A
primeira experiência carismática
Enquanto a Igreja suplicava por um
novo pentecostes e começava a vivê-lo a nível da hierarquia, uma faúlha
insignificante começou a acender-se nos Estados Unidos.
O Renovamento Carismático está
ligado, desde as suas origens, a duas Universidades católicas americanas: de
Duquesne, em Pittsburg (Pensilvânia)
e de Notre Dame, em South Bend (Indiana). A Universidade de Duquesne é dirigida
por Padres do Espírito Santo e o seu nome completo é Universidade do Espírito Santo de Duquesne. A Universidade de Notre
Dame é a universidade católica mais conhecida nos Estados Unidos e é dirigida
pelos Padres da Santa Cruz. A estas duas haveria de juntar-se a Universidade de
Ann Arbor, em East Lansing (Michigan), que também esteve ligada desde os
primeiros dias. Entre estas universidades existiam muitos laços de união.
Muitos professores conheciam-se, eram amigos e comunicavam entre si. Alguns eram
membros activos dos Cursilhos de
Cristandade, que tinham sido introduzidos com grande êxito, em 1964, na
Universidade de Notre Dame.
Em Agosto de 1966 celebrou-se, na
Universidade de Duquesne, o congresso nacional dos Cursilhos de Cristandade. Vários
professores assistiram, entre os quais Ralph Keifer e a esposa, Patrick
Bourgeois e William Storey. Também estiveram presentes alguns professores da
Universidade de Notre Dame, entre os quais Steve Clark e Ralph Martin. Steve
Clark comunicou aos seus companheiros que tinha acabado de ler um livro que lhe
tinha chamado muito a atenção. Chamava-se A
cruz e o punhal e nele se relatava o ministério de um pastor protestante
entre as quadrilhas mais perigosas dos bairros de Nova Iorque e como as suas
vidas mudavam por completo quando recebiam o baptismo ou a efusão do Espírito
Santo. Seria verdade tudo aquilo? Seria um relato novelesco? Um dos professores
quis comprovar, passo a passo, texto por texto, tudo o que se dizia no livro
sobre a efusão do Espírito, para ver
se coincidia com o que está dito no Novo Testamento. Tudo lhe pareceu claro e
convincente. Era como descobrir o cristianismo pela primeira vez. Jesus foi
baptizado no Espírito, prometeu o Espírito aos seus discípulos, eles foram
baptizados no Espírito e assim começou para eles uma vida nova e cheia de
poder. A cruz e o punhal era um
testemunho vivo de que o Espírito Santo continuava a actuar com poder. Pouco
depois chegou-lhes às mãos um livro de J.L.Sherril, intitulado Falam
outras línguas, que também leram com avidez. Durante algum tempo os
professores de Duquesne partilharam entre eles o conteúdo daqueles livros e
oraram com base neles. Ali podia estar o segredo dessa força e desse poder que
procuravam. Porque não pedir ao Espírito Santo que animasse as suas vidas e as
dos demais? E comprometeram-se todos a rezar diariamente, uns pelos outros, a
sequência Vem Espírito Divino. E continuaram à espera de uma resposta.
Estava-se já no Outono do ano de 1966.
E chegou o momento em que acharam que
já tinham lido, discutido, partilhado e orado bastante. Que fazer? Nas reuniões
levantaram várias possibilidades: assistir a uma reunião de oração de um
grupo pentecostal, imporem as mãos uns sobre os outros para pedir uma efusão
do Espírito Santo... Mas acharam que o melhor era ter um encontro com alguns
neopentecostais que tivessem permanecido nas suas próprias igrejas. Sentiam
necessidade de conhecer alguém que falasse em línguas e que tivesse poder de
cura, enfim, que tivesse feito a experiência da efusão do Espírito.
Puseram-se em contacto com um sacerdote da Igreja episcopaliana chamado William
Lewis, que os conduziu a uma das suas paroquianas, chamada Betty Shomaker, que
era membro de um grupo carismático interconfessional. Era um grupo pequeno, mas
vivo. Pouco antes do encontro de 13 de Janeiro de 1967 Flo Dodge recebeu uma
chamada de Betty Schomaker, a pedir-lhe que se fizesse algo especial na noite em
que os católicos os visitassem. Flo Dodge sentia uma voz interior que lhe
dizia: “Pede-lhes (aos responsáveis) que ajudem e orem e sejam obedientes ao
Espírito Santo e algo histórico acontecerá”.
Na tarde de 13 de Janeiro, entre as
sete e meia e as oito, chegaram à moradia de Flo Dodge quatro visitantes da
Universidade de Duquesne. Ali estavam W. Storey, R. Keifer e sua esposa, e
Patrick Bourgeois. A oração começou e seguiu o seu curso normal mas, quando
estava para acabar, W. Storey levantou-se de repente e disse: “Há muito tempo
que espero este momento. Vim para receber a efusão do Espírito e não
me vou embora sem a ter obtido”. Flo Dodge pediu a um membro do grupo,
chamado Jim Prophater, que se reunisse com o professor e averiguasse se estava
disposto a receber a efusão do Espírito Santo. Jim perguntou-lhe, segundo o
testemunho de Flo Dodge, qual era a sua fé em Jesus. O professor respondeu-lhe
que O amava de todo o seu coração e que estava ansioso por receber mais do seu
Espírito Santo. Os assistentes deram as mãos, formando uma roda, e Jim
Prophater fez uma oração singela: “Senhor, Tu conheces o seu coração e a
sua necessidade. Enche-o do Teu Espírito Santo até que transborde”. Flo
Dodge assegura que pôde sentir o Espírito Santo a descer sobre o professor.
Mas ele não rezou em línguas e ninguém impôs as mãos sobre ele.
Na sexta-feira seguinte, 20 de Janeiro
de 1967, dois daqueles quatro católicos voltaram a casa de Flo Dodge. A oração
terminou quando Patrick Bourgeois e R. Keifer pediram que rezassem para que
recebessem a efusão do Espírito. Pediram-lhes que fizessem um acto de fé.
Acto contínuo R. Keifer começou a falar em línguas.
A vida daqueles professores sofreu uma
profunda transformação. A efusão do Espírito
foi a resposta dada por Deus ao seu desejo e à sua oração, para que a sua
vida fosse reavivada e o seu ministério tivesse força e poder. Logo em seguida
Jesus tornou-se muito mais familiar, a oração converteu-se em puro louvor ao
Senhor, uma nova fé fazia-os transbordar de alegria. A faúlha estava acesa.
Podia ter sido somente uma faísca. Mas o Senhor tinha guardadas grandes
surpresas.
Pe. Vicente Borragán Mata, OP
in “Como um Vendaval... O Renovamento Carismático”,ed. Pneuma