(continuação)
"Mas eu confio em ti, Senhor, e digo: Tu és o meu Deus. O meu destino está
nas tuas mãos" (Sl 31, 15-16a)
Enquanto guiava de regresso a Philipsburg e durante os meses que se seguiram,
David não conseguiu deixar de pensar nos rapazes e raparigas com os quais se
tinha cruzado em Nova Iorque e cujas vidas o Senhor tinha entrelaçado na sua
de um modo tão especial. Apesar de se entregar devotadamente à família e aos
trabalhos da paróquia, começou a despontar nele a ideia de se mudar para Nova
Iorque, juntamente com a mulher e os três filhos de tenra idade, para se dedicar
a tempo inteiro àqueles jovens da rua. Mas seria de Deus essa vontade de ir
para Nova Iorque? A resposta clara e definitiva não veio de imediato mas sim
passo a passo.
"Filho de homem, contempla com os teus olhos e escuta com os teus ouvidos"
(Ez 40, 4a)
O passo inicial foi o Senhor propiciar mais uma ida a Nova Iorque, tendo David
começado por visitar a rua de Fort Greene onde decorrera aquela sua primeira
reunião, à sombra da bandeira americana. David estava precisamente
a reviver esta cena quando ouviu que o chamavam: eram Dito e Simão, agora
dois garbosos soldados que orgulhosamente o cumprimentaram fazendo a continência.
Entrar para a vida militar era, então, uma espécie de apogeu para
a maioria dos rapazes, especialmente os dos bairros degradados, uma vez que
as exigências do Exército eram bastante rigorosas.
Dito e Simão contaram a David que tinham abandonado a quadrilha (lembramos que eles eram, respectivamente, o presidente e o vice-presidente de "Os Capelães", a quadrilha de jovens negros mais perigosa de Nova Iorque) logo após aquele primeiro encontro na rua e que a quadrilha se tinha dissolvido quase a seguir porque já ninguém queria brigar.
Mais adiante, David encontrou um rapaz que pensou reconhecer e perguntou-lhe se sabia do paradeiro de Israel e de Nico, o presidente e o vice-presidente da quadrilha "Os Mau Mau". O rapaz respondeu com desdém: "Quem? Aqueles arruaceiros que se tornaram santos? O Nico endoideceu. Vai ser um desses pregadores malucos." Nada poderia ter agradado mais a David.
Uns prédios à frente, David acabou por encontrar Nico, sentado nos degraus do passeio. Uma fisionomia simpática e acolhedora tinha substituído o olhar duro e rebelde de antigamente. Cheio de alegria, veio ao encontro de David e confessou-lhe o seu enorme desejo de ser pregador, mas não sabia por onde começar. David tinha sido convidado para ir, dali a alguns dias, à igreja de Elmira, em Nova Iorque, falar sobre os problemas dos jovens delinquentes nas grandes cidades, pelo que logo convidou Nico a ir com ele dar o seu testemunho.
"Vou curar as tuas chagas e sarar as tuas feridas - oráculo do Senhor" (Jr 30, 17)
Em Elmira, Nico fez uma descrição arrepiante da sua vida de criança numa família porto-riquenha, numerosa e muito pobre, que vivia numa só divisão e subsistia dando consultas de espiritismo; de como frequentemente mudavam de casa devido a confusões com a polícia; do enorme ódio que sentia por todas as pessoas fracas ou feridas (crianças, velhos, aleijados e cegos) a ponto de as atacar brutalmente, e da sensação de ferocidade e de loucura que sentia cada vez que via sangue; da sua entrada para vice-presidente de "Os Mau-Mau", onde se tinha especializado a matar e a esfaquear, isto é, cortar sem matar, tendo estado na cadeia por onze vezes; e também contou daquela luta de morte com outra quadrilha, durante a qual lhe tinham apertado o pescoço com um cinto de couro e com tal violência que ficara com um grande defeito na fala. Seguidamente, Nico falou no seu primeiro encontro com David naquele dia em que este pregara aos jovens sob a protecção da bandeira americana, de como as palavras que ouviu o fizeram desistir do próximo ataque a uma quadrilha inimiga e, depois, contou o que lhe tinha acontecido na grande concentração de jovens delinquentes que tinha decorrido no estádio de S. Nicolau. Aqui, ouvira David dizer que o Espírito Santo podia entrar nas pessoas e purificá-las, fazendo com que começassem uma vida nova. E ele precisava disto: uma total transformação de vida, embora tivesse a certeza que já não havia remédio para a sua vida cheia de ódio e de maldade. Convidado pelo pregador, ajoelhou-se e, ali no estádio, fez a primeira oração da sua vida: "Querido Deus, sou o pecador mais sujo de Nova Iorque. Acho que o Senhor não me vai querer mas, se quiser, aqui estou. Assim como fui ruim, agora quero ser bom para Jesus." A partir deste momento, confessou Nico, toda a sua vida se transformou. Regressou a casa com a Bíblia que recebera de oferta e, pela primeira vez, não sentiu medo nem se sentiu sozinho. Picou em pedaços a droga que tinha no bolso e atirou-a pela janela fora. Começou a tratar bem as crianças que se aproximavam e a não responder aos ataques verbais e físicos de que era alvo. Contou que chegara mesmo a ser ferido com um punhal e, ao ver o sangue que lhe corria da mão, logo lhe tinham vindo à memória algumas palavras que lera na Bíblia: "O sangue de Jesus nos purifica de todo o pecado". Então, amarrara a mão com um bocado da camisa e, a partir daquele momento, acabou-se a loucura que sentia sempre que via sangue.
