(continuação)
"Depois disto, derramarei o meu Espírito sobre toda a humanidade. Os vossos filhos e as vossas filhas profetizarão, os vossos anciãos terão sonhos e os vossos jovens terão visões" (Jl 3, 1)
David continuava a querer encontrar-se com os sete rapazes que estavam a ser julgados mas todos os seus esforços foram em vão. Desalentado, elevou aos céus uma prece bem específica: "Senhor, sabes que estou aqui por Tua conta. Cheguei ao fim das minhas humildes ideias; já não sei o que fazer. Se realmente há trabalho para mim neste lugar, diz-me qual é". E iniciou uma longa caminhada pelas ruas de Nova Iorque que durou quatro meses. Aproveitando o seu dia de folga, David passou a ir a Nova Iorque uma vez por semana. Atravessava a ponte de Brooklyn e passava o tempo a percorrer os locais mais brutais e violentos da cidade, onde a própria polícia tinha dificuldade em intervir: guetos de negros e de porto-riquenhos que viviam da prostituição e do tráfico de droga, quadrilhas de adultos mas, sobretudo, de adolescentes que dominavam cada esquina e que cultivavam a violência em razão da própria violência. Desenvolvendo métodos de ataque brutais, usavam facas e pistolas com grande destreza e os assassinatos eram constantes.
Nestes bairros, David visitou as esquadras da polícia, conversou com assistentes sociais, ouviu oficiais de justiça, passou muitas horas na biblioteca pública, e a impressão global que teve foi tão estonteante que quase abandonou tudo. Neste preciso instante o Espírito Santo, com toda a suavidade mas muito claramente, manifestou-se, fixando no seu coração uma ideia bem forte: estes jovens tinham que começar de novo, com a personalidade inocente de um recém nascido; tinham que ser cercados de amor e não de ódio, tinham que ter esperança e não medo. Ao mesmo tempo, David teve a visão de uma casa muito bonita, onde havia uma cozinha espaçosa e muitas camas e cuja porta estaria sempre aberta.
Profundamente tocado, David exclamou em voz alta: "Senhor, que sonho maravilhoso! Mas quantos milagres serão necessários para a sua realização!"
"Mãos à obra pois eu estou convosco! Segundo a aliança que fiz convosco quando saístes do Egipto, o meu Espírito permanece no meio de vós. Não temais." (Ag 2, 4b-5)
Dois sentimentos antagónicos animavam o estado de espírito de David: por um lado, sentia-se cheio de ânimo para concretizar o seu sonho; por outro, sentia-se inexperiente, fraco e incapaz de combater aquele inimigo poderoso que agia na grande cidade, um inimigo que apresentava promessas de segurança e de felicidade àquelas franjas juvenis, solitárias e sedentas de amor, oriundas de famílias de desempregados que viviam nas favelas, dando-lhes personalidades insensíveis e ferozes e fazendo-os sentir orgulhosos de serem assim.
Em oração, as palavras do Senhor a Zacarias e as de Jesus a Nicodemos vieram responder às suas angústias: "Não é nem pelo poder nem pela força, mas pelo meu Espírito (Zc 4, 6b) e "Quem não nascer da água e do Espírito não pode entrar no reino de Deus" (Jo, 5b). David pensou, então, que talvez houvesse um estranho paradoxo na sua falta de força, pois era nesta sua fraqueza que estava o poder, poder que não dependia de si próprio mas única e exclusivamente do Senhor, que faria o que ele não era capaz de fazer: aqueles adolescentes tinham de experimentar uma transformação dramática vivida no coração e esta transformação só poderia ser obra do Espírito Santo; David seria apenas o canal através do qual o Espírito iria actuar. Definitivamente, estava chegada a altura de tudo entregar ao Espírito de Deus.
"Pois Deus não nos deu um Espírito de temor, mas um Espírito de fortaleza, de amor e de autodomínio"(2Tim 1, 7)
O "Projecto Fort Greene", em Brooklyn, era uma selva fervilhante de tijolos e de vidro onde habitavam mais de trinta mil pessoas, a maioria das quais negros e porto-riquenhos sem emprego. Os jovens desta zona estavam divididos em duas quadrilhas, precisamente as mais perigosas de Nova Iorque: "Os Capelães" (negros) e "Os Mau-Mau" (porto-riquenhos). Em guerra aberta com a polícia, usavam métodos de ataque e de combate extremamente violentos. Por isso, David achou que este era o melhor sítio para testar o Espírito Santo.
