Seminário de Vida Nova no Espírito
Para a História do Renovamento Carismático em Portugal
ROMA - 1974
No dia 24 de Fevereiro, com mais
50 neófitos, iniciei esta caminhada de 7 semanas, no meio da qual se celebrou
para todos a cerimónia da "Efusão
(Baptismo) do Espírito", coração do Renovamento Carismático.
As sessões realizavam-se aos
Domingos, das 17h às 21h e compreendiam: Acolhimento, Oração, Ensinamentos
(Amor de Deus, Conversão, Vida Nova no Espírito, Recebendo o Dom de Deus,
Carismas, Efusão do Espírito, Comunidade, Transformação...). Vários destes
ensinamentos foram ministrados por professores da Gregoriana. A seguir ao
ensinamento realizava-se uma reunião em pequenos grupos, coordenados por irmãos
e irmãs com maior experiência carismática. Esta reunião servia para
partilhar e sublinhar alguns aspectos de ensinamento e para um tempo de
perguntas e respostas.
O meu grupo (Espiríto de Vida),
composto por 7 neófitos, era coordenado por uma Senhora dos seus 60 anos,
chamada Thérese Dupuy, mulher de profunda vida carismática. Quando ela
perguntou se alguém tinha alguma dificuldade ou queria fazer perguntas, eu
levantei o braço e disse:
- Eu gostei muito do ensinamento
sobre o Amor de Deus mas não
compreendo, nem acredito nisto a que chamam dom de línguas!...
Madame Thérese fitou-me e
disse-me, com muita simplicidade e delicadeza:
- P.e
José. Certamente conhece o capítulo 12 da I Carta de S. Paulo
aos Coríntios. Aí S. Paulo fala dos vários carismas que os primeiros cristãos
usavam como ferramentas para edificar a comunidade.
E, respondendo-me com um
argumento "ad hominem" que eu nunca mais esqueci, acrescentou:
- Muito me admira que o P.e José,
sendo Missionário do Espírito Santo, não aceite nem acredite neste dom do Espírito
Santo, que é sem dúvida o mais pequeno, mas que é fundamental para a oração
e para receber outros dons...
O argumento fez-me calar, mas não
me convenceu. Foi na Gregoriana, num curso ministrado pelo P. Sulivam, Jesuita,
que falando de carismas explicou um pouco o que é o dom de línguas. A exposição
convenceu a meu intelecto. Agora só faltava abrir o coração, e tagarelar para
Deus como criança que tagarela para os pais.
A graça da efusão (Baptismo) do Espírito - 24 de Março de 1974
Foi no dia 24 de Março de 1974
que, ao meio da caminhada dos Seminários , se realizou a celebração para a "Efusão
(Baptismo) do Espírito".
Depois da oração inicial e do
ensinamento sobre a "Efusão do Espírito", em consonância com a Bíblia,
a Teologia e a prática na Igreja dos primeiros tempos, houve uma hora de oração
pessoal. Cada um, com a liberdade que o Espírito dá, era livre de dar o passo
em frente, renunciando a todo o pecado e aceitando Jesus como Salvador e Senhor
de sua vida. Fez-se a renovação das promessas do Baptismo, já que a
"Efusão" é uma graça que, pela fé dos crentes e pela oração da
comunidade, renova, reanima e dinamiza a vida baptismal, abrindo caminho para
libertar e deixar actuar livremente o Espírito Santo.
Em pequenos grupos, irmãos e irmãs
do grupo Hossana e de outros grupos de Roma, rezaram e impuseram as mãos sobre
cada um dos 50 neófitos que, como eu, aceitaram na fé e na humildade fazer
esta experiência de vida nova.
Uma experiência única, inesquecível, inexprimível...
Uma experiência espiritual não
se pode descrever. Pode sim, viver-se e testemunhar-se pelos frutos.
Este dia e esta graça da Efusão
sinalizam uma nova fase da minha vida, como cristão, sacerdote e missionário.
Alguns dias antes tive consciência profunda que algo de novo ia acontecer na
minha vida...
Duante a oração algo aconteceu
de profundo, de belo, de maravilhoso que não sei descrever, mas que me penetrou
até ao mais fundo do meu ser. Naquele momento, eu poderia dizer que o Espírito
Santo veio sobre mim e me deu uma consciência viva de que Deus me habitava.
Durante a cerimónia, e em muitos
dias que se seguiram, a presença de Deus fazia-se sentir na paz, na alegria, na
harmonia, no amor. O Espírito de Jesus deu-me consciência clara que a semente
da Palavra de Deus estava lançada e a germinar no meu coração, para rezar sem
cessar, amar Deus e os irmãos, tirando de mim todas as fronteiras de indiferença,
de ressentimentos... Jesus havia operado no meu coração ferido a graça da
conversão e do entusiasmo missionário. Outros frutos se foram manifestando: um
grande amor à Eucaristia, aos Sacramentos e uma maior devoção a Nossa
Senhora... Senti que aconteceu um Pentecostes pessoal que, como faúlha do Espírito,
uma vez criadas as condições, quer crescer e propagar-se...
A experiência da "Efusão"
que gera a vida nova no Espírito é muito mais vasta e profunda e não há
palavras no dicionário para explicar o "inexprimível" em linguagem
humana...
A semente foi lançada e acolhida
em Roma, cabeça e coração da Igreja de Cristo, essencialmente hierárquica e
essencialmente carismática.
Esta semente de Vida Nova no Espírito
irá germinar, em Fátima, florir e frutificar em Portugal, como se relatará em
posteriores edições.
Lisboa , 24 de Março de
2001
P.e José da
Lapa
Missionário
do Espírito Santo