Nico tinha começado a contar a sua história com uma voz rouca e esforçada mas, à medida que prosseguia, os sons foram sendo pronunciados cada vez com menos esforço, tornando-se mais nítidos e, no final, a sua fala era completamente normal. Quando o próprio Nico teve consciência de que estava curado, começou a tremer e, incapaz de continuar a falar, deixou que as lágrimas lhe rolassem pela face.
Pouco tempo depois, entrou para um instituto onde começou a estudar para ser pastor. Para o mesmo instituto entrou também Angelo Morales, antigo membro da quadrilha "Os Dragões", a que pertenciam aqueles sete rapazes acusados do homicídio de um jovem deficiente e cujo julgamento fora noticiado na revista"Life". Havia decorrido um ano e meio desde aquela noite em que o Rev. David, ao folhear a revista, fora atraído pelo desenho que os retratava frente ao juíz, num tribunal de Nova Iorque.
"Que o Deus da esperança vos cumule de toda a alegria e paz na vossa fé, a fim de que pela acção do Espírito Santo a vossa esperança transborde"(Rom 15, 13)
Sentado na cadeira de couro do seu escritório na casa paroquial em Philipsburg, David pensava com satisfação nos acontecimentos dos últimos meses. Ao mesmo tempo, no entanto, sentia uma enorme preocupação em relação àqueles jovens recém convertidos que recaíam na droga e na violência. Como poderia ele evitar tais situações a tantos quilómetros de distância? Dia e noite rezava por eles, tentanto descobrir o que poderia ter sido feito, ou ainda fazer, de maneira diferente. E o Espírito Santo veio dar-lhe a resposta: os recém convertidos tinham de ser acompanhados de perto, não podiam ser abandonados. David começou de novo a sentir que alguma coisa estava para acontecer na sua vida. Aguardou serenamente. E aconteceu. Foi mais um passo no plano do Senhor.
"O meu alimento é fazer a vontade daquele que me enviou e consumar a sua obra"(Jo 4, 34b)
Era uma quarta-feira quente de Agosto, noite de oração. No púlpito, David começou a tremer duma maneira que já conhecia: era o Espírito Santo que descia sobre si. Terminado o culto, sentiu-se empurrado para o meio de uma plantação de cereal que havia atrás da igreja. A lua brilhava com uma luminosidade fora do comum e uma brisa suave fazia balançar as hastes do trigo. De repente , o pregador ouviu-se a repetir as palavras do evangelista João: "Eu, porém, vos digo: erguei os vossos olhos e vede os campos que estão doirados para a ceifa. Já o ceifeiro recebe o seu salário e recolhe o fruto em ordem à vida eterna, de modo que se alegram ao mesmo tempo aquele que semeia e o que ceifa. Nisto, porém, é verdadeiro o ditado: um é o que semeia e outro o que ceifa. Porque eu enviei-vos a ceifar o que não trabalhastes e vós ficastes com o proveito da sua fadiga" (Jo 4, 35b- 38).
David começou a pensar que cada haste de trigo era um jovem das ruas de Nova Iorque, ansioso por começar uma vida nova. Olhou para a igreja e para a casa paroquial, onde a sua família vivia em paz e segurança, mas logo uma voz dentro de si lhe disse: "A igreja não é mais tua. Tens de partir." Mansamente David respondeu: "Sim, Senhor. Eu irei."
"Esforçamo-nos por agradar ao Senhor, quer permaneçamos em nossa mansão, quer a deixemos" (2 Cor 5, 9)
Voltou para casa, onde a mulher, Gwen, o recebeu com estas palavras: "David, não precisas de me contar nada. Eu também ouvi a voz. Vamos partir, não vamos?
No domingo seguinte era o quinto aniversário da sua permanência em Philipsburg, cinco anos maravilhosos em que haviam recebido contínuas provas de amizade por parte dos paroquianos. Do púlpito, o pregador contou-lhes a experiência por ele vivida no campo de trigo, assim como a surpreendente experiência que Gwen vivera ao mesmo tempo, dentro de casa. Disse-lhes que não tinha a menor dúvida de que era a voz do Senhor e que iriam obedecer: deixar Philipsburgh rapidamente. O destino provavelmente seria Nova Iorque mas ainda não tinham a certeza.
Naquela mesma tarde, David recebeu um telefonema de um pastor da Flórida, convidando-o para coordenar uma série de reuniões num retiro a realizar-se de imediato. Logo a seguir, outro telefonema e mais outro e outro, de modo que, no final daquele domingo, David estava ocupado com reuniões em diversos lugares nos Estados Unidos para as próximas doze semanas.
Embalaram os haveres, Gwen e os filhos foram provisoriamente para casa dos sogros em Pittsburgh e David partiu para os seus compromissos. Mas a ideia da grande cidade congestionada de sofrimento continuava a atraí-lo.
Numa reunião de pastores em Nova Jersey, foi lida uma carta das entidades policiais que incitavam as igrejas a tomar uma atitude mais activa nas questões relativas aos jovens. Um pastor falou sobre o trabalho que David desenvolvera junto das quadrilhas de Nova Iorque e David falou sobre a continuidade que agora poderia dar a esse trabalho. Logo ali nasceu um novo ministério, a que foi dado o nome de "Evangelismo Jovem", e cujo principal propósito era levar aos jovens a mensagem do amor de Deus. Seria necessário manter um escritório, arranjar algum pessoal e, no mínimo, vinte mil dólares no primeiro ano para pagar, entre outras, as despesas de arrendamento, salários e impressos. David, escolhido para director do projecto devido à sua experiência anterior, aceitou. Sabia que, tal como o outro David, também ele iria enfrentar o Golias apenas com uma funda, mas tinha a certeza de que Deus estava do seu lado e o Espírito Santo o faria permanecer firme nos propósitos e na fé.
(continua)
Isabel Moraes Marques