Uma sexta-feira de manhã cedo, David para lá se dirigiu com Jimmy Stahl, um amigo que tocava muito bem trompete. Com o intuito de juntar um grupo de adolescentes, Jimmy começou a tocar um hino religioso, foi repetindo o mesmo hino cheio de entusiasmo, as janelas começaram a abrir-se e dezenas de crianças e de adolescentes foram-se aproximando, aos empurrões e gritando vaias. David rezou, subiu para um poste e tentou falar-lhes mas logo apareceu um piquete da polícia. Fazendo uso dos cassetetes, ordenaram aos jovens que dispersassem e a David que fosse pregar para outro lado porque aquele já lhes dava bastante trabalho. Perante os protestos dos jovens, que gritavam que impedir de pregar era contra a constituição, a polícia empurrou o pregador e o amigo para o carro e levou-os para a esquadra. Aqui, David teve autorização para pregar mas sob a bandeira americana. E assim fez. De novo ele era, aos olhos dos jovens, o herói que tinha enfrentado as forças policiais.
No entanto, a sua popularidade em nada alterou o comportamento daquela assistência insolente: uns drogavam-se ali às claras, outros batiam palmas a pares de jovens em atitudes sensuais e provocatórias e outros ainda trocavam obscenidades. David entregou a Deus o enorme desespero que o invadia: "Senhor, não consigo sequer que me prestrem atenção. Se queres realizar aqui a Tua obra, rogo-te que faças com que me ouçam". E a mudança começou ainda ele não tinha acabado de rezar. O ambiente acalmou, alguns rapazes tiraram o chapéu e baixaram a cabeça e todos se foram acomodando. Tomando como base um texto do Evangelho de S. João (Jo 3, 16), David falou-lhes sobre quanto Deus os conhecia e amava e disse-lhes que ia pedir um milagre para que as suas vidas fossem totalmente transformadas. O silêncio aumentou tanto que se podia ouvir o drapejar da bandeira sob a acção da brisa suave.
David voltou a rezar, pedindo ao Espírito Santo que realizasse ali a Sua obra, e incitou o presidente e o vice-presidente de cada uma das quadrilhas a virem falar com ele: "Se vocês são tão fortes e valentes como apregoam, decerto não terão medo de cumprimentar um pregador magrizela". Dito e Simão, respectivamente presidente e vice-presidente dos "Capelães", apresentaram-se, o pregador afastou-se com eles da multidão e, com o coração a bater desordenadamente, disse-lhes que queria que eles se ajoelhassem ali na rua e, com ele, pedissem ao Espírito Santo que entrasse nas suas vidas e as renovasse. Perante os olhos estarrecidos de David, aqueles dois chefes da uma das mais temíveis quadrilhas de Nova Iorque ajoelharam-se e os seus cabos de guerra fizeram o mesmo. Após um profundo momento de oração, levantaram-se e, em silêncio, partiram.
Logo a multidão começou a clamar por Israel e Nico, presidente e vice-presidente dos "Mau-Mau". Os dois rapazes vieram à frente mas apenas Israel cumprimentou o pregador. Nico, pelo contrário, deu-lhe um empurrão e disse-lhe que o matava se se aproximasse dele. David respondeu-lhe com palavras de amor: "Gosto muito de ti". Pela primeira vez na vida, Nico ouvia alguém dizer que gostava dele.
"Purificai-vos do velho fermento, para serdes nova massa"(1Cor 5, 7)
Foi programada para a segunda semana de Julho uma concentração de adolescentes num recinto desportivo, onde David teria oportunidade de falar com várias quadrilhas ao mesmo tempo. Apareceu um advogado que se ofereceu para pagar o aluguer das instalações, juntou-se um grande grupo de voluntários para os vários serviços necessários e David ficou responsável por motivar os jovens. Assim, andou por dezenas de ruas, falou com centenas de rapazes e raparigas mas em todo o lado encontrou uma enorme resistência. Para eles, viajar para fora dos seus domínios era uma aventura enorme e cheia de perigos. Mas, acima de tudo, tinham medo que alguma coisa no culto os fizesse chorar: chorar era sinal de fraqueza e de infantilidade num mundo sem piedade onde só os mais fortes sobreviviam. Para o transporte dos jovens através dos "territórios inimigos" organizou-se, então, um sistema de autocarros especiais que íam buscar cada quadrilha ao seu próprio território e as punham directamente no estádio.
