A carta, enviada no dia 4 de Janeiro, teve resposta imediata, através de um telefonema do Secretário, marcando-me uma audiência especial com o Senhor Patriarca para o dia 6 pelas 18.00h.

Esta audiência particular foi uma graça extraorodinária não só para mim como para o Renovamento Carismático Católico.


P.e José da Lapa
Missionário do Espírito Santo


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