Ao fazer a história das origens
do Renovamento Carismático, parece quase inevitável referir-se a oração que
o Papa João XXIII compôs por ocasião da convocação do Concílio Vaticano II
em que dizia, entre outras coisas: “Digne-se o Divino Espírito escutar da
forma mais consoladora a oração que sobe a Ele desde as profundezas da
terra... Renovai no nosso tempo os prodígios como num novo
pentecostes...”
Como surgiu em João XXIII o desejo de
convocar um concílio universal e de pedir um novo pentecostes para a
Igreja? Porque não imaginar uma igreja inundada de dons e carismas? Que
esperava para a igreja?
Parece que a ideia de um concílio
surgiu na mente do Papa com uma naturalidade surpreendente. Numa manhã de
inverno, a 20 de Janeiro de 1959, João XXIII estava sentado na sua sala de
trabalho, na biblioteca pontifícia. Diante dele estava o cardeal Tardini,
Secretário de Estado, que recebia todas as manhãs. Naquele dia examinaram a
situação crítica da Igreja nalguns países. Que deveria fazer a Igreja? O
cardeal Tardini escutava, com respeito. O Papa fazia a si mesmo um monte de
perguntas. De repente sussurrou-lhe uma palavra: “Um concílio!” O cardeal
Tardini ficou imediatamente conquistado pela ideia. O assentimento do cardeal
foi “como o primeiro sinal seguro da vontade do Senhor”. “Flor de
inesperada primavera”, assim definiu João XXIII a ideia de convocar um concílio.
E, no dia 25 de Janeiro de 1959, foi solenemente anunciado o concílio Vaticano
II, o vigésimo primeiro concílio na história da Igreja. O Vaticano II foi
inaugurado a 11 de Outubro de 1962. Nele se reuniram 2500 bispos do mundo
inteiro. A cerimónia foi impressionante. O Papa fez a profissão de fé,
enquanto os 2500 bispos acompanhavam, em voz baixa, aquelas palavras: “Juro e
prometo”. Cantaram-se as ladaínhas aos santos e o evangelho, em latim e
grego. João XXIII falou durante 35 minutos em latim. Foi um discurso “valente
e explosivo”. Foi como um bom presságio em relação ao que estava para vir.
João XXIII morreu no dia 3 de Junho
de 1963. Dezoito dias depois, a 21 de Junho de 1963, era eleito sumo Pontífice
o cardeal João Baptista Montini, que tomou o nome de Paulo VI. E, no dia
seguinte à sua eleição, apressou-se a anunciar que a “parte principal” do
seu pontificado seria ocupada com a continuação do Concílio.
O concílio terminou no dia 7 de
Dezembro de 1965, depois de quatro sessões (1962, 1963, 1964, 1965). Mas o Espírito
não encerrou a Sua obra quando se concluíram as sessões conciliares,
permaneceu activo na vida da Igreja.
O Vaticano II foi um tempo de graça.
O Espírito Santo voltou a ocupar o primeiro lugar na vida da Igreja. Nos textos
conciliares fala-se do Espírito 258 vezes. Foi como um pentecostes para os
bispos e a partir deles para a Igreja inteira. A Igreja foi abraçada pelo Espírito
e ela abraçou o mundo inteiro e entrou em diálogo amistoso com ele, sem
reprovações nem condenações, com uma palavra salvadora nos seus lábios.
Que imaginávamos que poderia
acontecer quando João XXIII convocou o concílio Vaticano II e pediu ao Senhor
um novo pentecostes para a Igreja?
Sabemos o que sucedeu no primeiro Pentecostes da Igreja: fogo, línguas, louvor,
medos vencidos, vidas transformadas... Foi isso que pedimos nos meses anteriores
ao Concílio: “Renovai tudo isto em nossos dias; renovai o fogo e o poder, as
línguas e o louvor, a alegria e o testemunho, os dons e os carismas, as graças
do princípio”. O que esperávamos? Um Espírito Santo que deixasse as coisas
tal como estavam e não se metesse nas nossas vidas? “Talvez estivéssemos
preparados para receber um Espírito que fosse uma brisa suave, mas não um
vendaval; um Espírito que trouxesse calor, mas não que fosse um fogo
abrasador” (S. Falvo). Um novo pentecostes! Um sopro renovador para toda a
Igreja e todos os homens! Foi isso que pedimos. O Vaticano II foi o prelúdio do
Renovamento. Quando terminou o Concílio, começou o Renovamento. “O Vaticano
II foi o Pentecostes oficial dos bispos, o Renovamento Carismático o
pentecostes dos fiéis”.
Pe. Vicente Borragán Mata, OP
in “Como um Vendaval... O Renovamento Carismático”,ed. Pneuma