Nos primeiros dias da campanha, o desânimo dos organizadores foi crescendo e David voltou a pedir insistentemente ao Senhor que lhe mostrasse a Sua vontade. A resposta veio através de um encontro que teve com Jo-Jo, o presidente de uma das maiores quadrilhas da cidade, "Os Dragões de Coney Island". Oriundo de uma família de desempregados com dez filhos, onde a comida não dava para todos, Jo-Jo tinha sido posto fora de casa, vivia na rua e vestia e calçava roupa suja e muito usada. Manifestando um notável discernimento, este sem-abrigo, que se fazia duro e insensível, levou David a compreender que, até então e apesar de todos os seus esforços, não tinha estado a levar o Espírito Santo às quadrilhas: tinha-lhes estado a levar a sua própria pessoa, David Wilkerson.
"Não pelo poder, nem pela violência, mas sim pelo meu Espírito - oráculo do Senhor" (Zac 4, 6b)
A campanha estava a chegar ao fim e "Os Mau-Mau" nunca tinham comparecido, apesar de David ter ido pessoalmente convidar toda a quadrilha, assegurando-lhes um autocarro só para eles e também os lugares da frente no estádio. O pregador sabia que a causa desta ausência era o Nico.
Na última noite da campanha, chegou finalmente o autocarro com "Os Mau-Mau". Cerca de cinquenta jovens saíram aos gritos, exalando rancor e violência. Enquanto se encaminhavam para o recinto, foram atirando fora garrafas de vinho vazias e provocando as raparigas que encontravam. Naquela noite, o estádio parecia um local onde se concentravam todos os ressentimentos e raivas não contidas. Sempre que David citava palavras de Jesus e falava de amor, o barulho aumentava e apareciam navalhas e pistolas nas mãos de muitos jovens, ao mesmo tempo que abriam as camisas e mostravam cicatrizes de cortes e de balas. Após uma pregação de cerca de vinte minutos, David parou e, rendido, entregou a reunião ao Senhor:"Senhor, envia o Teu Espírito e toca o coração destes jovens. Manifesta a Tua presença, Senhor, e que se faça apenas a Tua vontade". A turba barulhenta foi acalmando, o silêncio foi passando de banco para banco e ouviu-se o som de alguém que chorava. Era Israel. E logo a seguir Nico. David ergueu a voz e disse: "Já todos sentiram que Jesus está aqui presente. E está aqui especialmente por vossa causa. Se alguém quiser ter uma vida nova, levante-se e venha para a frente. Israel não hesitou, Nico também não, e todos os "Mau-Mau" acompanharam os seus chefes. Atrás deles, mais de trinta rapazes de outras quadrilhas. E também raparigas, as mesmas que, ali no estádio e momentos antes, abriam os vestidos e expunham o seu corpo.
A conversão mais dramática foi a de Nico. Com um sorriso enorme, um brilho novo nos olhos e a voz embargada, gaguejou: "David, entreguei o meu coração a Deus."
Todos os que tinham vindo à frente receberam uma bíblia; havia dois tamanhos mas nenhum quis o formato de bolso. Passaram quase toda a noite a ler e ficaram encantados, sobretudo com as histórias do Antigo Testamento.
No dia seguinte logo de manhã, David foi chamado ao telefone. Era o tenente da polícia, pedindo-lhe que fosse imediatamente à esquadra. Perante os elementos do destacamento policial e de toda a quadrilha dos "Mau-Mau", o tenente estendeu a mão a David e disse-lhe: "Reverendo, como é que conseguiu este milagre? Há meses atrás, estes rapazes declararam-nos guerra aberta e hoje vieram aqui porque querem o nosso autógrafo nas suas bíblias!"
Israel adiantou-se e, espelhando felicidade, dirigiu-se ao pregador: "David, eu estou na bíblia. O meu nome está aqui em todo o lado."
(continua)
Isabel Moraes Marques